Reedição

Como a vida é longa…

 

 

 

Há mistérios crescendo por cima das palavras como bucha em tapera

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

 

Clair de lune, chiaro de luna, entro de lunia…

jamais os franceses, os italianos e os espanhóis

saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de

um trago numa palavra só.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

Na cidade, a lua:

a jóia branca que bóia

na lama da rua.

 

(Guilherme de Almeida)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

colhidos no mais íntimo de mim…

Suas palavras

seriam as mais simples do mundo,

porém não sei que luz as iluminaria

que terias de fechar teus olhos para as ouvir…

Sim! Uma luz que viria de dentro delas,

como essa que acende inesperadas cores

nas lanternas chinesas de papel!

Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas

do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca soube o que dizer-te

e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento

da Poesia…

como

uma pobre lanterna que incendiou!

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

NUNCA E SEMPRE

 

Sempre cheguei tarde

ou cedo demais.

Não vi a felicidade acontecer.

Nunca floresceram

em minha primavera

as rosas que sonhei colher.

 

Mas sempre os passarinhos

cantaram e fizeram ninhos

pelos beirais

do meu viver.

 

(Helena Kolody)

 

 

 

 

 

 

 

Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa

é do vento.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

A ROSA BRANCA

 

Não me inquieta se o caminho

que me coube – por secreto

desígnio – jamais floresce.

Dentro de mim, sei que existe,

oculta, uma rosa branca.

Incólume rosa. E branca.

 

Não pude colhê-la: mal

nascera e logo perdi-me

nos labirintos do tempo,

onde desde então pervago

apenas entressonhando

aquilo que sou – e vive

no recôncavo da rosa.

 

Sem conhecer-me, padeço

o mistério de existir

em amargo desencontro

comigo mesmo. No entanto,

pesar tão largo se apaga

quando pressinto: na rosa,

mistério não há. Nenhum.

Sem medo de trair-me a face,

posso morrer amanhã.

Extinto o jugo do tempo,

olhos nem boca haverá

– para a queixa e para a lágrima –

se em vez de rosa, de pétala

cinza de pétala, apenas

existir a escuridão.

O vazio. Nada mais.

 

(Thiago de Mello)

 

 

 

 

 

 

A minha alma era uma paisagem hirsuta:

cactos, palmas híspidas,

estranhas flores que atemorizavam (seriam aranhas

carnívoras?) parecia

um texto obscuro com pontuação excessiva;

tudo porque me estavam apontando alguns fios de barba;

e cada fio era uma baioneta calada contra o mundo:

tu

com

a graça aérea de um helicóptero ou de uma libélula

soubeste achar – naquilo – onde o campo de pouso,

soubeste ouvir onde cantava

pura

a fonte oculta…

 

Só tu soubeste achar-me… e te foste!

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

Eu soube enfim que o amor está ligado a mim.

E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.

Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,

Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.

 

(Rumi)

 

 

 

 

 

 

TEMPO PERDIDO

 

Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um

tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as

crianças brincavam sob a clarabóia da lua. E o

cachorro da casa era um grande personagem. E também

o relógio de parede! Ele não media o tempo

simplesmente: ele meditava o tempo.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

 

BLADE RUNNER WALTZ

 

Em mil novecentos e oitenta e sempre,

ah, que tempos aqueles,

dançamos ao luar, ao sol da valsa

A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia,

nome, confesso, um pouco longo,

mas os tempos, aquele tempo,

ah, não se faz mais tempo

como antigamente.

 

Aquilo sim é que eram horas,

dias enormes, semanas anos, minutos milênios,

e toda aquela fortuna em tempo

a gente gastava em bobagens,

amar, sonhar, dançar ao som da valsa,

aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento

que a gente dançava em algum setembro

daqueles mil novecentos e oitenta e sempre.

 

(Paulo Leminski)

 

 

 

 

 

 

REMINISCÊNCIAS

A enchente de 1941. Entrava-se de barco pelo corredor da velha casa de cômodos onde eu morava. Tínhamos assim um rio só para nós. Um rio de portas a dentro. Que dias aqueles! E de noite não era preciso sonhar: pois não andava um barco de verdade assombrando os corredores?

Foi também a época em que era absolutamente desnecessário fazer poemas…

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

OVNI

 

Sou uma coisa entre coisas

O espelho me reflete

Eu (meus

olhos)

reflito o espelho

 

Se me afasto um passo

o espelho me esquece:

– reflete a parede

a janela aberta

 

Eu guardo o espelho

o espelho não me guarda

(eu guardo o espelho

a janela a parede

rosa

eu guardo a mim mesmo

refletido nele):

sou possivelmente

uma coisa onde o tempo

deu defeito

 

(Ferreira Gullar)

 

 

 

 

 

 

Somos donos de nossos atos,

mas não donos de nossos sentimentos;

Somos culpados pelo que fazemos,

mas não somos culpados pelo que sentimos;

Podemos prometer atos,

mas não podemos prometer sentimentos…

Atos são pássaros engaiolados,

sentimentos são pássaros em voo.

 

(Mário Quintana)

 

 

 

 

 

 

O DUPLO

 

Debaixo de minha mesa

tem sempre um cão faminto

– que me alimenta a tristeza.

 

Debaixo de minha cama

tem sempre um fantasma vivo

– que perturba quem me ama.

 

Debaixo de minha pele

alguém me olha esquisito

-pensando que eu sou ele.

 

Debaixo de minha escrita

há sangue em lugar de tinta

– e alguém calado que grita.

 

(Affonso Romano de Sant´Anna)

 

 

 

 

 

O passado não reconhece o seu lugar: esta sempre presente.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

“CATECISMO DE BERCEO”

 

1.

Fazer com que a palavra leve

pese como a coisa que diga,

para o que isolá-la de entre

o folhudo em que se perdia.

 

2.

fazer com que a palavra frouxa

ao corpo de sua coisa adira:

fundi-la em coisa, espessa, sólida,

capaz de chocar com a contígua.

 

3.

Não deixar que saliente fale:

sim, obrigá-la à disciplina

de preferir a fala anônima,

como a todas de uma linha.

 

4.

Nem deixar que a palavra flua

como rio que cresce sempre:

canalizar a água sem fim

noutras paralelas, latente.

 

(João Cabral de Melo Neto)

 

 

 

 

 

 

 

É isso mesmo

Quem nunca se contradiz deve estar mentindo.

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

Os espelhos partidos têm muitos mais luas…

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

Sou um sujeito cheio de recantos.

Os desvãos me constam.

Tem hora leio avencas.

Tem horas Proust.

Ouço aves e beethovens.

Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

 

O dia vai morrer aberto em mim.

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

 

 

 

ENVELHECER

 

Antes, todos os caminhos iam,

hoje, todos os caminhos vêm…

A casa é acolhedora, os livros poucos

E eu mesmo sirvo o chá para os fantasmas…

 

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

MAR, MAR E MAR

 

Tu perguntas, e eu não sei,

eu também não sei o que é o mar.

 

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos

ao reler uma carta, quando é de noite.

Os teus dentes, talvez os teus dentes,

miúdos, brancos dentes, sejam o mar,

um mar pequeno e frágil,

afável, diáfano,

no entanto sem música.

 

É evidente que a minha mãe me chama

quando uma onda e outra onda e outra

desfaz o seu corpo contra o meu corpo.

Então o mar é carícia,

luz molhada onde desperta

meu coração recente.

 

Às vezes o mar é uma figura branca

cintilando entre os rochedos.

Não sei se fita a água

ou se procura

um beijo entre conchas transparentes.

 

Não, o mar não é nardo nem açucena.

É um adolescente morto

de lábios abertos aos lábios de espuma.

É sangue,

sangue onde a luz se esconde

para amar outra luz sobre as areias.

 

Um pedaço de lua insiste,

insiste e sobe lenta arrastando a noite.

Os cabelos da minha mãe desprendem-se,

espalham-se na água,

alisados por uma brisa

que nasce exatamente no meu coração.

O mar volta a ser pequeno e meu,

anêmona perfeita, abrindo nos meus dedos.

 

Eu também não sei o que é o mar.

Aguardo a madrugada, impaciente,

os pés descalços na areia.

 

(Eugénio de Andrade)

 

 

 

 

 

 

 

… e breve



 

 

 

 

 

Fere de leve a frase… E esquece… Nada

Convém que se repita…

Só em linguagem amorosa agrada

A mesma coisa cem mil vezes dita.

 

(Mario Quintana)

 


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