Manoel de Barros

Nossa Senhora da Flor Roxa

rosai por nós…

 

 

 

 

Currículo

A história é muito simples

você nasce

contempla atribulado

o vermelho azul do céu

o pássaro que emigra

o primitivo besouro

que seu sapato esmagará

valente

 

 

você sofre

reclama por comida

e por costume

por obrigação

chora limpo de culpas

extenuado

até que o sono o desmorone

 

 

você ama

se transfigura e ama

por uma eternidade tão provisória

que até o orgulho se torna terno

e o coração profético

se converte em escombros

 

 

você aprende

e usa o aprendido

para tornar-se lentamente sábio

para saber que no fim o mundo é isto

em seu melhor momento uma nostalgia

em seu pior momento um desamparo

e sempre sempre

uma confusão

 

 

então

você morre.

 

 

 

(Mario Benedetti)

 

 

 

 

Nossa Senhora da Flor Roxa

rosai por nós

assim na vida

como no chão

a primavera de cada ano

nos dai hoje

encantai nosso jardim

assim como encantamos

o do vizinho

e não nos deixeis cair na tentação

de esquecer tuas flores

 

 

 

(Alice Ruiz)

 

 

 

 

Confissão

De um e outro lado do que sou,

da luz e da obscuridade,

do ouro e do pó,

ouço pedirem-me que escolha;

e deixe para trás a inquietação,

a dor,

um peso de não sei que ansiedade.

 

 

Mas levo comigo tudo

o que recuso. Sinto

colar-se-me às costas

um resto de noite;

e não sei voltar-me

para a frente, onde

amanhece.

 

 

 

(Nuno Júdice)

 

 

 

 

Mundo Pequeno

O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino e suas latas

maravilhosas.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas

com aves.

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os

besouros pensam que estão no incêndio.

Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa

Ele me rã

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter

os ocasos.

 

 

 

(Manoel de Barros)


Os Ventos Interiores

Todo homem traz um deus Saturno por dentro

 

 

João Cabral de Melo Neto


 

 

 

Poema de desintoxicação

Em densas noites
com medo de tudo:
de um anjo que é cego
de um anjo que é mudo.

Raízes de árvores
enlaçam-me os sonhos
no ar sem aves
vagando tristonhos.

Eu penso o poema
da face sonhada,
metade de flor
metade apagada.

O poema inquieta
o papel e a sala.
Ante a face sonhada
o vazio se cala.

Ó face sonhada
de um silêncio de lua,
na noite da lâmpada
pressinto a tua.

Ó nascidas manhãs
que uma fada vai rindo,
sou o vulto longínquo
de um homem dormindo.
 

 

 

(João Cabral de Melo Neto)

 

 

 

 

Manoel de Barros


 

 

 

Alfama

Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao fóssil,
ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas negras pedras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!
 

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

 

Carlos Drummond de Andrade


 

 

 

A noite dissolve os homens

A noite
desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança…
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo… O mundo não tem remédio…
Os suicidas tinham razão.
 

 

 

(Carlos Drummond de Andrade)

 

 

 

Cultivado, é Velho Sábio

Com o menino Júpiter brincando na calçada

 

 

 

 

A noite dissolve os homens (cont…)

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio…

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.
 

 

 

(Carlos Drummond de Andrade)

 

 

 

Cândido Portinari


 

 

 

 

As bênçãos

Não tenho a anatomia de uma garça pra receber
em mim os perfumes do azul.
Mas eu recebo.
É uma bênção.
Às vezes se tenho tristeza, as andorinhas me
namoram mais de perto.
Fico enamorado.
É uma bênção.
Logo dou aos caracóis ornamentos de ouro
para que se tornem peregrinos do chão.
Eles se tornam.
É uma bênção.
Até alguém já chegou de me ver passar
a mão nos cabelos de Deus!
Eu só queria agradecer.
 

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

Gaëtan Bourque


 

 

 

 

Do trabalho

O trabalho é a farra dos velhos.
 

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

Rudolf Vlcek

 

 

 

 


Sem morder o lápis

 

 

O que aprendi com o Manoel de Barros

Um verdadeiro poeta não faz poesia; arranja as letras
com o lápis afiado num bloquinho de notas qualquer.

Mas nem arranja de compor e sim de brincar; de dar
outro sentido para as palavras de brincadeiras.

Como fazer do papel um barco e nele soltar um rio azul; mas tão caudaloso
de azul que meninos podem nele vir mergulhar e nadar com os peixes.

(confesso que no meu caso o caudaloso era tão azul que vermelho com certo
quê de inóspito; improvável de que alguém viesse por ele um dia se navegar)

Mais adiante o vermelho esverdece num regato sereno; onde
os meninos podem vadiar junto de tartarugas e formigas.

(no meu caso esse verde era de um sereno tão minguado que raso
que cinza; impossível de que alguém conseguisse nele mergulhar)

O poeta navega mesmo o inavegável; por entre
o minguado e o inóspito mergulha no impossível.

Porque só o improvável sustenta a poesia e dá gosto
ao poeta. (antes, eu mordia os lápis; hoje mordo palavras)
 

 

(Juçana Corrêa)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas palavras do mestre:

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mão disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o voo de um pássaro
botando ponto no final da frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho, você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os
vazios com as suas

peraltagens,

e algumas pessoas
vão te amar por seus

despropósitos.

 

 

(Manoel de Barros)


Segunda-feira

 

 

 

 

 

 

 

 

No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá

onde a criança diz: Eu escuto a cor dos

passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não

funciona para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um

verbo, ele delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz

de fazer nascimentos -

O verbo tem que pegar delírio.

 

 

 

(Manoel de Barros)


Mario & Manoel

 

 

 

.

 

 

 

De Gramática e de Linguagem

E havia uma gramática que dizia assim:

“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica

Pessoa, animal ou coisa: João, sabiá, caneta”.

Eu gosto é das coisas. As coisas, sim!

As pessoas atrapalham. Estão em toda parte.

Multiplicam-se em excesso.

As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com

ninguém.

Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre,

Ovo pode estar choco: é inquietante.)

As coisas vivem metidas com as suas coisas.

E não exigem nada.

Apenas que não as tirem do lugar onde estão.

E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa

porta.

Para quê? não importa: João vem!

E há-de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,

Amigo ou adverso… João só será definitivo

Quando esticar a canela. Morre, João.

Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,

Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.

Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso.

Sonoro. Lento. Eu sonho

Com uma linguagem composta unicamente de

adjetivos

Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.

 

Ainda mais:

Eu sonho com um poema

Cujas palavras sumarentas escorram

Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,

Um poema que te mate de amor.

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

Os rios recebem, no seu percurso, pedaços de pau,

folhas secas, pena de urubu

E demais trombolhos.

Seria como o percurso de uma palavra antes de

chegar ao poema.

As palavras, na viagem para o poema, recebem

nossas torpezas, nossas demências, nossas vaidades,

E demais escorralhas.

As palavras se sujam de nós na viagem.

Mas desembarcam no poema escorreitas: como que

filtradas.

E livres das tripas do nosso espírito.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

Um homem catava pregos no chão.

Sempre os encontrava deitados de comprido, ou de lado, ou de joelhos no chão.

Nunca de ponta.

Assim eles não furam mais – o homem pensava.

Eles não exercem mais a função de pregar.

São patrimônios inúteis da humanidade.

Ganharam o privilégio do abandono.

O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados.

Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.

Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.

Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.

Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

O tamanho da gente

O homem acha o Cosmos infinitamente grande

E o micróbio infinitamente pequeno.

E ele, naturalmente,

Julga-se do tamanho natural…

Mas, para Deus, é diferente:

Cada ser, para Ele, é um universo próprio.

E, a Seus olhos, o bacilo de Koch,

A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras

São todos infinitamente do mesmo tamanho…

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

O Susto

Isto foi há muito tempo, na infância provinciana

do autor, quando havia serões em família.

 

Juquinha estava lendo, em voz alta,

A Confederação dos Tamoios.

 

Tarararararará, tararara rarara,

Tarararararará, tarararararará.

Lá pelas tantas, Gabriela deu o estrilo:

- Mas não tem rima!

 

Sensação. Ninguém parava de não acreditar.

Juquinha, desamparado, lê às pressas os finais dos

últimos versos… quérulo… branco… tuba… inane…

vaga… infinitamente.

 

Meu Deus! Como poderia ser aquilo?!

 

A rima deve estar no meio – diz, sentencioso, o

major Pitaluga.

 

E todos suspiraram, agradecidos.

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

Auto-Retrato Falado

Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.

Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.

Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,

aves, pessoas humildes, árvores e rios.

Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar

entre pedras e lagartos.

Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto

meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou

abençoado a garças.

Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que

fui salvo.

Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.

Os bois me recriam.

Agora eu sou tão ocaso!

Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço

coisas inúteis.

No meu morrer tem uma dor de árvore.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

PARREDE!

Quando eu estudava no colégio, interno,

Eu fazia pecado solitário.

Um padre me pegou fazendo.

- Corrumbá, no parrrede!

Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e

decorar 50 linhas de um livro.

O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima

de Vieira.

- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.

O que eu lera por antes naquele colégio eram romances

de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.

Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei

embevecido.

E li o Sermão inteiro.

Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!

E fiz de montão.

- Corumbá, no parrrede!

Era a glória.

Eu ia fascinado pra parede.

Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.

Decorei e li o livro alcandorado.

Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.

Gostar quase até do cheiro das letras.

Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.

Ficar no parrrede era uma glória.

Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.

A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio

das paredes.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

Do ferro de engomar, que se assoprava por trás,

saíam faíscas como do traseiro do Diabo. As faces de

Marianinha ficavam cada vez mais afogueadas, mais

lustrosas e lindas, como as maçãs artificiais que havia

no centro-de-mesa da sala de jantar. Não sei por que

estou evocando todos esses pormenores – eles não

levam a nenhum enredo notório, desculpem… Eu me

aproximo como um gato, por trás.

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

Aula inaugural de uma pequena escola do

interior. Os alunos, endomingados como requeria a

ocasião. O professor, grave, de preto, voz cava. Pelo

que bem se vê que a aula era de Português. E eis que

no final, tão ansiado pela gente miúda como pela

gente grande, ele tossiu, mudou de tom e disse:

 

- Atenção, meninos! para gravarem melhor a

matéria exposta, copiem o esquema que vou traçar no

quadro-negro.

 

Perpassa, pela classe um frio de pânico.

Esquema?! Meu Deus, que diabo disto seria aquilo?

 

Mas o professor, que, além de autodidata, era

também humano, farejou a angústia daquelas

alminhas e esclareceu então, com um esgar bondoso:

 

- uma sinopse, meus filhos, apenas uma

sinopse…

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

XIII

As coisas não querem mais ser vistas por

pessoas razoáveis:

Elas desejam ser olhadas de azul -

Que nem uma criança que você olha de ave.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

13

Lugar em que há decadência.

Em que as casas começam a morrer e são habitadas por

morcegos.

Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas

a dentro.

Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a

dentro.

Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.

Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.

Onde os homens terão a força da indigência.

E as ruínas darão frutos.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

7

E, pelo que me toca, a verdade é que nunca pude

esquecer estas palavras de um personagem de Balzac:

«O deserto é Deus sem os homens».

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

O aventureiro

Sempre que o homem conquista a certeza de

alguma coisa: redondeza da terra, heliocentrismo,

etc., ele acaba por se chatear soberanamente e,

passando por cima das esfinges mortas, parte em busca

de novos enigmas, de novas dúvidas, ante a indiferença

das pedras, das velhas comadres e das estrelas.

 

 

(Mario Quintana)

 

 

9

Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a

lesma deixa risquinhos líquidos…

A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as

palavras

Neste coito com letras!

Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se

Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma

escorre…

Ela fode a pedra.

Ela precisa desse deserto para viver.

 

 

(Manoel de Barros)


Gorjeios

se a beleza tivesse voz
cinco músicos emocionados
sete poemas passarinheiros
se reunisse três continentes
a beleza teria a voz que têm as coisas livres
e faria o som que fazem as coisas livres
quando podem voar, e pousam, assim…

(clique no coração para ouvir)

 

 

 

 

 

 

América

 

Na língua dos pássaros uma expressão tinge
a seguinte.
Se é vermelha tinge a outra de vermelho.
Se é alva tinge a outra dos lírios da manhã.
É língua muito transitiva a dos pássaros.
Não carece de conjunções nem de abotoaduras.
Se comunica por encantamentos.
E por não ser contaminada de contradições
A linguagem dos pássaros
Só produz gorjeios.

 

(Manoel de Barros)

 

Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não doi.

 

(Paulo Leminski)

 

um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar

me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar

a este deus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro

nele cresça
até virar vendaval

 

(Paulo Leminski)

 

Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

Europa

 

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

 

(Eugénio de Andrade)

 

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

 

(Eugénio de Andrade)

 

 

 

África

 

Lançamos o barco.
Sonhamos a viagem.
Quem viaja é sempre o mar.

 

(Mia Couto)


Totem

Dos eus que aprendi em família

Do pai, da mãe, do avô, da filha

Sou, paraentreles, o irmão

.

.

ajuntando lenha para o inverno

.

.

.

Do Avô

.

A ALEGRIA DOS PÉS NA TERRA MOLHADA

Quando as palavras se deixam possuir
como se fossem raízes e ossos leves que trepam
à montanha
ouço a infância, o som do berlinde, a flauta
do anjo anunciador da chuva
e a formiga da mãe a enxotar-me
para a escola onde aprendi
a ler no quadro da janela
as metamorfoses do céu. A poesia escreve-se
copiando os mestres, imitando mal
as fontes naturais: as patas
da água
descendo pela serra; a melopeia silenciosa
do azeite; a boca do vento
nas telhas da velha casa
do monte; a chama interior
dos cavalos
e dos cães da família: de manhã
pela mão do avô
eu partia de visita às árvores
e aos pássaros — esta é uma cerejeira, aquela,
a dona nogueira, olha
um picanço! a que parece muito cansada
é a figueira. Vamos comer um? O avô
pegava nele como se fosse um animalzinho
acabado de nascer, um pássaro com pétalas e já morto
na boca sedenta e logo
saciada. Um figo é uma
dádiva do sol e da terra e da nossa
humilde fome, e tudo são figos, ah não comas,
não comas nunca nada
sem fome. Ouço —
aprendi nesses dias a ouvir
o melhor da infância: água
na língua
quando a morte é gêmea e se
aproxima.

(Casimiro de Brito)

.

Do pai, da mãe e do filho

.

EXERCÍCIOS DE SER CRIANÇA

No aeroporto o menino perguntou:
— E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
— E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes
da poesia?
Será que os despropósitos não são mais carregados
de poesia do que o bom senso?
Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com
as crianças.
E ficou sendo.

(Manoel de Barros)

.

Do tio imaginário

.

AS FALSAS RECORDAÇÕES

Se a gente pudesse escolher a infância que teria
vivido, com que enternecimento eu não recordaria
agora aquele velho tio de perna de pau, que nunca
existiu na família, e aquele arroio que nunca passou
aos fundos do quintal, e onde íamos pescar e sestear
nas tardes de verão, sob o zumbido inquietante dos
besouros…

 (Mario Quintana)

.

Do eu solitário

.

O POEMA

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

.

De nós

.

CONTIGO, COMIGO

Como contigo
Eu chego a mim!

Como me trazes
A esfera imensa
Do mundo meu
E toda a encerras
Dentro de mim!

Como contigo
Eu chego a mim!
Ah como pões
Dentro de mim
A flor, a estrela,
O vento, o sol,
A água, o sonho!…

Como contigo
Eu chego a mim!

(Manuel Bandeira)

.

Para sempre

.

DO INQUIETO OCEANO DA MULTIDÃO

Do inquieto oceano da multidão
veio a mim uma gota gentilmente
suspirando:

— Eu te amo, há longo tempo
fiz uma extensa caminhada apenas
para te olhar, tocar-te,
pois não podia morrer
sem te olhar uma vez antes,
com o meu temor de perder-te depois.

— Agora nos encontramos e olhamos,
estamos salvos,
retorna em paz ao oceano, meu amor,
também sou parte do oceano, meu amor,
não estamos assim tão separados,
olha a imensa curvatura,
a coesão de tudo tão perfeito!
Quanto a mim e a ti,
separa-nos o mar irresistível
levando-nos algum tempo afastados,
embora não possa afastar-nos sempre:
não fiques impaciente — um breve espaço
e fica certa de que eu saúdo o ar,
a terra e o oceano,
todos os dias ao pôr-do-sol
por tua amada causa, meu amor.

(Walt Whitman)

.


Cecília, Manoel e eu

 

 

 

A enxurrada

 

A enxurrada leva os noivos com seus enxovais.

Há vestidos brancos no fundo dos rios.

Palavras de amor estão sendo arrastadas

na turva correnteza.

 

A enxurrada leva os meninos de colo.

Os meninos ao colo.

A enxurrada amamenta de águas, limos,

flores caídas, relâmpagos,

os meninos translúcidos na morte.

 

A enxurrada leva o grande boi operoso.

Seus olhos aumentam a água.

Seus horizontes vão-se desdobrando em ondas.

Em campos de água já não pesa: flutua.

Tão leve agora, na musculatura veloz da espuma!

 

A enxurrada atravessa os vários reinos da morte,

carregando o mais variado séquito:

a pomba, a pedra, a moça, a mesa.

A enxurrada traz suas ordens, cumpre suas leis.

Na escuridão da noite, onde ninguém nem a si mesmo se encontra,

a enxurrada passa, com seu exército invisível.

Surdos tambores, cavalos ofegantes, bandeiras de vento.

De um lado e de outro, há milhares adormecidos,

que nem a sentem passar nem a poderiam deter.

 

(Cecília Meireles)

 

 

 

 

Há mistérios correndo por cima das palavras como bucha em tapera.

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

 

Há um nome que nos estremece,

Como quando se corta a flor

E a árvore se torce e padece.

Há um nome que alguém pronuncia

Sem qualquer alegria ou dor,

E que em nós, é dor e alegria.

 

Um nome que brilha e que passa,

Que nos corta em puro esplendor,

Que nos deixa em cinza e desgraça.

 

Nele se acaba a nossa vida,

Porque é o nome total do amor

Em forma obscura e dolorida.

 

Há um nome levado no vento.

Palavra. Pequeno rumor

Entre a eternidade e o momento.

 

 

 

À hora em que os cisnes cantam

 

Nem palavras de adeus, nem gestos de abandono.

Nenhuma explicação. Silêncio. Morte. Ausência.

O ópio do luar banhando os meus olhos de sono…

Benevolência. Inconsequência. Inexistência.

 

Paz dos que não têm fé, nem carinho, nem dono…

Todo o perdão divino e a divina clemência!

Ouro que cai dos céus pelos frios do outono…

Esmola que faz bem… – nem gestos, nem violência…

 

Nem palavras. Nem choro. A mudez. Pensativas

abstrações. Vão temor de saber. Lento, lento

volver de olhos, em torno, augurais e espectrais…

 

Todas as negações. Todas as negativas.

Ódio? Amor? Ele? Tu? Sim? Não? Riso? Lamento?

- Nenhum mais. Ninguém mais. Nada mais. Nunca mais…

 

(Cecília Meireles)

 

 

 

…e falando em imagens que palavras desenham:

 

 

 

 

Ponto planeta


Perdido


Cercado

de

espaço

 



Azul por todos os lados

 

 

 

 

 

 


Reedição

Como a vida é longa…

 

 

 

Há mistérios crescendo por cima das palavras como bucha em tapera

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

 

Clair de lune, chiaro de luna, entro de lunia…

jamais os franceses, os italianos e os espanhóis

saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de

um trago numa palavra só.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

Na cidade, a lua:

a jóia branca que bóia

na lama da rua.

 

(Guilherme de Almeida)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

colhidos no mais íntimo de mim…

Suas palavras

seriam as mais simples do mundo,

porém não sei que luz as iluminaria

que terias de fechar teus olhos para as ouvir…

Sim! Uma luz que viria de dentro delas,

como essa que acende inesperadas cores

nas lanternas chinesas de papel!

Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas

do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca soube o que dizer-te

e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento

da Poesia…

como

uma pobre lanterna que incendiou!

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

NUNCA E SEMPRE

 

Sempre cheguei tarde

ou cedo demais.

Não vi a felicidade acontecer.

Nunca floresceram

em minha primavera

as rosas que sonhei colher.

 

Mas sempre os passarinhos

cantaram e fizeram ninhos

pelos beirais

do meu viver.

 

(Helena Kolody)

 

 

 

 

 

 

 

Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa

é do vento.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

A ROSA BRANCA

 

Não me inquieta se o caminho

que me coube – por secreto

desígnio – jamais floresce.

Dentro de mim, sei que existe,

oculta, uma rosa branca.

Incólume rosa. E branca.

 

Não pude colhê-la: mal

nascera e logo perdi-me

nos labirintos do tempo,

onde desde então pervago

apenas entressonhando

aquilo que sou – e vive

no recôncavo da rosa.

 

Sem conhecer-me, padeço

o mistério de existir

em amargo desencontro

comigo mesmo. No entanto,

pesar tão largo se apaga

quando pressinto: na rosa,

mistério não há. Nenhum.

Sem medo de trair-me a face,

posso morrer amanhã.

Extinto o jugo do tempo,

olhos nem boca haverá

- para a queixa e para a lágrima -

se em vez de rosa, de pétala

cinza de pétala, apenas

existir a escuridão.

O vazio. Nada mais.

 

(Thiago de Mello)

 

 

 

 

 

 

A minha alma era uma paisagem hirsuta:

cactos, palmas híspidas,

estranhas flores que atemorizavam (seriam aranhas

carnívoras?) parecia

um texto obscuro com pontuação excessiva;

tudo porque me estavam apontando alguns fios de barba;

e cada fio era uma baioneta calada contra o mundo:

tu

com

a graça aérea de um helicóptero ou de uma libélula

soubeste achar – naquilo – onde o campo de pouso,

soubeste ouvir onde cantava

pura

a fonte oculta…

 

Só tu soubeste achar-me… e te foste!

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

Eu soube enfim que o amor está ligado a mim.

E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.

Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,

Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.

 

(Rumi)

 

 

 

 

 

 

TEMPO PERDIDO

 

Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um

tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as

crianças brincavam sob a clarabóia da lua. E o

cachorro da casa era um grande personagem. E também

o relógio de parede! Ele não media o tempo

simplesmente: ele meditava o tempo.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

 

BLADE RUNNER WALTZ

 

Em mil novecentos e oitenta e sempre,

ah, que tempos aqueles,

dançamos ao luar, ao sol da valsa

A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia,

nome, confesso, um pouco longo,

mas os tempos, aquele tempo,

ah, não se faz mais tempo

como antigamente.

 

Aquilo sim é que eram horas,

dias enormes, semanas anos, minutos milênios,

e toda aquela fortuna em tempo

a gente gastava em bobagens,

amar, sonhar, dançar ao som da valsa,

aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento

que a gente dançava em algum setembro

daqueles mil novecentos e oitenta e sempre.

 

(Paulo Leminski)

 

 

 

 

 

 

REMINISCÊNCIAS

A enchente de 1941. Entrava-se de barco pelo corredor da velha casa de cômodos onde eu morava. Tínhamos assim um rio só para nós. Um rio de portas a dentro. Que dias aqueles! E de noite não era preciso sonhar: pois não andava um barco de verdade assombrando os corredores?

Foi também a época em que era absolutamente desnecessário fazer poemas…

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

OVNI

 

Sou uma coisa entre coisas

O espelho me reflete

Eu (meus

olhos)

reflito o espelho

 

Se me afasto um passo

o espelho me esquece:

– reflete a parede

a janela aberta

 

Eu guardo o espelho

o espelho não me guarda

(eu guardo o espelho

a janela a parede

rosa

eu guardo a mim mesmo

refletido nele):

sou possivelmente

uma coisa onde o tempo

deu defeito

 

(Ferreira Gullar)

 

 

 

 

 

 

Somos donos de nossos atos,

mas não donos de nossos sentimentos;

Somos culpados pelo que fazemos,

mas não somos culpados pelo que sentimos;

Podemos prometer atos,

mas não podemos prometer sentimentos…

Atos são pássaros engaiolados,

sentimentos são pássaros em voo.

 

(Mário Quintana)

 

 

 

 

 

 

O DUPLO

 

Debaixo de minha mesa

tem sempre um cão faminto

- que me alimenta a tristeza.

 

Debaixo de minha cama

tem sempre um fantasma vivo

- que perturba quem me ama.

 

Debaixo de minha pele

alguém me olha esquisito

-pensando que eu sou ele.

 

Debaixo de minha escrita

há sangue em lugar de tinta

- e alguém calado que grita.

 

(Affonso Romano de Sant´Anna)

 

 

 

 

 

O passado não reconhece o seu lugar: esta sempre presente.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

“CATECISMO DE BERCEO”

 

1.

Fazer com que a palavra leve

pese como a coisa que diga,

para o que isolá-la de entre

o folhudo em que se perdia.

 

2.

fazer com que a palavra frouxa

ao corpo de sua coisa adira:

fundi-la em coisa, espessa, sólida,

capaz de chocar com a contígua.

 

3.

Não deixar que saliente fale:

sim, obrigá-la à disciplina

de preferir a fala anônima,

como a todas de uma linha.

 

4.

Nem deixar que a palavra flua

como rio que cresce sempre:

canalizar a água sem fim

noutras paralelas, latente.

 

(João Cabral de Melo Neto)

 

 

 

 

 

 

 

É isso mesmo

Quem nunca se contradiz deve estar mentindo.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

Os espelhos partidos têm muitos mais luas…

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

Sou um sujeito cheio de recantos.

Os desvãos me constam.

Tem hora leio avencas.

Tem horas Proust.

Ouço aves e beethovens.

Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

 

O dia vai morrer aberto em mim.

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

 

 

 

ENVELHECER

 

Antes, todos os caminhos iam,

hoje, todos os caminhos vêm…

A casa é acolhedora, os livros poucos

E eu mesmo sirvo o chá para os fantasmas…

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

MAR, MAR E MAR

 

Tu perguntas, e eu não sei,

eu também não sei o que é o mar.

 

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos

ao reler uma carta, quando é de noite.

Os teus dentes, talvez os teus dentes,

miúdos, brancos dentes, sejam o mar,

um mar pequeno e frágil,

afável, diáfano,

no entanto sem música.

 

É evidente que a minha mãe me chama

quando uma onda e outra onda e outra

desfaz o seu corpo contra o meu corpo.

Então o mar é carícia,

luz molhada onde desperta

meu coração recente.

 

Às vezes o mar é uma figura branca

cintilando entre os rochedos.

Não sei se fita a água

ou se procura

um beijo entre conchas transparentes.

 

Não, o mar não é nardo nem açucena.

É um adolescente morto

de lábios abertos aos lábios de espuma.

É sangue,

sangue onde a luz se esconde

para amar outra luz sobre as areias.

 

Um pedaço de lua insiste,

insiste e sobe lenta arrastando a noite.

Os cabelos da minha mãe desprendem-se,

espalham-se na água,

alisados por uma brisa

que nasce exatamente no meu coração.

O mar volta a ser pequeno e meu,

anêmona perfeita, abrindo nos meus dedos.

 

Eu também não sei o que é o mar.

Aguardo a madrugada, impaciente,

os pés descalços na areia.

 

(Eugénio de Andrade)

 

 

 

 

 

 

 

… e breve



 

 

 

 

 

Fere de leve a frase… E esquece… Nada

Convém que se repita…

Só em linguagem amorosa agrada

A mesma coisa cem mil vezes dita.

 

(Mario Quintana)

 



Mira…

Milagre

 

 

 

 


 

Transformação interna não é encontrar respostas para as suas perguntas, mas encontrar uma nova relação com o pensamento.

Eckhart Tolle

 




 

 



Eu penso na mitologia como a pátria das musas, as inspiradoras da arte, as inspiradoras da poesia.
Encarar a vida como um poema, e a você mesmo como o participante de um poema, é o que o mito faz por você.

Joseph Campbell

 

 

 

 

 

 

Assim,

Ao poeta faz bem

Desexplicar -

Tanto quanto escurecer acende os vagalumes.


Manoel de Barros

 

 

 

 

 


Caminho do Céu

.

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se “Agora”.

Guilherme de Almeida

.

Oh, dia, levanta! Os átomos dançam,
As almas, loucas de êxtase dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Ao ouvido te direi aonde leva esta dança.

Rumi

.

Não é por me gavar
mas eu não tenho esplendor.
Sou referente pra ferrugem
mais do que referente pra fulgor.
Trabalho arduamente para fazer o que é desnecessário.
O que presta não tem confirmação,
o que não presta, tem.
Não serei mais um pobre diabo que sofre de nobrezas.
Só as coisas rasteiras me celestam.
Eu tenho cacoete pra vadio.
As violetas me imensam.

Manoel de Barros,

in Livro sobre Nada


Com-trastes com-graça com-tudo

.

.

.

lua nublada

no alto da montanha

a solitária árvore

(Alonso Alvarez)

.

.

.

Tu eras também uma pequena folha

que tremia no meu peito.

O vento da vida pôs-te ali.

A princípio não te vi: não soube

que ias comigo,

até que as tuas raízes

atravessaram o meu peito,

se uniram aos fios do meu sangue,

falaram pela minha boca,

floresceram comigo.

(Pablo Neruda)

.

.

.

Vem da terra dos barrancos

o jeito doce e violento

da minha vida: esse gosto

da água negra transparente.

.

A vida vai no meu peito,

mas é quem vai me levando:

tição ardente velando,

girassol na escuridão.

(Thiago de Mello)

.

.

.

Nós nunca nos realizamos.

Somos dois abismos – um poço fitando o Céu.

(Bernardo Soares)

.

.

.

(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso

porque não encontrava um título para os seus poemas.

Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que

apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)

.

As antíteses congraçam.

(Manoel de Barros)

.

.

.


Afago


Minha mãe me deu um rio.

Era dia de meu aniversário e ela não sabia

o que me presentear.

Fazia tempo que os mascates não passavam

naquele lugar esquecido.

Se o mascate passasse minha mãe compraria

rapadura

ou bolachinhas para me dar.

Mas como não passara o mascate, minha mãe me

deu um rio.

Era o mesmo rio que passava atrás de casa.

Eu estimei o presente mais do que fosse uma

rapadura do mascate.

Meu irmão ficou magoado porque ele gostava

do rio igual aos outros.

A mãe prometeu que no aniversário de meu

irmão

ela iria dar uma árvore para ele.

Uma que fosse coberta de pássaros.

Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera

ao meu irmão

e achei legal.

Os pássaros ficavam durante o dia nas margens

do meu rio

e de noite eles iriam dormir na árvore do

meu irmão.

Meu irmão me provocava assim:

a minha árvore deu lindas flores em Setembro.

E o seu rio não dá flores!

Eu respondia que a árvore dele não dava

piraputanga.

Era verdade, mas o que nos unia demais eram

os banhos nus no rio entre os pássaros.

Nesse ponto nossa vida era um afago!

Manoel de Barros in Memórias Inventadas

Poemas Rupestres – Manoel de Barros

 

 

 

Por viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar as pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em um abelha, era só abrir a palavra abelha
e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.

 

 

 

Por forma que a nossa tarefa principal
era a de aumentar
o que não acontecia.
(Nós era um rebanho de guris.)
A gente era bem-dotado para aquele serviço
de aumentar o que não acontecia.
A gente operava a domicílio e pra fora.
E aquele colega que tinha ganho um olhar
de pássaro
Era o campeão de aumentar os desacontecimentos.
Uma tarde ele falou pra nós que enxergara um
lagarto espichado na areia
a beber um copo de sol.
Apareceu um homem que era adepto da razão
e disse:
Lagarto não bebe sol no copo!
Isso é uma estultícia.
Ele falou de sério.
Ficamos instruídos.

 

 

 

 

 

 

 

 

A turma viu uma perna de formiga, desprezada,
dentro do mato. Era uma coisa para nós muito
importante. A perna se mexia ainda. Eu diria que
aquela perna, desprezada, e que ainda se mexia,
estava procurando a outra parte do seu corpo,
que deveria estar por perto. Acho que o resto da
formiga, naquela altura do sol, já estaria dentro
do formigueiro sendo velada. Ou talvez o resto
do corpo estaria a procurar aquela perna
desprezada. Ninguém viu o que foi que produziu
aquela desunião do corpo com a perna desprezada.
Algumas pessoas passavam por ali, naquele trato
de terra, e ninguém viu a perna desprezada. Todos
saímos a procurar o pedaço principal da formiga.
Porque pensando bem o resto da formiga era a
perna desprezada. Fomos à beira do rio mas só
encontramos pedaços de folhas verdes carregados
por novas formigas. Achamos a seguir que as novas
formigas que carregavam as folhas nos ombros, elas
estavam indo para assistir, no formigueiro, ao
velório da outra parte da formiga. Mas a gente
resolveu por antes tomar um banho de rio.

 

 

A seca foi braba naquele ano.
O pai falou: Lá evém uma língua de fogo
do lado da Bolívia
e vai lamber todo o pasto.
O menino assustou: Língua de fogo?
O pai explicou ao menino que se tratava
de imagem.
Língua de fogo é apenas uma imagem.
Mas, pela dúvida, o menino retirou seu
cachorro da imagem.

 

 

 

 

 

 

 

 

A gente morava no Sítio, duas léguas da Capital.
Na estrada de terra que passava no Sítio só tinha
três vacas vadias, três cabras vadias, um
bandarra velho e a égua Floripa.
Meu avô queria passear na Capital.
Mandou encilhar Floripa. E saiu.
No meio da estrada o avô desamontou para verter
água. Verteu.
No intervalo Floripa virou a cara pro lado do
Sítio. E parou.
Meu avô amontou de novo e apertou a marcha.
Logo Floripa estacou em frente de nossa casa.
Meu avô entrou e disse: Gostei de ver a Capital.
Já tem até vaca na rua!
É fruto de progresso.
Floripa estava parece que rindo na porta.

 

 

Sombra Boa não tinha e-mail.
Escreveu um bilhete:
Maria me espera debaixo do ingazeiro
quando a lua tiver arta.
Amarrou o bilhete no pescoço do cachorro
e atiçou:
Vai, Ramela passa!
Ramela alcançou a cozinha num átimo
Maria leu e sorriu.
Quando a lua ficou arta Maria estava.
E o amor se fez
Sob um luar sem defeito de abril.

 

 

O avô despencou do alto da escada aos
trambolhos.
Como um armário.
O armário quebrou três pernas.
O avô não teve nada.
Ué! armário não é só um termo de comparação?
Aqui em casa comparação também quebra perna.
O avô dementava as palavras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fomos rever o poste.
O mesmo poste de quando a gente brincava de pique
e de esconder.
Agora ele estava tão verdinho!
O corpo recoberto de limo e borboletas.
Eu quis filmar o abandono do poste.
O seu estar parado.
O seu não ter voz.
O seu não ter sequer mãos para se pronunciar com
as mãos.
Penso que a natureza o adotara em árvore.
Porque eu bem cheguei de ouvir arrulos de passarinhos
que um dia teriam cantado entre as suas folhas.
Tentei transcrever para flauta a ternura dos arrulos.
Mas o mato era mudo.
Agora o poste se inclina para o chão — como alguém
que procurasse o chão para repouso.
Tivemos saudades de nós.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu sou dois seres.
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
E fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades
Frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.

 

 

 

Queria a palavra sem alamares, sem
chatilenas, sem suspensórios, sem
talabartes, sem paramentos, sem diademas,
sem ademanes, sem colarinho.
Eu queria a palavra limpa de solene.
Limpa de soberba, limpa de melenas.
Eu queria ficar mais porcaria nas palavras.
Eu não queria colher nenhum pendão com elas.
Queria ser apenas relativo de águas.
Queria ser admirado pelos pássaros.
Eu queria sempre a palavra no áspero dela.

 

 

 

Proust
Só de ouvir a voz de Albertine entrava em
orgasmo. Se diz que:
O olhar de voyeur tem condições de phalo
(possui o que vê).
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É por demais de grande a natureza de Deus.
Eu queria fazer para mim uma naturezinha particular.
Tão pequena que coubesse na ponta do meu lápis.
Fosse ela, quem me dera, só do tamanho do meu quintal.
No quintal ia nascer um pé de tamarino apenas para uso dos passarinhos.
E que as manhãs elaborassem outras aves para compor o azul do céu.
E se não fosse pedir demais eu queria que no fundo corresse um rio.
Na verdade na verdade a coisa mais importante que eu desejava era o rio.
No rio eu e a nossa turma, a gente iria todo dia jogar cangapé nas águas correntes.
Essa, eu penso, é que seria a minha naturezinha particular:
Até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar.

 

 

 

 

 

 

 

 

Era um caranguejo muito se achante.
Ele se achava idôneo para flor.
Passava por nossa casa
Sem nem olhar de lado.
Parece que estava montado num coche
de princesa.
Ia bem devagar
Conforme o protocolo
A fim de receber aplausos.
Muito achante demais.
Nem parou para comer goiaba.
(Acho que quem anda de coche não come goiaba.)
Ia como se fosse tomar posse de deputado.
Mas o coche quebrou
E o caranguejo voltou a ser idôneo para
mangue.
 

 

 

As coisas jogadas fora por motivo de traste
são alvo da minha estima.
Prediletamente latas.
Latas são pessoas léxicas pobres porém concretas.
Se você jogar na terra uma lata por motivo de
traste: mendigos, cozinheiras ou poetas podem pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes, por
exemplo, do que as idéias.
Porque as idéias, sendo objetos concebidos pelo
espírito, elas são abstratas.
E, se você jogar um objeto abstrato na terra por
motivo de traste, ninguém quer pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes.
A gente pega uma lata, enche de areia e sai
puxando pelas ruas moda um caminhão de areia.
E as idéias, por ser um objeto abstrato concebido
pelo espírito, não dá para encher de areia.
Por isso eu acho a lata mais suficiente.

 

                                      

Idéias são a luz do espírito — a gente sabe. Há idéias luminosas — a gente sabe.
Mas elas inventaram a bomba atômica, a bomba
atômica, a bomba atôm……………………………
………………………………………………….. Agora
eu queria que os vermes iluminassem.
Que os trastes iluminassem.

 

 

 

Estava o jacaré na beira do brejo
tomando um copo de sol.
Foi o menino
E tascou uma pedra
No olho do jacaré.
O bicho soltou três urros
E quebrou o silêncio do lugar.
Os cacos do silêncio ficaram espalhados
na praia.
O copo de sol não rachou nem.

 

 

 

A palavra garça em meu perceber é bela.
Não seja só pela elegância da ave.
Há também a beleza letral.
O corpo sônico da palavra
E o corpo níveo da ave
Se comungam.
Não sei se passo por tantã dizendo isso.
Olhando a garça-ave e a palavra garça
Sofro uma espécie de encantamento poético.

 

 

 

Uma palavra abriu o roupão pra mim.
Vi tudo dela: a escova fofa, o pente a doce maçã.
A mesma maçã que perdeu Adão.
Tentei pegar na fruta
Meu braço não se moveu.
(Acho que eu estava em sonho.)
Tentei de novo
O braço não se moveu.
Depois a palavra teve piedade
E esfregou a lesma dela em mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

————————————————————————————————-

Poemas Rupestres; Manoel de Barros; Editora Record; 2004.

Aqui, as ilustrações são minhas.

 

 


O que é a poesia? Quem é o poeta?

 

 

Poesia é voar fora da asa.

(…)

Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.

Manoel de Barros

 

 

 



 

 

 


Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo sonho é que vamos.

 

Basta a fé no que temos
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.

 

Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
Ao que desconhecemos
E ao que é do dia-a-dia.

 

Chegamos? Não chegamos?

 

- Partimos. Vamos. Somos.

 

 

Sonho – Sebastião da Gama

 

 


.


.

 

 

 

 

Soy hombre: duro poco
y es enorme la noche.
Pero miro hacia arriba:
las estrellas escriben.
Sin entender comprendo:
también soy escritura
y en este mismo instante
alguien me deletrea.

 

Hermandad – Octavio Paz

 

 

 


.

 

.

 

 

 

 

 

 

O que tu tens e queres saber (porque te dói)
não tem nome. Só tem (mas vazio) o lugar
que abriu em tua vida a sua própria falta.

 

A dor que te dói pelo avesso,
perdida nos teus escuros,
é como alguém que come
não o pão, mas a fome.

 

Sofres de não saber
o que tens e falta
num lugar que nem sabes,
mas que é tua vida,
quem sabe é teu amor.
O que tu tens, não tens.

 

Poema Concreto – Thiago de Mello

 

 

 

 


.


.

 

 

 

 


Foi quando eu disse:
“Não há tal coisa como a verdade”,
Que as uvas pareceram mais gordas.
A raposa saltou de sua toca.

 

Você… Você disse:
“Há muitas verdades,
Mas não são partes de uma verdade.”
Então a árvore, à noite, começou a mudar,

 

Nuançando-se entre verdes e azuis.
Éramos duas figuras numa mata.
Dissemos que estávamos sós.

 

Foi quando eu disse:
“Palavras não são formas de uma palavra única.
Na soma das partes, há apenas as partes.
O mundo deve ser medido a olho”;

 

Foi quando você disse:
“Os ídolos viram muita pobreza,
Cobras e ouro e piolhos,
Mas não a verdade”;

 

Foi nessa hora que o silêncio ficou mais amplo
E mais longo, e a noite mais redonda,
A fragrância do outono mais cálida,
Mais íntima e mais forte.

 

Na estrada para casa – Wallace Stevens

 

 

 

 

 


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 48 outros seguidores