em cima & embaixo

 

“Treme a folha no galho mais alto” – escrevo. Paro e sorvo, de olhos fechados, o cheiro bom da terra, do capim chovido. . . Parece que quer vir um poema. . . Abro os olhos e fico olhando, interrogativamente, a linha que escrevi no alto da página. Depois de longo instante, acrescento-lhe três pontinhos. Assim não ficará tão só enquanto aguarda as companheiras. O vento fareja-me a face como um cachorro. Eu farejo o poema. Ah, todo o mundo sabe que a poesia está em toda parte, mas agora cabe toda ela na folha que treme.

(…)

 

 

 

Mario Quintana

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3 comentários sobre “em cima & embaixo

  1. “mas agora cabe toda ela na folha que treme”… na verdade existe todo um universo naquela folha, tão grande quanto esse mesmo que conhecemos… e quem poderá me desmentir.. tenho a poesia do meu lado e contra isso não existe nada mais poderoso…

  2. Willian,

    Universo?

    A “poesia” do Quintana continua e encerra assim:

    “(…)
    Por que não caberia então em um único verso? Um uni-verso.
    Treme a folha no galho mais alto.
    (O resto é paisagem…)”

    Eu optei omitir essa parte porque achei mais interessante começar e terminar na mesma palavra e na imagem que principia por uma folha que treme no cimo de uma árvore e acaba na folha de papel na mão do poeta. Isso é de uma beleza sem fim, pura poesia. O contraste e a união entre folha & folha, interior & exterior, alto & chão; e a mim ainda o grande maestro oculto aqui é o vento, como em muitos outros poemas de Quintana, o vento como um deus dispositor do tempo, inconsciente dos destinos que provoca.

    Eu vejo muita semelhança entre a poesia do Mario Quintana e a do Manoel de Barros, guardadas as diferenças de região e de pertencerem cada qual a uma geração distinta, eu acho os dois poetas os mais livres de escolas de estilo que tanto aprisionaram outros poetas… Eles é que se fizeram – e o Manoel continua se fazendo, à margem, sendo ele referência de si próprio e fazendo sua escola.

    Um dia ainda vou reunir poesias do Mario e do Manoel num único post, para traçar desses paralelos que vejo entre os dois…

    Abs

  3. vou aguardar ansiosamente… aprendi a gostar do Manoel, penso que ele é um dos raros gênios da simplicidade poética… fico em êxtase quando leio suas linhas… vou escrever uma resposta ao seu post lá no meu cantinho… coisas pequenas sempre me cativam…. visite quando puder… ótimo fds p ti!!!! abs

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