Variação em torno d’ que não pode ser nomeado e é tudo

A convivência entre poeta e leitor,

só no silêncio da leitura a sós. A sós, os dois.

Isto é, livro e leitor. Este não quer saber de terceiros,

não quer que interpretem, que cantem, que dancem um poema.

O verdadeiro amador de poemas ama em silêncio…

(Mario Quintana)

 

 

 

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não veem escolhos nenhuns.

 

 

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns veem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

 

 

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns veem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente.

 

 

Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

 

 

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

 

 

(António Gedeão)

 

 

 

 

 

Faz uma chave, mesmo pequena,

entra na casa.

Consente na doçura, tem dó

da matéria dos sonhos e das aves.

 

 

 

Invoca o fogo, a claridade, a música

dos flancos.

Não digas pedra, diz janela.

Não sejas como a sombra.

 

 

 

Diz homem, diz criança, diz estrela.

Repete as sílabas

onde a luz é feliz e se demora.

 

 

 

Volta a dizer: homemmulhercriança.

Onde a beleza é mais nova.

 

 

 

 

(Eugénio de Andrade)

 

 

 

 

 

Entra no algodão terroso.

 

Depois
sobe devagarinho, mal se vê,
em muda aspiração ao algodão azul.

 

Persiste sem saber
que nunca atingirá
o mar da macieza.
Insiste pelos meses,
cega pelos ventos, pelo ouro
que purifica o céu.

 

Então,
sem desistir,
um dia,
não se resigna e explode
branca de alegria.

 

 

(Pedro Tamen)

 

 

Na laranja o sol e a lua
dormem de mãos dadas.

 

 

(Eugénio de Andrade)

 

 

já não é hoje?
não é aquioje?

 

já foi ontem?
será amanhã?

 

já quandonde foi?
quandonde será?

 

eu queria um jázinho que fosse
aquijá
tuoje aquijá.

 

 

(Alexandre O’Neil)

 

 

Bocas roxas de vinho,
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa;

 

Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos, mudos,
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.

 

Antes isto que a vida
Como os homens a vivem
Cheia da negra poeira
Que erguem das estradas.

 

Só os deuses socorrem
Com seu exemplo aqueles
Que nada mais pretendem
Que ir no rio das coisas.

 

 

(Ricardo Reis)

 

 

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