Poesia rasgada

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa… e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

Mario Quintana

As palavras não dizem tudo quanto é preciso. Diriam mais, talvez, se fossem asas.

José Saramago

.

Lutar com palavras

é a luta mais vã.

São muitas, eu pouco.

Como sei pouco, e sou pouco,

faço o pouco que me cabe

me dando inteiro.

Lutar com palavras

parece sem fruto.

Não têm carne e sangue…

Entretanto, luto.

Sabendo que não vou ver

o homem que quero ser.

Teu corpo claro e perfeito,

Teu corpo de maravilha,

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha…

Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.

Teu corpo é tudo o que cheira…

Hora de iniciar algum

convém se vestir de roupa de trapo.

Há quem se jogue debaixo de carro

nos primeiros instantes.

Sê paciente; espera

que a palavra amadureça

Rosa…

e se desprenda como um fruto

flor de laranjeira…

ao passar o vento que a mereça.

Faz bem uma janela aberta.

Uma veia aberta.

um bom poema

leva anos

cinco jogando bola,

Teu corpo, branco e macio,

Aos blocos semânticos dar equilíbrio.

É como um véu de noivado…

mais cinco estudando sânscrito,

Teu corpo é pomo doirado…

Onde o abstrato entre, amarre com arame.

seis carregando pedra,

Rosal queimado do estio,

Ao lado de um primal deixe um termo erudito.

nove namorando a vizinha,

Aplique na aridez intumescências.

sete levando porrada,

Encoste um cago ao sublime.

E no solene um pênis sujo.

dez trocando de assunto,

Desfalecido em perfume…

uma eternidade, eu e você,

caminhando junto

Teu corpo é a brasa do lume…

Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra

Teu corpo é chama e flameja

Como à tarde os horizontes…

e seu poder de silêncio.

O poema é antes de tudo um inutensílio.

Quem quer que a poesia sirva para alguma coisa não ama a poesia.

Em um poema leio:

É puro como nas fontes

A água clara que serpeja,

Que em cantigas se derrama…

A poesia não se entrega a quem a define.

Conversar é divino.

Mas os deuses não falam:

Volúpia da água e da chama…

fazem, desfazem mundos

enquanto os homens falam.

Os deuses, sem palavras,

jogam jogos terríveis.

Os deuses são felizes

A todo momento o vejo…

Teu corpo…

Quero fazer os poemas das coisas materiais,

pois imagino que esses hão de ser

os poemas mais espirituais.

Amo na vida as coisas que têm sumo

E oferecem matéria onde pegar

Amo a noite, amo a música, amo o mar

a única ilha

Nenhum poema se faz de matéria abstrata.

O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.

É a carne, e seus suplícios,

ternuras,

alegrias,

é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,

No oceano do meu desejo…

o luminoso e o opaco do poema.

E farei os poemas do meu corpo

E do que há de mortal.

Pois acredito que eles me trarão

Os poemas da alma e da imortalidade.

Teu corpo é tudo o que brilha,

Teu corpo é tudo o que cheira…

O mistério começa do joelho para cima.

O mistério começa do umbigo para baixo

e nunca termina.

Rosa, flor

Eu sonho com um poema

de laranjeira…

Cujas palavras sumarentas escorram

Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,

Um poema que te mate de amor

Ninguém é pai de um poema sem morrer

.

Affonso Romano de Sant’Anna Alphonsus de Guimaraens Filho Carlos Drummond de Andrade Eugénio de Andrade Fernando Pessoa Mario Quintana Manoel de Barros Manuel Bandeira Octavio Paz Paulo Leminski Thiago de Mello Vinícius de Moraes Walt Whitmann

.

Post-Scriptum:

Não, eu não enlouqueci, são excertos de vários poemas de variados autores – as cores os identificam e só será um problema se você for daltônico.

A poesia brinca…

Sem licenças não há poesia…

Sem licenciosidades, idem.

É uma ludicidade com a arte erótica de escrever poesia, flertando com os poemas com os cuidados que se dispensariam a um amante.

Sem metáfora não há poesia…

Dou destaque ao Poemeto Erótico de Manuel Bandeira – simples e belo poema em redondilhas, que aqui está sem nenhum verso poupado, mantendo a ordem como eles vieram ao mundo. Pois que este poema-monumento é o expoente de tudo aquilo que os poetas vinham dizendo – e que se busca sempre: a concretização no poema da fusão amorosa entre poesia e palavra. Tanto que a dúvida permanece: estava Bandeira cantando a poesia ou a uma mulher? Provavelmente as duas… afinal…

Poemas carecem de musas que os animem.

Sem alma, definitivamente, não há poesia.

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