A Grande Arte

— Quem bate? — “A noite é sombria!”
— Quem bate? — “É rijo o tufão!…
Não ouvis? a ventania
Ladra à lua como um cão.”
— Quem bate? — “O nome qu’importa?
Chamo-me dor… abre a porta!
Chamo-me frio… abre o lar!
Dá-me pão… chamo-me fome!
Necessidade é o meu nome!”

(…)

“Bati a todas as portas
Nem uma só me acolheu!…”
— “Entra!” — : Uma voz argentina
Dentro do lar respondeu.
— “Entra, pois! Sombra exilada,
Entra! O verso — é uma pousada
Aos reis que perdidos vão.
A estrofe — é a púrpura extrema,
Último trono — é o poema!
Último asilo — a Canção!…”

O Fantasma e a Canção,

Castro Alves

A poesia

Chegas, silenciosa, secreta,
e despertas paixões, furores,
e esta angústia
que incendeia o que toca
e engendra em cada coisa
uma ânsia sombria.

O mundo esmorece e se desmancha
como metal no fogo.
De minhas ruínas me levanto,
sozinho, nu, despojado,
sobre a imensa pedra do silêncio,
como um solitário combatente
contra invisíveis hostes.

Verdade abrasadora,
para onde me encaminhas?
Não quero a tua verdade,
a tua insensata pergunta.
Por que esta luta estéril?
Não é o homem uma criatura capaz de te conter,
avidez que apenas a sede sacia,
chama que a todos os lábios consome,
espírito que não vive em nenhuma forma,
mas faz arder todas as formas.

Sobes até o mais fundo de mim
até o inominável centro do meu ser,
exército levado pela maré.
Cresces, e tua sede me afoga,
expulsando, tirânica,
o que não cede
à tua espada frenética.
É só a ti que permito morada
a ti, sem nome, substância furiosa,
anseio subterrâneo, delirante.

Golpeiam meu peito teus fantasmas,
despertam meu tato,
gelam minha fronte
abrem meus olhos.

Percebo o mundo e te toco,
substância intocável,
a minha unidade de corpo e alma,
e contemplo ao combate que combato
e minhas bodas de terra.

Obnubilam meus olhos imagens opostas,
e a estas imagens
outras, mais profundas, as negam,
sussurram ardentes
águas que afogam outras águas mais misteriosas e densas.
Na tua umidade obscura, vida e morte,
quietude e movimento, são uma só coisa.

Insistes, vencedora,
porque eu só existo porque tu existes,
e minha boca e língua se formatam
para afirmar tão somente a tua existência,
tuas secretas sílabas, palavra
impalpável e despótica,
substância da minha alma.

És tão somente um sonho,
mas em ti o mundo sonha
e tua mudez se faz com palavras.
Sinto, ao tocar-te, em teu peito,
a fronteira eletrizante da vida,
o languinhoso sangue
que sela a cruel boca enamorada,
ávida em destruir o que ama
e reviver o que mata,
impassível, como o mundo,
sempre idêntico a si mesmo,
porque não se detém em nenhuma forma
nem se demora sobre o que cria.

Leva-me, solitária,
leva-me entre os sonhos,
leva-me, mãe minha,
desperta-me de tudo,
faz-me sonhar teu sonho,
unge meus olhos com azeite,
para que ao te conhecer, eu me conheça.

Octavio Paz

 

Sigh no more, ladies…

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2 comentários sobre “A Grande Arte

  1. Eu gosto muito desse tipo de poesia que nos põe em certo estado de desconforto, com “a alma mal-entendendo”, como disse o Pessoa no seu magistral Tabacaria. Ou entendendo tudo, sei lá, a vida é isso que aí está, sem arte fica impossível…

    Bjos

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