Ode ao Escafandrista – Neruda

Saiu o homem de borracha

dos mares.

Sentado

parecia

rei

redondo

da água,

polvo

secreto

e gordo,

talhe

arrancado

de invisível alga.

Do oceânico bote

desceram

pescadores

esfarrapados,

arroxeados

pela noite

no oceano,

desceram

erguendo

longos peixes fosfóricos

como

fogo voltaico,

os ouriços caindo

amontoaram

sobre as areias

o rancor quabradiço

das suas puas.

.

O homem

submarino

tirou as suas grandes pernas,

desajeitadamente

cambaleou entre intestinos

horríveis de peixe.

As gaivotas cortavam

o ar livre com

as suas vozes de tesouras,

e o escafandrista

como um bêbado

caminhava

na praia,

sem jeito

e enfarruscado,

metido

não só

no seu traje de cetáceo,

mas ainda

meio mar

e meio terra,

sem saber como

dirigir os imensos

pés de borracha.

.

Ali estava nascendo.

Desprendeu-se

do mar

como do útero,

inocente,

e era sombrio, débil

e selvagem,

como

um

recém-nascido.

Cada vez

lhe era preciso

nascer

para as águas

ou a areia.

Cada dia

descendo

da proa

às cruéis

correntes,

ao frio

do Pacífico

chileno,

o escafandrista

tinha

que nascer,

fazer-se

monstro,

sombra,

avançar

com cautela,

aprender

a mover-se

com lentidão

de lua

submarina,

ter

apenas

pensamentos

de água,

recolher

os hostis

frutos, estalactites,

ou tesouros

da profunda solidão

daqueles

molhados

cemitérios,

como se colhesse

couves-flores,

e quando como um globo

de ar negro

subia

para

a luz, para

a sua Mercedes,

a sua Clara, a sua Rosaura,

era difícil

andar,

pensar, comer

de novo.

Tudo

era começo

para

aquele homem tão grande

ainda inconcluso,

cambaleante

entre a escuridão

dos abismos.

.

Como todas as coisas

que aprendi

na minha existência,

vendo-as, conhecendo,

aprendi que ser escafandrista

é um ofício

difícil? Não!

Infinito.

.

Pablo Neruda;

Oda al Buzo;

Tercer Libro de las Odas (1957);

tradução de Eliane Zagury.

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