“A glória de uma borboleta só dura um dia” J Krishnamurti

Jiddu Krishnamurti nasceu ao sul da Índia, em Madanapalle, de família brâmane, no dia 11 de maio de 1895. Palestrou e escreveu a vida toda a respeito dos tortuosos caminhos da alma humana em direção à espiritualidade. Considerado um dos homens mais iluminados do século 20, sua mensagem final foi a de radical “não-dualidade”. Grande crítico das instituições religiosas, inclusive daquela a qual por tradição pertencia, dizia que não há caminhos para o “Ser”, posto que o Ser paradoxalmente é o não-ser; Ser é o existir do caminho sem caminhos; sendo nós o caminho, enquanto somos. Dizia que não se chega à comunhão do Ser com a existência sendo discípulo ou mestre; seguindo tal ou qual crença, ritual, sacrifício; através de atos devocionais ou confessionais; tampouco se chega por reflexão racional de intelecto ou de sentimento; mas, através da intuição introvertida, da meditação passiva que, aos poucos, e imediatamente pela revelação da verdade, desfazem as dualidades que separam o “homem” do “caminho”, isto é, da falsa noção de que há um caminho a ser percorrido e um homem para percorrê-lo.

Jiddu Krishnamurti foi também um grande poeta. Os trechos que seguem são as falas da alma introvertida deste visionário. Foram retirados aleatoriamente do livro, de sua autoria, Comentários Sobre o Viver. São menos uma homenagem ao místico e mais ao poeta, hoje, completados 115 anos do seu nascimento. Estão em sintonia com a natureza, ou melhor, são a vida em seu pleno fluxo, em êxtase; sem a separação do homem x natureza, posto que natureza é homem e homem é natureza; sem a dualidade da vida x a morte, posto que a morte faz parte da vida como a vida da morte. Honram enfim a natureza da vida – gentil, exuberante, indomável, complexa – a vida em toda a sua paradoxal simplicidade, exatamente como foi a passagem de Krishnamurti pela terra.

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O tempo estava muito seco.

Os regatos tinham silenciado,

pois há muitos meses não chovia.

Os pinheiros, alguns já mortos, se tornavam marrons;

o vento errava entre eles. As montanhas se estendiam,

dobra por dobra, até o horizonte.

Um pinheiro morto parecia caiado de branco,

depois de muitos verões. Era belo, mesmo na morte,

gracioso e robusto, e sem mágoas.

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A glória de uma borboleta só dura um dia.

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O sol se punha e o trem atravessava uma região encantadora.

No horizonte, nuvens pesadas e negras; ouvia-se,

longínquo, o estrondo do trovão.

Quanta alegria num campo verdejante,

e como é aprazível aquela aldeia lá na dobra da montanha!

Descia a escuridão.

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O vale estava mergulhado na sombra,

e o sol poente tocava os cumes das montanhas distantes,

na luz crepuscular, parecia

vir-lhes de dentro.

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No topo da montanha estivera chovendo o dia todo.

Não era uma chuva suave, mansa, mas

um daqueles aguaceiros torrenciais que inundam as estradas,

arrancam as árvores das encostas,

ocasionam resvaladouros e geram

torrentes que silenciam dentro de poucas horas.

°

°

As montanhas ofereciam a promessa

de uma nova primavera, e a terra

sonhava com ela.

°

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Lá longe, no mar, branquejava uma vela solitária.

°

As águas do rio dançavam,

pois o sol traçara sobre elas uma senda de luz.

A vela branca atravessava aquela senda, sem perturbar a dança.

°

Como eram belas aquelas águas – silenciosas, ricas, profundas!

Havia ilhas de areia, tão frescas e convidativas, vistas de longe!

°

°

Além das areias amarelas, o mar verde-cinza.

Ondas brancas empurravam-se umas às outras para a praia,

mas as águas profundas estavam tranquilas.

As nuvens sobre o mar começavam a colorir-se,

embora o sol se estivesse pondo muito distante delas.

Vésper começava a mostrar-se.

°

Sentia-se o cheiro do anoitecer.

Sob os derradeiros raios de sol,

a água tinha a cor de flores recém-desabrochadas.

°

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O sol se punha no mar,

traçando uma estrada vermelha e brilhante; não havia crepúsculo.

A estrela da tarde pairava uns momentos acima do horizonte, e desaparecia.

A lua nova, um tênue retalho, vinha tomar posse da noite,

e logo desaparecia, também ela, nas ondas inquietas;

e a escuridão reinava sobre as águas.

°

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O sol estava do outro lado do rio,

atrás de uma nuvem grande, solitária.

A nuvem, em chamas,

fazia as águas resplandecerem,

lembrando um incêndio na floresta.

°

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Começou a chover copiosamente, e as folhas

de loto juntavam gotas de água; quando as gotas

se tornavam muito grandes, escorregavam

das folhas, e novas gotas se formavam.

As flores de loto fechavam-se hermeticamente, escondendo

os núcleos de ouro da escuridão que aumentava gradualmente;

seria preciso romper as pétalas roxas para se alcançar o núcleo.

Permaneceriam fechadas até o nascer do sol.

Mesmo no sono elas eram belas.

°

°

Todas as coisas se recolhiam em si mesmas.

As árvores fechavam-se no próprio ser;

as aves encolhiam as asas, para sonhar com suas excursões do dia;

o rio perdera a rutilância e as águas já não dançavam: fluíam

serenas e unidas. As montanhas

estavam distantes e inacessíveis,

e o homem se recolhera à sua morada.

A noite chegara;

reinava a quietude e

o isolamento.

Não havia comunhão;

cada coisa fechara-se

em si mesma,

isolara-se

a si mesma.

A flor, o som, as falas –

tudo estava fechado, invulnerável.

Só as estrelas se mostravam acolhedoras,

francas e comunicativas; mas longe,

muito longe.

°

O silêncio se tinha apoderado de toda a região

e parecia cobrir todas as coisas com o seu manto.

°

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O céu estava coberto de pesadas nuvens e fazia calor,

embora a brisa brincasse com as folhas.

Ouviam-se trovões distantes e uns respingos

de chuva assentavam a poeira da estrada.

um dia novo começava;

nada era como ontem.

As árvores e os papagaios não eram os mesmos;

o capim e as moitas tinham um quê todo diferente.

A lembrança do dia de ontem embaça o dia de hoje,

e a comparação impede o percebimento.

Que delicadas aquelas flores vermelhas e amarelas!

A delicadeza não é coisa do tempo.

°

°

Aqui e ali, o sol penetrava através da folhagem

espessa, e o ar estava cheio de perfumes de muitas flores.

Era uma deliciosa manhã e o chão ainda estava todo orvalhado.

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As chuvas tinham levado a poeira e afugentado o calor de muitos meses;

as folhas reluziam de limpas, e novas folhas começavam a despontar.

Pela noite afora, as rãs enchiam os ares com seu coaxar rouco;

de vez em quando, faziam uma pausa, e de novo recomeçavam.

O rio corria rápido e o ar era suave.

As chuvas ainda não tinham cessado de todo.

Nuvens escuras acumulavam-se

e o sol estava escondido.

A terra, as árvores e a natureza toda pareciam estar à espera

de uma nova purificação.

Havia alegria no ar,

depois de tantos meses de calor,

e a terra começava a cobrir-se de capim verde.

Tudo se renovava.

°

°

Era muito cedo ainda

e os alegres passarinhos faziam uma algazarra tremenda.

O sol começava a tocar as coroas das árvores, e nas sombras densas,

ainda não se viam retalhos de luz.

Um serpente devia ter atravessado gramado

há poucos instantes, pois

havia uma longa faixa limpa de orvalho.

°

°

A árvore solitária no meio do vasto gramado verde, era o centro

daquele pequeno mundo,

que incluía

o bosque, a casa e

o pequeno lago;

todo terreno circundante parecia correr para aquela árvore

alta e copada. Devia ser muito velha, mas

havia nela um frescor,

como se tivesse acabado de nascer;

quase não se viam ramos mortos e suas folhas

eram perfeitas, cintilando ao sol da manhã.

Por estar ali sozinha

todos os seres pareciam procurá-la.

A beleza simétrica daquela árvore dava forma ao ar, e,

na luz do alvorecer, dir-se-ia, ali,

o único ser vivente.

°
Do bosque, a árvore parecia muito distanciada;

mas da árvore,

o bosque, a casa,

e mesmo o céu,

pareciam chegados – sentia-se como se pudesse tocar

com as mãos

as nuvens

que passavam.

°

°

Somos estranhas criaturas; peregrinamos a lugares distantes,

Procurando uma coisa que está tão perto de nós.

°°

Créditos às fotos – se houver:

http://www.flickr.com/photos/21644167@N04/

http://www.flickr.com/photos/olvwu/

http://www.flickr.com/photos/dcdead/

http://www.flickr.com/photos/ilovemyblackcat/

http://www.flickr.com/photos/bombeador/

http://www.flickr.com/photos/henribonell/

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3 comentários sobre ““A glória de uma borboleta só dura um dia” J Krishnamurti

  1. Um encontro com JK é um encontro consigo mesmo. Tudo que diz é sobre a humanidade escondida dentro de cada humano.

    Não há o que por, não há o que tirar, é o beco sem saída é a cara no espelho refletida.

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