Poema da gare de Astapovo – Quintana

 

 

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua. . .
Sentou-se. . . e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta. . .)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu. . .
Ele fugiu de casa. . .
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade. . .
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!

 

 

(Mario Quintana)

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2 comentários sobre “Poema da gare de Astapovo – Quintana

  1. ” Ele fugiu de casa. . .
    Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade. . .
    Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!”

    hehehe, eu também tinha esse sonho quando criança, algumas vezes saia de casa brava, batendo os pés e gritando pra minha mãe: Vou embora, fugir de casa e não vou voltar (rsrsrs). Aí me escondia atrás de uma árvore grande, pensando e agora? pra onde vou? ao mesmo tempo que ficava torcendo pra vir alguém e me persuadir a desistir dessa idéia (rsrsrs), porque claro que não queria fugir, era tudo de mentirinha… :)

  2. Oi Adi,

    Esse poema… pra lá de tocante, né? e acho combinou super bem com essa foto que é a minha preferida do poeta gaúcho: ele sentado num banco de praça qualquer de uma Porto Alegre ensolarada, tal qual Tolstoi numa gare de Astapolvo… circunstâncias bem diferentes, mas a humanidade é uma só.
    Sou uma leitora de Quintana faz tempos, descobri no entanto esse poema só por esses dias num livro de biblioteca… e, engraçado, Adi, eu tb briguei muito com a minha mãe quando pequena, mas nunca, jamais, em nenhum momento pensei em fugir de casa. :) Pensava em coisas mais cruéis, vinganças (rs), que ela não era minha mãe e a verdade um dia seria revelada… tadinha, ela já é falecida (só fui fazer as pazes com ela qd eu tinha uns 15 anos, por conta dela ter adoecido gravemente)… mas essa possibilidade de fugir de casa nunca me passou pela cabeça… :)

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