Presente de Véspera

 

 

Ganhei de presente do acaso

uma nova poeta.

Veio de graça.

Hoje

24 de dezembro.

Mistério.

Véspera de algo que se espera

venha

e seja bom.

 

Vamos fazer a limpeza do ano

e vamos tirar todas as coisas

que não nos servem para nada, essas

coisas que já não utilizamos, essas

outras que nada mais fazem que acumular pó,

as que evitamos guardar porque

nos trazem recordações dolorosas,

as que nos ferem, ocupam espaço

ou nunca quisemos ter conosco.

Vamos fazer a limpeza do ano

ou, todavia melhor, uma mudança

que nos permita abandonar as coisas

sem sequer as tocar, sem nos sujar,

deixando-as aonde têm estado sempre;

vamos embora, vida minha,

para começar e acumular de novo.

Ou vamos botar fogo em tudo

e ficar em paz, com essa visão

das brasas do mundo diante dos olhos

e com o coração limpo.


Sejamos francos

nunca se sabe entretanto o que virá

não se tem garantia de nada, não na véspera.

 

Deitei-me sem jantar, e aquela noite

sonhei que comia seu coração.

Suponho que foi de fome.

Enquanto eu devorava aquela fruta,

que era doce e amarga ao mesmo tempo,

você me beijava com seus lábios frios,

mais frios e mais pálidos do que nunca.

Suponho que foi a morte.

 

Hoje, véspera de algo que se espera novo

e que por isso promete

vir no fim de quase acabada a primeira década de um milênio mal começado

ver o fim de uma quase já extinta era.

 

Ver a alvorada  contigo,

ver contigo a noite,

e ver de novo a alvorada

na luz dos teus olhos.


Um tempo que se quer outro

que se aprende a ser outro

ou então se acaba.

O tempo do homem, bem entendido.

Amalia Bautista.

Espanha.

Mistério.

A poesia merece continuar.

Mas como se pôde todo esse tempo viver sem ela?

E como se poderá sem ela agora viver?

Nunca se pôde, nem poderá.

 

***

 

Aqui os originais de Amalia Bautista, traduzidos rapidamente nessa manhã para comporem juntos ao meu poema de véspera. Tudo meio apressado, num típico caso de amor à primeira vista – mal li os primeiros versos dessa ainda desconhecida poetisa espanhola e já a tenho na companhia de outros poetas meus queridos, como Cecília, Bandeira, Quintana… Com a vantagem para ela de que ainda está em composição de sua obra. Será um prazer ver o que virá.

 

 

VAMOS A HACER LIMPIEZA GENERAL

Vamos a hacer limpieza general
y vamos a tirar todas las cosas
que no nos sirven para nada, esas
cosas que ya no utilizamos, esas
otras que no hacen más que coger polvo,
las que evitamos encontrarnos porque
nos traen los recuerdos más amargos,
las que nos hacen daño, ocupan sitio
o no quisimos nunca tener cerca.
Vamos a hacer limpieza general
o, mejor todavía, una mudanza
que nos permita abandonar las cosas
sin tocarlas siquiera, sin mancharnos,
dejándolas donde han estado siempre;
vamos a irnos nosotros, vida mía,
para empezar a acumular de nuevo.
O vamos a prenderle fuego a todo
y a quedarnos en paz, con esa imagen
de las brasas del mundo ante los ojos
y con el corazón deshabitado.

 

 

A DIETA

Me acosté sin cenar, y aquella noche
soñé que te comía el corazón.
Supongo que sería por el hambre.
Mientras yo devoraba aquella fruta,
que era dulce y amarga al mismo tiempo,
tú me besabas con los labios fríos,
más fríos y más pálidos que nunca.
Supongo que sería por la muerte.

 

 

PIDE TRES DESEOS

Ver el alba contigo,
ver contigo la noche,
y ver de novo el alba
en la luz de tus ojos.

 

***

 

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