Sequência bucólica

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Há doenças piores que as doenças,

Há dores que não doem, nem na alma

Mas que são dolorosas mais que as outras.

Há angústias sonhadas mais reais

Que as que a vida nos traz, há sensações

Sentidas só com imaginá-las

Que são mais nossas do que a própria vida.

Há tanta coisa que, sem existir,

Existe, existe demoradamente,

E demoradamente é nossa e nós…

Por sobre o verde turvo do amplo rio

Os circunflexos brancos das gaivotas…

Por sobre a alma o adejar inútil

Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

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Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

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(Fernando Pessoa)

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Até hoje perplexo

ante o que murchou

e não eram pétalas.

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De como este banco

não reteve forma,

cor ou lembrança.

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Nem esta árvore

balança o galho

que balançava.

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Tudo foi breve

e definitivo.

Eis está gravado

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não no ar, em mim,

que por minha vez

escrevo, dissipo.

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(Carlos Drummond de Andrade)

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O tempo dentro do espelho

O tempo não existe, meu amor

O tempo é nada mais que uma invenção

de quem tem medo de ficar eterno.

De quem não sabe que nada se acaba,

que tudo o que se vive permanece

cinza de amor ardendo na memória.

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O tempo passa? Ai, quem me dera! O tempo

fica dentro de mim, cantando fica

ou me queimando, mas sou eu quem canto

eu que me queimo, o tempo nada faz

sem mim que lhe permito a minha vida.

De mim depende, sou sua matéria,

esterco e flor do chão da minha mente,

o tempo é o meu pecado original.

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(Thiago de Mello)

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Antes de amar-te, amor, nada era meu

Vacilei pelas ruas e as coisas:

Nada contava nem tinha nome:

O mundo era do ar que esperava.

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E conheci salões cinzentos,

Túneis habitados pela lua,

Hangares cruéis que se despediam,

Perguntas que insistiam na areia.

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Tudo estava vazio, morto e mudo,

Caído, abandonado e decaído,

Tudo era inalienavelmente alheio,

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Tudo era dos outros e de ninguém,

Até que tua beleza e tua pobreza

De dádivas encheram o outono.

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(Pablo Neruda)

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O amor é uma companhia.

Já não sei andar só pelos caminhos,

Porque já não posso andar só.

Um pensamento visível faz-me andar mais depressa

E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.

E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

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Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.

Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

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(Alberto Caeiro)

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Por favor não me analise

Não fique procurando cada ponto fraco meu

Se ninguém resiste a uma análise profunda

Quanto mais eu

Ciumento, exigente, inseguro, carente

Todo cheio de marcas que a vida deixou

Vejo em cada grito de exigência

Um pedido de carência, um pedido de amor

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Amor é síntese

É uma integração de dados

Não há que tirar nem pôr

Não me corte em fatias

Ninguém consegue abraçar um pedaço

Me envolva todo em seus braços

E eu serei perfeito amor.

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(Mário Quintana)

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isso de querer

ser exatamente aquilo

que a gente é

ainda vai

nos levar além

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(Paulo Leminski)

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