Discursos da água (ausência de)

Afogo na água que me falta

E que em você sobra

Há fogo demais em mim

 

 



 

 

 

 

Pudesse eu como o luar

Sem consciência encher

A noite e as almas e inundar

A vida de não pertencer!

 

(Fernando Pessoa)

 

 

 

 

 

Quando um rio corta, corta-se de vez

o discurso-rio de água que ele fazia;

cortado, a água se quebra em pedaços,

em poços de água, em água paralítica.

 

Em situação de poço, a água equivale

a uma palavra em situação dicionária:

isolada, estanque no poço dela mesma,

e por assim estanque, estancada;

 

e mais: porque assim estancada, muda,

e muda porque com nenhuma comunica,

porque cortou-se a sintaxe desse rio,

o fio de água por que ele discorria.


(João Cabral de Melo Neto)

 

 

 

 

 

Cantas. E fica a vida suspensa.

É como se um rio cantasse:

em redor é tudo teu;

mas quando cessa o teu canto

o silêncio é todo meu.

 

 

(Eugénio de Andrade)

 

 

 

 

 

O que não escrevi, calou-me.

O que não fiz, partiu-me.

O que não senti, doeu-se.

O que não vivi, morreu-se.

O que adiei, adeus-se.

 

(Affonso Romano de Sant’Anna)

 

 

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