De um improvável eclipse…

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Do que nada se sabe

Jorge Luis Borges

A lua ignora que é tranquila e clara

e nem sequer sabe que é a lua;

a areia, que é a areia. Não há uma

coisa que saiba que sua forma é rara.

As peças de marfim são tão alheias

ao abstrato xadrez como à mão

que as guiam. O destino humano de tão

largas penas e de breves alegrias

talvez seja objeto de outro. Ignoramos;

dar-lhe nome de Deus não nos ajuda.

Vãos também são o medo, a dúvida

e a truncada súplica que iniciamos.

Que arco terá lançado esta seta

que sou? Que alvo pode ser a meta?

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Pequena flor

Cecília Meireles

Como pequena flor que recebeu uma chuva enorme
e se esforça por sustentar o oscilante cristal das gotas
na seda frágil e preservar o perfume que aí dorme,

e vê passarem as leves borboletas livremente,
e ouve cantarem os pássaros acordados sem angústia,
e o sol claro do dia as claras estátuas beijando sente,

e espera que se desprenda o excessivo, úmido orvalho
pousado, trêmulo, e sabe que talvez o vento
a libertasse, porém a desprenderia do galho,

e nesse temor e esperança aguarda o mistério transida
– assim repleto de acasos e todo coberto de lágrimas
há um coração nas lânguidas tardes que envolvem a vida.

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Traduzir poemas é para mim quase tão divertido quanto os fazer. Mas o verdadeiro motivo das minhas últimas investidas é a minha insatisfação com algumas traduções que tenho encontrado do espanhol, que absurdamente primam pela técnica em detrimento da poética; como se o mais importante para a poesia fosse a orelha e não o brinco. :p Este ficou bom? O original taqui:

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De que nada se sabe

Jorge Luis Borges

La luna ignora que es tranquila y clara

y ni siquiera sabe que es la luna;

la arena, que es la arena. No habrá una

cosa que sepa que su forma es rara.

Las piezas de marfil son tan ajenas

al abstracto ajedrez como la mano

que las rige. Quizá el destino humano

de breves dichas y de largas penas

es instrumento de otro. Lo ignoramos;

darle nombre de Dios no nos ayuda.

Vanos también son el temor, la duda

y la trunca plegaria que iniciamos.

¿Qué arco habrá arrojado esta saeta

que soy? ¿Qué cumbre puede ser la meta?

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