“Pálpebras Descidas”

 

Demogorgon

Álvaro de Campos

 

Na rua cheia de sol vago há casas paradas e gente que anda.
Uma tristeza cheia de pavor esfria-me.
Pressinto um acontecimento do lado de lá das frontarias e dos movimentos.

Não, não, isso não!
Tudo menos saber o que é o Mistério!
Superfície do Universo, ó Pálpebras Descidas,
Não vos ergais nunca!
O olhar da Verdade Final não deve poder suportar-se!

Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada!
A razão de haver ser, a razão de haver seres, de haver tudo,
Deve trazer uma loucura maior que os espaços
Entre as almas e entre as estrelas.

Não, não, a verdade não! Deixai-me estas casas e esta gente;
Assim mesmo, sem mais nada, estas casas e esta gente…
Que bafo horrível e frio me toca em olhos fechados?
Não os quero abrir de viver! ó Verdade, esquece-te de mim!

 

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2 comentários sobre ““Pálpebras Descidas”

  1. Ju,

    Nunca tinha lido esse poema! Adorei!

    “ó Verdade, esquece-te de mim!”

    As vezes ignorar é não sofrer, sem dúvida. Mas gente é um bicho curioso, não é?

    Beijos,
    Carol

  2. “Mas gente é um bicho curioso, não é?”

    … e como.
    Foi bom vc dizer, o que move o homem não é o medo – do sofrimento ou do que for – é a curiosidade.

    Bjão

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