Em defesa da humanidade

 

 

Nós não somos deuses, mas o que são dos deuses sem nós?

Além de nós, quem lhes serviria de palco para encenarem suas peças? Não existindo os homens, quem imaginaria nas estrelas um Destino? Quem lhes daria nomes, ou as amaria, e nelas traçaria rotas, e contaria e sonharia histórias e lendas?

As estrelas no céu, sem os homens na terra, são apenas nuvens de gazes em explosões nucleares até o dia de se apagarem de vez. Partiriam como vieram, sem ninguém que lhes desse testemunho e sem ninguém que lhes sentisse saudade.

A beleza não está no universo – que é belo -, mas nos olhos dos homens que fabricam beleza à partir das formas que captam do universo. A geometria das linhas, as volutas, os números, estão aí desde sempre e não nos pertencem. Independem de nós na sua completa natureza objetiva e exterior. O que pertence ao homem é tão somente a beleza que ele inventa com os sentidos da sua imaginação.

Mas ai do homem que se enamorar das imagens que inventa, se ele acreditar que é a imagem e não a invenção.

O homem não foi feito para ser deus, mas para imaginar e inventar deuses. O lugar do homem no espaço é na terra testemunhando os contornos do divino no céu. Mesmo que o céu seja interior e cá dentro infinito em todas aquelas coisinhas miúdas, ainda assim é deus em eternidade no infinitamente pequeno e não no homem.

Também o homem que se recusar a ser palco para a comédia dos deuses, se fará ator da existência e se transformará em fantoche na própria vida. Perderá o seu bem mais precioso, que é a sua individualidade e que se define por seu direito inalienável de nascer e morrer só, consciente de sua tragédia, sendo único no entreato.

O homem é bom quando devolve com generosidade o quinhão que amargamente recebe…

O homem é ponte, e disto poderá vir a ter consciência um dia, nunca no entanto saberá exatamente o que liga o que ou a quem. Essa é a sua amargura, não pertencer a nenhum lugar, mas ser para servir de passagem…

Sabedoria é aprender a ser contente de servir ao indizível e dizer amém. Arre!

Eu não sei por que nós estamos aqui apenas para testemunhar a algo que nunca será nosso. Por que nos deram o entendimento da grandeza sendo nós tão pequeninos. Por que nos deram o ensejo do infinito e do eterno sendo nós limitados e mortais.

E toda a beleza que nasce do efêmero… O homem é como a flor na escarpa florida intocada – flores que nascem e morrem sem testemunhas num único dia da montanha desabitada, e acabam como na tela de cinema o ciborgue com a data vencida, em lágrimas, que se perdem na chuva.

O homem é esse contrasenso que paisagens e máquinas descrevem melhor a humanidade do que o seu próprio semelhante.

Deus não teve piedade nenhuma de nós quando nos criou só para ter quem o testemunhasse…

 

 

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