Rumi

Fora da Ordem

3 bons momentos de Robert Wilson em boa companhia

Acompanhado de Shakespeare, Marina Abramovic, Willem Dafoe, Philip Glass, Rumi,

Sem obedecer a cronologia ou a importância dos personagens e dos acontecimentos, reais ou imaginários…

Tudo é Real!

 

 

Shakespeare Sonnets at the Berliner Ensemble – Robert Wilson

 

Difícil traduzir Shakespeare: aqui uma tentativa. Mas o poema do vídeo fica melhor sem tradução:

 

William Shakespeare Sonnet 40

Take all my loves, my love, yea, take them all;
What hast thou then more than thou hadst before?
No love, my love, that thou mayst true love call;
All mine was thine before thou hadst this more.
Then if for my love thou my love receivest,
I cannot blame thee for my love thou usest;
But yet be blamed, if thou thyself deceivest
By wilful taste of what thyself refusest.
I do forgive thy robbery, gentle thief,
Although thou steal thee all my poverty;
And yet, love knows, it is a greater grief
To bear love’s wrong than hate’s known injury.
Lascivious grace, in whom all ill well shows,
Kill me with spites; yet we must not be foes.

 

 

***

 

 

The Life and Death of Marina Abramovic – Robert Wilson

 

Como não poderia deixar de ser, Marina Abramovic desempenha Marina Abramovic: aqui uma explicação da montagem dessa peça-performance, que eu adoraria ter assistido.

 

 

***

 

 

Monsters of Grace – Philip Glass and Robert Wilson

 

Para maiores  informações clique aqui e aqui. Ao que saiba essa ópera nunca veio ao Brasil e fez pouco sucesso quando estreou, em 98, na Europa e nos Estados Unidos, talvez por estar muito a frente de seu tempo. Não conheço o vídeo em 3D, mas a música de Philip Glass e os poemas de Rumi são suficientes…

Aqui o poema declamado no vídeo, sem tradução…

 

 

Where Everything Is Music – Rumi

Don’t worry about saving these songs!
And if one of our instruments breaks,
it doesn’t matter.

We have fallen into the place
where everything is music.

The strumming and the flute notes
rise into the atmosphere,
and even if the whole world’s harp
should burn up, there will still be
hidden instruments playing.

So the candle flickers and goes out.
We have a piece of flint, and a spark.

This singing art is sea foam.
The graceful movements come from a pearl
somewhere on the ocean floor.

Poems reach up like spendthrift and the edge
of driftwood along the beach, wanting!

They derive
from a slow and powerful root
that we can’t see.

Stop the words now!
Open the window in the center of your chest,
and let the spirits fly in and out.

 

 

 


RUMInações

Após esse trocadilho infame, fazendo referência ao maior poeta místico islâmico de todos os tempos, Jalal Ud-Din Rumi (-Rumi), segue a heresia de subtrair e misturar versos do seu livro de poemas, Divan de Shams de Tabriz, escrito no século XIII em homenagem ao seu grande amigo e mentor espiritual, Shams de Tabriz.

Dentro desse contexto sufi, datado de 1200, são poemas de amor inspirado – a Deus, ao próximo, ao Universo -, poemas de luto e de êxtase místico, aos quais embaralho e disponho numa outra métrica, autoria de Rumi a ecoar em nosso contexto pós-moderno de 2011, uma realidade líquida, conforme Bauman.

Guardadas as diferenças culturais e religiosas e resguardado o poeta maior de seus tradutores e leitores menores, categoria última na qual me incluo, o sentido místico creio permanece idêntico nos dois tempos, pois o amor é o mesmo, tanto o de ontem quanto o de hoje, e, apenas isto, o amor ser único, justifica a mistura de versos e tempo.

.

.

.

.

Atenta para as sutilezas
que não se dão em palavras.
Compreende o que não se deixa
capturar pelo entendimento.

.

Se queres a visão secreta,
fecha teus olhos.
Se desejas um abraço,
abre teu peito.

.

Limpa teu coração dos velhos rancores
lava-o sete vezes
e serve o vinho do amor
— torna-te taça, sê a taça!

.

Sai de tua casa e, como o pastor,
ajuda a curar a alma do teu próximo.
Entra no fogo espiritual
e deixa-te calcinar.

.

Se anseias por uma face com vida,
rompe esse rosto de pedra.
Por que hás de pagar o dote da vida
a essa velha bruxa, a terra?

.

Por quanto tempo mostrarás duas faces?
Até quando trairás a ti mesmo?
Submisso como bandeira ao vento?
Não te cansa ser o bispo do xadrez?
E andar todo o tempo de viés?
— Torna-te sábio, ó sábio!

.

Os pensamentos só te levam onde lhes apetece
Queres segui-los?
Melhor é seguir teu destino
— torna-te guia, sê teu próprio guia!

.

Por algum tempo foste os elementos
por outro tempo mais foste animal
por um tempo serás alma,
é agora a tua chance
— torna-te alma suprema, sê a alma suprema!

.

Ó Moisés! Os que amam os belos ritos são de uma classe,
Aqueles cujos corações e almas ardem de amor são de outra

.

Ondas de espuma erguem-se do mar noite e dia,
Tu olhas para a ondulação da espuma e não para
o poderoso mar.

O mar é uma coisa, a espuma, outra;
esquece a espuma e contempla o mar com teus olhos.

.

Só a morte põe fim seguro
às dores e aflições da vida.
A vida porém temerosa
tudo faz para adiar esse encontro.

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É que a vida vê na morte
apenas a mão sombria
e fecha os olhos a luzente taça
que a mesma morte lhe oferece.

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Assim também foge do amor
o coração apaixonado
receoso de um dia morrer
da mesma paixão porque vive.

.

Sai do círculo do tempo
e entra no círculo do amor.
Entra na rua das tavernas
e senta entre os beberrões.

.

Enche tua alma de todo o amor
transforma-a na alma suprema
senta à mesa dos santos
— embriaga-te, sê o vinho!

.

Lá onde nasce o verdadeiro amor
morre o “eu”, esse tenebroso déspota.
Tu o deixas espirar no negror da noite
e livre respiras a luz da manhã.

.

Enlouquecei, perdei de vez a cabeça.
Erguei-vos do fogo ardente da vida
— Tornai-vos pássaros, sede pássaros!

.

Ao ouvires a doce canção
teu espírito é alçado aos céus.
Teus limites nada significam
Sê como o amante sem medo
— torna-te eterno, sede eterno!

.

Esquece o mundo e comanda o mundo.
Sê a lâmpada, o barco salva-vidas,
a escada.

.

Vamos, aceita essa pechincha:
dá uma única vida
e leva uma centena.

.

Mil gerações já gozaram
do que agora tens.
Prova a doçura em tua boca
que antes foi flor, abelha e mel.

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Não é preciso virar-se para a Caaba quando se está nela,
e mergulhadores não precisam de sapatos.

.

Enlaçados no amor, sem tu nem eu,
livres de palavras vãs, tu e eu!

.

Silêncio!
E depois mais silêncio.
Não uses a boca para falar.
A boca é para provar dessa doçura.

.

(Jalal Ud-Din Rumi in

Divan de Shams de Tabriz)

.

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.


Deus:

Sombra e luz

Angústia e paz

Foto Fabio Ricco

.

Um dia, um homem chegou diante  de uma árvore. Viu folhas, ramos, frutos estranhos. A cada um perguntou o que eram essas árvores e esses frutos. Nenhum jardineiro o compreendeu,  nem sabia o nome da árvore, nem lhe pôde indicar o que ela poderia ser. O homem disse a si mesmo: Se não posso compreender que árvore é essa, contudo sei que, depois que deitei meu olhar sobre ela, meu coração e minha alma se tornaram  frescos e verdes. Vou então me colocar a sua sombra.

.

Por mais que se descreva ou se explique o amor,
quando nos apaixonamos envergonhamo-nos de nossas palavras.
A explicação pela língua esclarece a maioria das coisas,
Mas o amor não explicado é mais claro.
Quando a pena se apressou em escrever,
Ao chegar no tema do amor, partiu-se em duas.
Quando o discurso tocou na questão do amor,
A pena partiu-se e o papel rasgou-se.
Ao explicá-lo, a razão logo empaca, como um asno no atoleiro;
Nada senão o próprio Amor pode explicar o amor e os amantes.

.

Como podes ver o vermelho, o verde e o escarlate
A menos que primeiro vejas a luz?
Quando tua vista é ofuscada por cores,
Essas cores velam de ti a luz.
Mas quando a noite vela essa cores de ti,
Percebes que só são vistas por meio da luz.

.

Rumi

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I

I

Dios insaciable que mi insomnio alimenta;

Deus insaciável que minha insônia alimenta;

Dios sediento que refrescas tu eterna sed en mis lágrimas,

Deus sedento que refresca a eterna sede em minhas lágrimas,

Dios vacío que golpeas mi pecho con un puño de piedra,

con un puño de humo,

Deus vazio que golpeia meu peito com um punho de pedra,

com um punho de fumo,

Dios que me deshabitas,

Deus que me desabita,

Dios desierto, peña que mi súplica baña,

Deus deserto, pena que minha súplica suplicia,

Dios que al silencio del hombre que pregunta contestas

com un silencio más grande,

Deus que ao silêncio do homem que pergunta contesta

com um silêncio maior,

Dios hueco, Dios de nada, mi Dios:

Deus oco, Deus de nada, meu Deus:

sangre, tu sangre, la sangre, me guía.

sangue, teu sangue, o sangue, me guia.

La sangre de la tierra,

O sangue da terra,

la de los animales y la del vegetal somnoliento,

o dos animais e o do vegetal viscoso,

la sangre petrificada de los minerales

o sangue petrificado dos minerais

y la del fuego que dormita en la tierra,

e o do fogo que dormita na terra,

tu sangre,

teu sangue,

la del vino frenético que canta en primavera,

o do vinho convulso que canta na primavera,

Dios esbelto y solar,

Deus elegante e solar,

Dios de ressurrección,

Deus de ressurreição,

estrella hiriente,

estrela tiritante,

insomne flauta que alza su dulce llama entre sombras caídas,

insone flauta que alça sua doce chama entre sombras caídas,

oh Dios que en las fiestas convocas a las mujeres delirantes

oh Deus que nas festas convoca as mulheres ao delírio

y haces girar sus vientres planetarios y sus nalgas salvajes,

e faz girar seus ventres planetários e suas nádegas selvagens,

los pechos inmóviles y eléctricos,

os seios imóveis e histéricos,

atravesando el universo enloquecido y desnudo

atravessando o universo enlouquecido e desnudo

y la sedienta extensión de la noche desplomada.

e a sequiosa extensão da noite desértica.

Sangre,

Sangue,

sangre que todavía te mancha con resplandores bárbaros,

sangue que todavia te macula com numens bárbaros,

la sangre derramada en la noche del sacrificio,

o sangue derramado na noite do sacrifício,

la de los inocentes y la de los impíos,

o de inocentes e o de ímpios,

la de tus enemigos y la de tus justos,

o de teus inimigos e o de teus justos,

la sangre tuya, la de tu sacrificio.

o teu sangue, de teu sacrifício.

I I

I I

Por ti asciendo, desciendo,

Por ti ascendo, descendo,

a  través de mi estirpe,

através de minha estirpe

hasta el pozo del polvo

desde o pó ao pó

donde mi semen se deshace en otros,

donde meu sêmen se desfaz em outros,

más antíguos, sin nombre,

mais antigos, sem nome,

ciegos ríos por llanos de ceniza.

cegos rios por planos de planícies.

Te he buscado, te busco,

Tenho te buscado, te busco,

en la árida vigilia, escarabajo

em árida vigília, escaravelho

de la razón giratoria:

de razão circular:

en los sueños henchidos de presagios equívocos

em sonhos repletos de presságios equivocados

y en los torrentes negros que el delirio desata:

e em conclusões sombrias que o delírio desata:

el pensamiento es una espada

o pensamento é uma espada

que ilumina y destruye

que ilumina e destrói

y luego del relámpago no hay nada

e logo após ao relâmpago não há nada

sino un correr por el sinfín

a não ser um correr infinito

y encontrarse uno mismo frente al muro.

e um encontrar-se sozinho frente ao muro.

Te he buscado, te busco,

Tenho te buscado, te busco,

en la cólera pura de los desesperados,

na cólera pura dos desesperados,

allí donde los hombres se juntan para morir sin ti,

ali onde os homens se reúnem para morrer sem ti,

entre una maldición y una flor degollada.

entre uma maldição e uma flor decepada.

No, no estabas en ese rostro roto en mil rostros iguales.

Não, não estavas nesse rosto corrompido em mil rostos iguais,

e he buscado, te busco,

e tenho buscado, te busco,

entre los restos de la noche en ruinas,

entre os restos da noite em ruínas,

en los despojos de la luz que deserta,

nos despojos da luz que deserta,

en el niño mendigo que sueña en el asfalto con arena e olas,

no menino de rua que sonha no asfalto com areia e ondas,

junto a perros nocturnos,

junto aos cães da noite,

rostros de niebla y cuchillada

silhuetas de neblina e lâmina

y desiertas pisadas de tacones sonámbulos.

e ecos noturnos de passos sonâmbulos.

En mí te busco: ¿eres

Em mim te procuro: serás

mi rostro en el momento de borrarse,

meu rosto no momento de dormir

mi nombre que, al decirlo, se dispersa,

meu nome que, ao dizê-lo, se dispersa,

eres mi desvanecimiento?

és meu adormecimento?

I I I

I I I

Viva palabra obscura,

Viva palavra obscura,

palabra del principio,

palavra do principio,

principio sin palabra,

princípio sem palavra,

piedra y piedra, sequía,

pedra e pedra, seca,

verdor súbito,

verdor súbito,

fuego que no se acaba,

fogo que não se acaba,

agua que brilla en una cueva:

água que brilha num poço:

no existes, pero vives,

não existes, mas és,

en nuestra angustia habitas,

em nossa angústia vives,

en el fondo vacío del instante

no fundo vazio do instante

— oh aburrimiento —,

— oh chatice—,

en el trabajo y el sudor, su fruto,

no trabalho e no suor, seu fruto,

en el sueño que engendra y el muro que prohibe.

no sonho que engendra e no limite que proíbe.

Dios vacío, Dios sordo, Dios mío,

Deus vazio, Deus surdo, Deus meu,

lágrima nuestra, blasfemia,

lágrima nossa, blasfêmia,

palabra y silencio del hombre,

palavra e silêncio do homem,

signo del llanto, cifra de sangre,

signo de pranto, cifra de sangue,

forma terrible de la nada,

forma terrível de nada,

araña del miedo,

aranha do medo,

reverso del tiempo,

reverso do tempo,

gracia del mundo, secreto indecible,

graça do mundo, segredo impronunciável,

muestra tu faz que aniquila,

mostra tua face que aniquila,

que al polvo voy, al fuego impuro.

que vou ao pó, ao fogo impuro.

.

.

.

(Octavio Paz)

.


©Photo. R.M.N. / R.-G. OjŽda


.


Reedição

Como a vida é longa…

 

 

 

Há mistérios crescendo por cima das palavras como bucha em tapera

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

 

Clair de lune, chiaro de luna, entro de lunia…

jamais os franceses, os italianos e os espanhóis

saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de

um trago numa palavra só.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

Na cidade, a lua:

a jóia branca que bóia

na lama da rua.

 

(Guilherme de Almeida)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

colhidos no mais íntimo de mim…

Suas palavras

seriam as mais simples do mundo,

porém não sei que luz as iluminaria

que terias de fechar teus olhos para as ouvir…

Sim! Uma luz que viria de dentro delas,

como essa que acende inesperadas cores

nas lanternas chinesas de papel!

Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas

do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca soube o que dizer-te

e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento

da Poesia…

como

uma pobre lanterna que incendiou!

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

NUNCA E SEMPRE

 

Sempre cheguei tarde

ou cedo demais.

Não vi a felicidade acontecer.

Nunca floresceram

em minha primavera

as rosas que sonhei colher.

 

Mas sempre os passarinhos

cantaram e fizeram ninhos

pelos beirais

do meu viver.

 

(Helena Kolody)

 

 

 

 

 

 

 

Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa

é do vento.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

A ROSA BRANCA

 

Não me inquieta se o caminho

que me coube – por secreto

desígnio – jamais floresce.

Dentro de mim, sei que existe,

oculta, uma rosa branca.

Incólume rosa. E branca.

 

Não pude colhê-la: mal

nascera e logo perdi-me

nos labirintos do tempo,

onde desde então pervago

apenas entressonhando

aquilo que sou – e vive

no recôncavo da rosa.

 

Sem conhecer-me, padeço

o mistério de existir

em amargo desencontro

comigo mesmo. No entanto,

pesar tão largo se apaga

quando pressinto: na rosa,

mistério não há. Nenhum.

Sem medo de trair-me a face,

posso morrer amanhã.

Extinto o jugo do tempo,

olhos nem boca haverá

- para a queixa e para a lágrima -

se em vez de rosa, de pétala

cinza de pétala, apenas

existir a escuridão.

O vazio. Nada mais.

 

(Thiago de Mello)

 

 

 

 

 

 

A minha alma era uma paisagem hirsuta:

cactos, palmas híspidas,

estranhas flores que atemorizavam (seriam aranhas

carnívoras?) parecia

um texto obscuro com pontuação excessiva;

tudo porque me estavam apontando alguns fios de barba;

e cada fio era uma baioneta calada contra o mundo:

tu

com

a graça aérea de um helicóptero ou de uma libélula

soubeste achar – naquilo – onde o campo de pouso,

soubeste ouvir onde cantava

pura

a fonte oculta…

 

Só tu soubeste achar-me… e te foste!

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

Eu soube enfim que o amor está ligado a mim.

E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.

Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,

Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.

 

(Rumi)

 

 

 

 

 

 

TEMPO PERDIDO

 

Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um

tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as

crianças brincavam sob a clarabóia da lua. E o

cachorro da casa era um grande personagem. E também

o relógio de parede! Ele não media o tempo

simplesmente: ele meditava o tempo.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

 

BLADE RUNNER WALTZ

 

Em mil novecentos e oitenta e sempre,

ah, que tempos aqueles,

dançamos ao luar, ao sol da valsa

A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia,

nome, confesso, um pouco longo,

mas os tempos, aquele tempo,

ah, não se faz mais tempo

como antigamente.

 

Aquilo sim é que eram horas,

dias enormes, semanas anos, minutos milênios,

e toda aquela fortuna em tempo

a gente gastava em bobagens,

amar, sonhar, dançar ao som da valsa,

aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento

que a gente dançava em algum setembro

daqueles mil novecentos e oitenta e sempre.

 

(Paulo Leminski)

 

 

 

 

 

 

REMINISCÊNCIAS

A enchente de 1941. Entrava-se de barco pelo corredor da velha casa de cômodos onde eu morava. Tínhamos assim um rio só para nós. Um rio de portas a dentro. Que dias aqueles! E de noite não era preciso sonhar: pois não andava um barco de verdade assombrando os corredores?

Foi também a época em que era absolutamente desnecessário fazer poemas…

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

OVNI

 

Sou uma coisa entre coisas

O espelho me reflete

Eu (meus

olhos)

reflito o espelho

 

Se me afasto um passo

o espelho me esquece:

– reflete a parede

a janela aberta

 

Eu guardo o espelho

o espelho não me guarda

(eu guardo o espelho

a janela a parede

rosa

eu guardo a mim mesmo

refletido nele):

sou possivelmente

uma coisa onde o tempo

deu defeito

 

(Ferreira Gullar)

 

 

 

 

 

 

Somos donos de nossos atos,

mas não donos de nossos sentimentos;

Somos culpados pelo que fazemos,

mas não somos culpados pelo que sentimos;

Podemos prometer atos,

mas não podemos prometer sentimentos…

Atos são pássaros engaiolados,

sentimentos são pássaros em voo.

 

(Mário Quintana)

 

 

 

 

 

 

O DUPLO

 

Debaixo de minha mesa

tem sempre um cão faminto

- que me alimenta a tristeza.

 

Debaixo de minha cama

tem sempre um fantasma vivo

- que perturba quem me ama.

 

Debaixo de minha pele

alguém me olha esquisito

-pensando que eu sou ele.

 

Debaixo de minha escrita

há sangue em lugar de tinta

- e alguém calado que grita.

 

(Affonso Romano de Sant´Anna)

 

 

 

 

 

O passado não reconhece o seu lugar: esta sempre presente.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

“CATECISMO DE BERCEO”

 

1.

Fazer com que a palavra leve

pese como a coisa que diga,

para o que isolá-la de entre

o folhudo em que se perdia.

 

2.

fazer com que a palavra frouxa

ao corpo de sua coisa adira:

fundi-la em coisa, espessa, sólida,

capaz de chocar com a contígua.

 

3.

Não deixar que saliente fale:

sim, obrigá-la à disciplina

de preferir a fala anônima,

como a todas de uma linha.

 

4.

Nem deixar que a palavra flua

como rio que cresce sempre:

canalizar a água sem fim

noutras paralelas, latente.

 

(João Cabral de Melo Neto)

 

 

 

 

 

 

 

É isso mesmo

Quem nunca se contradiz deve estar mentindo.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

Os espelhos partidos têm muitos mais luas…

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

Sou um sujeito cheio de recantos.

Os desvãos me constam.

Tem hora leio avencas.

Tem horas Proust.

Ouço aves e beethovens.

Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

 

O dia vai morrer aberto em mim.

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

 

 

 

ENVELHECER

 

Antes, todos os caminhos iam,

hoje, todos os caminhos vêm…

A casa é acolhedora, os livros poucos

E eu mesmo sirvo o chá para os fantasmas…

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

MAR, MAR E MAR

 

Tu perguntas, e eu não sei,

eu também não sei o que é o mar.

 

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos

ao reler uma carta, quando é de noite.

Os teus dentes, talvez os teus dentes,

miúdos, brancos dentes, sejam o mar,

um mar pequeno e frágil,

afável, diáfano,

no entanto sem música.

 

É evidente que a minha mãe me chama

quando uma onda e outra onda e outra

desfaz o seu corpo contra o meu corpo.

Então o mar é carícia,

luz molhada onde desperta

meu coração recente.

 

Às vezes o mar é uma figura branca

cintilando entre os rochedos.

Não sei se fita a água

ou se procura

um beijo entre conchas transparentes.

 

Não, o mar não é nardo nem açucena.

É um adolescente morto

de lábios abertos aos lábios de espuma.

É sangue,

sangue onde a luz se esconde

para amar outra luz sobre as areias.

 

Um pedaço de lua insiste,

insiste e sobe lenta arrastando a noite.

Os cabelos da minha mãe desprendem-se,

espalham-se na água,

alisados por uma brisa

que nasce exatamente no meu coração.

O mar volta a ser pequeno e meu,

anêmona perfeita, abrindo nos meus dedos.

 

Eu também não sei o que é o mar.

Aguardo a madrugada, impaciente,

os pés descalços na areia.

 

(Eugénio de Andrade)

 

 

 

 

 

 

 

… e breve



 

 

 

 

 

Fere de leve a frase… E esquece… Nada

Convém que se repita…

Só em linguagem amorosa agrada

A mesma coisa cem mil vezes dita.

 

(Mario Quintana)

 



La dicha

.

vaga tristeza
vaga lume
vaga só

(Alonso Alvarez)

.

SOL

LUA

POR QUE SÓ UM

DE CADA

NO CÉU
FLUTUA

(Paulo Leminski)

.

Vem,

Te direi em segredo

Aonde leva esta dança.

.

Vê como as partículas do ar

E os grãos de areia do deserto

Giram desnorteados.

.

Cada átomo

Feliz ou miserável,

Gira apaixonado

Em torno do sol.

(Rumi)

.

A SORTE

Aquele que abraça uma mulher é Adão. A mulher é Eva.

Tudo acontece por uma primeira vez.

Avisto uma coisa branca no céu. Dizem que é a lua, mas que posso fazer com uma palavra e uma mitologia.

As árvores me dão um pouco de medo. São tão maravilhosas.

Tranquilos os animais se aproximam para que eu pronuncie seus nomes.

Os livros na biblioteca não têm letras. Quando os abro é que surgem.

Ao folhear o atlas projeto a forma de Sumatra.

Aquilo que acende um fósforo no escuro inventa o fogo.

No espelho há sempre um outro que observa.

Aquele que olha o mar vê a Inglaterra.

Aquele que diz um verso de Liliencron entra numa batalha.

Sonhei com Cartago e com as legiões que destruíram Cartago.

Sonhei a espada e a balança.

Louvado seja o amor em que não há nem possuído nem possuidor, apenas os que se entregam.

Louvados sejam os pesadelos, que nos fazem saber do inferno.

Aquele que navega a um rio desce o Ganges.

Aquele que observa um relógio de areia vê cair um império.

Aquele que crava um punhal presencia a morte de César.

Aquilo que dorme é a humanidade.

No deserto eu vi uma jovem esfinge ser lavrada. Nada há de novo debaixo do sol.

Tudo acontece por uma primeira vez, mas de modo eterno.

Aquele que lê minhas palavras me inventa.

(Jorge Luis Borges)

.

.

Ver as coisas até ao fundo…

E se as coisas não tiverem fundo?

.

Ah, que bela a superfície!

Talvez a superfície seja a essência

E o mais que a superfície seja o mais que tudo

E o mais que tudo não é nada.

.

Ó face do mundo, só tu, de todas as faces,

És a própria alma que refletes

(Álvaro de Campos)

.

Ilustrações daqui.

Grifos e tradução do La dicha, do Borges, são meus.


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