Quintanares II


 

 

Da vez primeira em que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…

Depois, a cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha…

 

Hoje, dos meus cadáveres eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada…

Arde um toco de vela amarelada…

Como único bem que me ficou!

 

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!

Pois dessa mão avaramente adunca,

Não haverão de arrancar a luz sagrada!

 

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!

Que a luz, trêmula e triste como um ai,

A luz de um morto não se apaga nunca!

 

S.O.S.

Cada poema é uma garrafa de náufrago jogada às aguas…

Quem a encontrar, salva-se a si mesmo.

 

A vida

A vida nutre-se da morte, e não a morte da vida,

como julgam alguns pessimistas.

 

A morte

Tenho pena da morte – cadela faminta – a quem

deixamos a carne doente e finalmente os ossos,

miseráveis que somos… O resto é indevorável.

 

Só a poesia possui as coisas vivas, O resto é

necrópsia.

 

 
Sonho


Um Poema que, ao lê-lo, nem sentirias que ele já

estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo

instante de teu próprio coração.

A florzinha

Crescendo

Subia

Subia

Direto

Pro céu

Como na História de Joãozinho e o Pé de Feijão.

Joãozinho era eu

Na relva estendido

Atento ao mistério das formigas que trabalhavam tanto.

E as nuvens, no alto, pasmadas, olhando.

E as torres, imóveis de espanto, entre vôos ariscos

Olhavam olhavam.

E a água do arroio arregalava bolhas atônitas

Em torno de cada pedra que encontrava.

Porque todas as coisas que estavam dentro do balão

azul daquela hora

Eram curiosas e ingênuas como a flor que nascia

E cheias do tímido encantamento de se encontrarem

juntas,

Olhando-se…


 

As pessoas sem imaginação podem ter tido as

mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as

terras mais estranhas… Nada lhes ficou. Nada lhes

sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida:

também precisa ser sonhada.

 

O humilde tesouro

Ah, nem queiras saber… A vida é preciosa como

um pão roubado!

 

O Nada

O Nada é a palavra que mais assusta o comum

das gentes. Mas, para exorcizá-lo, ninguém precisa ir

aos padres, às mães-pretas, aos índios velhos, ao

diabo: basta ir a um dicionário e verá que o nada não

existe. Sim, é uma coisa tão absurda como a

existência do mundo.

 

As lagartas não podem acreditar na lenda das

borboletas – tão antiga entre o seu rastejante e

esforçado povo.., mas sua felicidade consiste em

relembrar, às vezes, o absurdo e maravilha deste velho

sonho: o de se transformarem, um dia, em borboletas.

 

Só a poesia possui as coisas vivas, O resto é

necrópsia.

 

Não deves acreditar nas respostas. As respostas

são muitas e a tua pergunta é única e insubstituível.

Que imaginação depravada têm as orquídeas! A

sua contemplação escandaliza e fascina. Vivem

procurando e criando inéditos coloridos, e estranhas

formas, combinações incríveis, como quem procura

uma volúpia nova, um sexo novo…

 

Conhecer o mistério de um corpo é talvez mais

importante do que conhecer o mistério de uma alma.

 

Só a poesia possui as coisas vivas, O resto é

necrópsia.

 

Todos esses que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!

 

Os intermediários

Não me ajeito com os padres, os críticos e os canudinhos

de refresco: não há nada que substitua o sabor da

comunicação direta.

 

A diferença

O que eles chamam de nossos defeitos é o que nós

temos de diferente deles. Cultivemo-los pois, com o

maior carinho – esses nossos benditos defeitos.

 

O outro

Na Cidade do Sonho, que existe dentro da outra e

onde o tempo é um novelo inextrincavelmente

emaranhado pelos gatos, quase sempre avisto ao longe,

dobrando uma esquina, aquele mesmo vulto

silencioso. Não sei por que ele me espiona e evita-me.

Desconfiará que sou acaso a sua imagem perdida nos

espelhos? Teme saber qual de nós dois está sonhando

o outro? Vou fazer fumigações, acender velas pretas a

São Cipriano, velas brancas ao meu Negrinho do

Pastoreio, velas de todas as cores a São Jorge em seu

belo cavalo – e, uma noite, numa esquina do sonho,

hei de enfim surpreendê-lo, cara a cara!

Mas talvez nunca mais eu despertasse…

 

(Mario Quintana)

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