Nossa Senhora da Flor Roxa

rosai por nós…

 

 

 

 

Currículo

A história é muito simples

você nasce

contempla atribulado

o vermelho azul do céu

o pássaro que emigra

o primitivo besouro

que seu sapato esmagará

valente

 

 

você sofre

reclama por comida

e por costume

por obrigação

chora limpo de culpas

extenuado

até que o sono o desmorone

 

 

você ama

se transfigura e ama

por uma eternidade tão provisória

que até o orgulho se torna terno

e o coração profético

se converte em escombros

 

 

você aprende

e usa o aprendido

para tornar-se lentamente sábio

para saber que no fim o mundo é isto

em seu melhor momento uma nostalgia

em seu pior momento um desamparo

e sempre sempre

uma confusão

 

 

então

você morre.

 

 

 

(Mario Benedetti)

 

 

 

 

Nossa Senhora da Flor Roxa

rosai por nós

assim na vida

como no chão

a primavera de cada ano

nos dai hoje

encantai nosso jardim

assim como encantamos

o do vizinho

e não nos deixeis cair na tentação

de esquecer tuas flores

 

 

 

(Alice Ruiz)

 

 

 

 

Confissão

De um e outro lado do que sou,

da luz e da obscuridade,

do ouro e do pó,

ouço pedirem-me que escolha;

e deixe para trás a inquietação,

a dor,

um peso de não sei que ansiedade.

 

 

Mas levo comigo tudo

o que recuso. Sinto

colar-se-me às costas

um resto de noite;

e não sei voltar-me

para a frente, onde

amanhece.

 

 

 

(Nuno Júdice)

 

 

 

 

Mundo Pequeno

O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino e suas latas

maravilhosas.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas

com aves.

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os

besouros pensam que estão no incêndio.

Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa

Ele me rã

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter

os ocasos.

 

 

 

(Manoel de Barros)

Os Ventos Interiores

Todo homem traz um deus Saturno por dentro

 

 

João Cabral de Melo Neto


 

 

 

Poema de desintoxicação

Em densas noites
com medo de tudo:
de um anjo que é cego
de um anjo que é mudo.

Raízes de árvores
enlaçam-me os sonhos
no ar sem aves
vagando tristonhos.

Eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada.

O poema inquieta
o papel e a sala.
Ante a face sonhada
o vazio se cala.

Ó face sonhada
de um silêncio de lua,
na noite da lâmpada
pressinto a tua.

Ó nascidas manhãs
que uma fada vai rindo,
sou o vulto longínquo
de um homem dormindo.
 

 

 

(João Cabral de Melo Neto)

 

 

 

 

Manoel de Barros


 

 

 

Alfama

Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao fóssil,
ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas negras pedras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!
 

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

 

Carlos Drummond de Andrade


 

 

 

A noite dissolve os homens

A noite
desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança…
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo… O mundo não tem remédio…
Os suicidas tinham razão.
 

 

 

(Carlos Drummond de Andrade)

 

 

 

Cultivado, é Velho Sábio

Com o menino Júpiter brincando na calçada

 

 

 

 

A noite dissolve os homens (cont…)

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio…

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.
 

 

 

(Carlos Drummond de Andrade)

 

 

 

Cândido Portinari


 

 

 

 

As bênçãos

Não tenho a anatomia de uma garça pra receber
em mim os perfumes do azul.
Mas eu recebo.
É uma bênção.
Às vezes se tenho tristeza, as andorinhas me
namoram mais de perto.
Fico enamorado.
É uma bênção.
Logo dou aos caracóis ornamentos de ouro
para que se tornem peregrinos do chão.
Eles se tornam.
É uma bênção.
Até alguém já chegou de me ver passar
a mão nos cabelos de Deus!
Eu só queria agradecer.
 

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

Gaëtan Bourque


 

 

 

 

Do trabalho

O trabalho é a farra dos velhos.
 

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

Rudolf Vlcek

 

 

 

 

Sem morder o lápis

 

 

O que aprendi com o Manoel de Barros

Um verdadeiro poeta não faz poesia; arranja as letras
com o lápis afiado num bloquinho de notas qualquer.

Mas nem arranja de compor e sim de brincar; de dar
outro sentido para as palavras de brincadeiras.

Como fazer do papel um barco e nele soltar um rio azul; mas tão caudaloso
de azul que meninos podem nele vir mergulhar e nadar com os peixes.

(confesso que no meu caso o caudaloso era tão azul que vermelho com certo
quê de inóspito; improvável de que alguém viesse por ele um dia se navegar)

Mais adiante o vermelho esverdece num regato sereno; onde
os meninos podem vadiar junto de tartarugas e formigas.

(no meu caso esse verde era de um sereno tão minguado que raso
que cinza; impossível de que alguém conseguisse nele mergulhar)

O poeta navega mesmo o inavegável; por entre
o minguado e o inóspito mergulha no impossível.

Porque só o improvável sustenta a poesia e dá gosto
ao poeta. (antes, eu mordia os lápis; hoje mordo palavras)
 

 

(Juçana Corrêa)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas palavras do mestre:

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mão disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o voo de um pássaro
botando ponto no final da frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho, você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os
vazios com as suas

peraltagens,

e algumas pessoas
vão te amar por seus

despropósitos.

 

 

(Manoel de Barros)

Segunda-feira

 

 

 

 

 

 

 

 

No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá

onde a criança diz: Eu escuto a cor dos

passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não

funciona para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um

verbo, ele delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz

de fazer nascimentos -

O verbo tem que pegar delírio.

 

 

 

(Manoel de Barros)

Mario & Manoel

 

 

 

.

 

 

 

De Gramática e de Linguagem

E havia uma gramática que dizia assim:

“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica

Pessoa, animal ou coisa: João, sabiá, caneta”.

Eu gosto é das coisas. As coisas, sim!

As pessoas atrapalham. Estão em toda parte.

Multiplicam-se em excesso.

As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com

ninguém.

Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre,

Ovo pode estar choco: é inquietante.)

As coisas vivem metidas com as suas coisas.

E não exigem nada.

Apenas que não as tirem do lugar onde estão.

E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa

porta.

Para quê? não importa: João vem!

E há-de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,

Amigo ou adverso… João só será definitivo

Quando esticar a canela. Morre, João.

Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,

Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.

Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso.

Sonoro. Lento. Eu sonho

Com uma linguagem composta unicamente de

adjetivos

Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.

 

Ainda mais:

Eu sonho com um poema

Cujas palavras sumarentas escorram

Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,

Um poema que te mate de amor.

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

Os rios recebem, no seu percurso, pedaços de pau,

folhas secas, pena de urubu

E demais trombolhos.

Seria como o percurso de uma palavra antes de

chegar ao poema.

As palavras, na viagem para o poema, recebem

nossas torpezas, nossas demências, nossas vaidades,

E demais escorralhas.

As palavras se sujam de nós na viagem.

Mas desembarcam no poema escorreitas: como que

filtradas.

E livres das tripas do nosso espírito.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

Um homem catava pregos no chão.

Sempre os encontrava deitados de comprido, ou de lado, ou de joelhos no chão.

Nunca de ponta.

Assim eles não furam mais – o homem pensava.

Eles não exercem mais a função de pregar.

São patrimônios inúteis da humanidade.

Ganharam o privilégio do abandono.

O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados.

Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.

Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.

Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.

Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

O tamanho da gente

O homem acha o Cosmos infinitamente grande

E o micróbio infinitamente pequeno.

E ele, naturalmente,

Julga-se do tamanho natural…

Mas, para Deus, é diferente:

Cada ser, para Ele, é um universo próprio.

E, a Seus olhos, o bacilo de Koch,

A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras

São todos infinitamente do mesmo tamanho…

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

O Susto

Isto foi há muito tempo, na infância provinciana

do autor, quando havia serões em família.

 

Juquinha estava lendo, em voz alta,

A Confederação dos Tamoios.

 

Tarararararará, tararara rarara,

Tarararararará, tarararararará.

Lá pelas tantas, Gabriela deu o estrilo:

- Mas não tem rima!

 

Sensação. Ninguém parava de não acreditar.

Juquinha, desamparado, lê às pressas os finais dos

últimos versos… quérulo… branco… tuba… inane…

vaga… infinitamente.

 

Meu Deus! Como poderia ser aquilo?!

 

A rima deve estar no meio – diz, sentencioso, o

major Pitaluga.

 

E todos suspiraram, agradecidos.

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

Auto-Retrato Falado

Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.

Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.

Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,

aves, pessoas humildes, árvores e rios.

Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar

entre pedras e lagartos.

Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto

meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou

abençoado a garças.

Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que

fui salvo.

Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.

Os bois me recriam.

Agora eu sou tão ocaso!

Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço

coisas inúteis.

No meu morrer tem uma dor de árvore.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

PARREDE!

Quando eu estudava no colégio, interno,

Eu fazia pecado solitário.

Um padre me pegou fazendo.

- Corrumbá, no parrrede!

Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e

decorar 50 linhas de um livro.

O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima

de Vieira.

- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.

O que eu lera por antes naquele colégio eram romances

de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.

Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei

embevecido.

E li o Sermão inteiro.

Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!

E fiz de montão.

- Corumbá, no parrrede!

Era a glória.

Eu ia fascinado pra parede.

Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.

Decorei e li o livro alcandorado.

Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.

Gostar quase até do cheiro das letras.

Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.

Ficar no parrrede era uma glória.

Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.

A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio

das paredes.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

Do ferro de engomar, que se assoprava por trás,

saíam faíscas como do traseiro do Diabo. As faces de

Marianinha ficavam cada vez mais afogueadas, mais

lustrosas e lindas, como as maçãs artificiais que havia

no centro-de-mesa da sala de jantar. Não sei por que

estou evocando todos esses pormenores – eles não

levam a nenhum enredo notório, desculpem… Eu me

aproximo como um gato, por trás.

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

Aula inaugural de uma pequena escola do

interior. Os alunos, endomingados como requeria a

ocasião. O professor, grave, de preto, voz cava. Pelo

que bem se vê que a aula era de Português. E eis que

no final, tão ansiado pela gente miúda como pela

gente grande, ele tossiu, mudou de tom e disse:

 

- Atenção, meninos! para gravarem melhor a

matéria exposta, copiem o esquema que vou traçar no

quadro-negro.

 

Perpassa, pela classe um frio de pânico.

Esquema?! Meu Deus, que diabo disto seria aquilo?

 

Mas o professor, que, além de autodidata, era

também humano, farejou a angústia daquelas

alminhas e esclareceu então, com um esgar bondoso:

 

- uma sinopse, meus filhos, apenas uma

sinopse…

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

XIII

As coisas não querem mais ser vistas por

pessoas razoáveis:

Elas desejam ser olhadas de azul -

Que nem uma criança que você olha de ave.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

13

Lugar em que há decadência.

Em que as casas começam a morrer e são habitadas por

morcegos.

Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas

a dentro.

Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a

dentro.

Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.

Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.

Onde os homens terão a força da indigência.

E as ruínas darão frutos.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

7

E, pelo que me toca, a verdade é que nunca pude

esquecer estas palavras de um personagem de Balzac:

«O deserto é Deus sem os homens».

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

O aventureiro

Sempre que o homem conquista a certeza de

alguma coisa: redondeza da terra, heliocentrismo,

etc., ele acaba por se chatear soberanamente e,

passando por cima das esfinges mortas, parte em busca

de novos enigmas, de novas dúvidas, ante a indiferença

das pedras, das velhas comadres e das estrelas.

 

 

(Mario Quintana)

 

 

9

Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a

lesma deixa risquinhos líquidos…

A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as

palavras

Neste coito com letras!

Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se

Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma

escorre…

Ela fode a pedra.

Ela precisa desse deserto para viver.

 

 

(Manoel de Barros)

Gorjeios

se a beleza tivesse voz
cinco músicos emocionados
sete poemas passarinheiros
se reunisse três continentes
a beleza teria a voz que têm as coisas livres
e faria o som que fazem as coisas livres
quando podem voar, e pousam, assim…

(clique no coração para ouvir)

 

 

 

 

 

 

América

 

Na língua dos pássaros uma expressão tinge
a seguinte.
Se é vermelha tinge a outra de vermelho.
Se é alva tinge a outra dos lírios da manhã.
É língua muito transitiva a dos pássaros.
Não carece de conjunções nem de abotoaduras.
Se comunica por encantamentos.
E por não ser contaminada de contradições
A linguagem dos pássaros
Só produz gorjeios.

 

(Manoel de Barros)

 

Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não doi.

 

(Paulo Leminski)

 

um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar

me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar

a este deus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro

nele cresça
até virar vendaval

 

(Paulo Leminski)

 

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

Europa

 

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

 

(Eugénio de Andrade)

 

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

 

(Eugénio de Andrade)

 

 

 

África

 

Lançamos o barco.
Sonhamos a viagem.
Quem viaja é sempre o mar.

 

(Mia Couto)

Totem

Dos eus que aprendi em família

Do pai, da mãe, do avô, da filha

Sou, paraentreles, o irmão

.

.

ajuntando lenha para o inverno

.

.

.

Do Avô

.

A ALEGRIA DOS PÉS NA TERRA MOLHADA

Quando as palavras se deixam possuir
como se fossem raízes e ossos leves que trepam
à montanha
ouço a infância, o som do berlinde, a flauta
do anjo anunciador da chuva
e a formiga da mãe a enxotar-me
para a escola onde aprendi
a ler no quadro da janela
as metamorfoses do céu. A poesia escreve-se
copiando os mestres, imitando mal
as fontes naturais: as patas
da água
descendo pela serra; a melopeia silenciosa
do azeite; a boca do vento
nas telhas da velha casa
do monte; a chama interior
dos cavalos
e dos cães da família: de manhã
pela mão do avô
eu partia de visita às árvores
e aos pássaros — esta é uma cerejeira, aquela,
a dona nogueira, olha
um picanço! a que parece muito cansada
é a figueira. Vamos comer um? O avô
pegava nele como se fosse um animalzinho
acabado de nascer, um pássaro com pétalas e já morto
na boca sedenta e logo
saciada. Um figo é uma
dádiva do sol e da terra e da nossa
humilde fome, e tudo são figos, ah não comas,
não comas nunca nada
sem fome. Ouço —
aprendi nesses dias a ouvir
o melhor da infância: água
na língua
quando a morte é gêmea e se
aproxima.

(Casimiro de Brito)

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Do pai, da mãe e do filho

.

EXERCÍCIOS DE SER CRIANÇA

No aeroporto o menino perguntou:
— E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
— E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes
da poesia?
Será que os despropósitos não são mais carregados
de poesia do que o bom senso?
Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com
as crianças.
E ficou sendo.

(Manoel de Barros)

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Do tio imaginário

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AS FALSAS RECORDAÇÕES

Se a gente pudesse escolher a infância que teria
vivido, com que enternecimento eu não recordaria
agora aquele velho tio de perna de pau, que nunca
existiu na família, e aquele arroio que nunca passou
aos fundos do quintal, e onde íamos pescar e sestear
nas tardes de verão, sob o zumbido inquietante dos
besouros…

 (Mario Quintana)

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Do eu solitário

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O POEMA

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

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De nós

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CONTIGO, COMIGO

Como contigo
Eu chego a mim!

Como me trazes
A esfera imensa
Do mundo meu
E toda a encerras
Dentro de mim!

Como contigo
Eu chego a mim!
Ah como pões
Dentro de mim
A flor, a estrela,
O vento, o sol,
A água, o sonho!…

Como contigo
Eu chego a mim!

(Manuel Bandeira)

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Para sempre

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DO INQUIETO OCEANO DA MULTIDÃO

Do inquieto oceano da multidão
veio a mim uma gota gentilmente
suspirando:

— Eu te amo, há longo tempo
fiz uma extensa caminhada apenas
para te olhar, tocar-te,
pois não podia morrer
sem te olhar uma vez antes,
com o meu temor de perder-te depois.

— Agora nos encontramos e olhamos,
estamos salvos,
retorna em paz ao oceano, meu amor,
também sou parte do oceano, meu amor,
não estamos assim tão separados,
olha a imensa curvatura,
a coesão de tudo tão perfeito!
Quanto a mim e a ti,
separa-nos o mar irresistível
levando-nos algum tempo afastados,
embora não possa afastar-nos sempre:
não fiques impaciente — um breve espaço
e fica certa de que eu saúdo o ar,
a terra e o oceano,
todos os dias ao pôr-do-sol
por tua amada causa, meu amor.

(Walt Whitman)

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