Quadro Branco

A natureza ama esconder-se.

Heráclito

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Algumas pessoas sem coração leem minha poesia e mandam dizer que não gostam.

Não seja por isso. Também não gosto da dureza como pisam.

 

 

Aqui em casa o meu chão vai na parede da sala

onde tem um quadro grande atrás do sofá.

Só ele sozinho ocupa ali toda a minha imaginação.

O sofá é vermelho; a parede é amarela;

a tela está em branco.

Ali, todos os dias, o quadro amanhece um sol

entre ramas e café da manhã. Noutros chove.

Ou faz uma espécie de sombra, acinzentada,

que varia de lua cheia à nova. Não raro

acontecem eclipses. Isso é que os dias mudam

as cores no branco do quadro como no quintal

a natureza muda o pé de limão pelos meses. Desconfio

que esse meu quadro na parede da sala espelha as cores

da alma de quem o vê, de que ele muda de acordo 

com a temperatura interna de seu observador.

Para mim que tem uma janela escondida lá dentro,

que ao dado espaço cabe ser ampla, e se abrir,

pelos olhos da imaginação, a outro horizonte ainda mais largo.

Também desconfio uma porta misteriosa, sinistra.

Receio entrar por ela, que guarda os segredos

de lugares que ainda não estive, ou porque não quis,

ou porque não posso, que estão no futuro.

 

 

Esse foi o melhor quadro que já pintei na vida.

 

 

E digo isso porque quero que você saiba: fui eu que fiz esse quadro,

tudo nele leva a minha assinatura. Fui eu que escolhi a madeira errada,

a mais barata, que num dia seco se empena toda, quando o quadro fica,

assim, meio que inteiramente retorcido como a reclamar da própria feiúra.

Mas foi isso o que de mais acertado poderia ter feito: o quadro me avisa as horas

em que devo beber água, mesmo sem ter sede. Por conta disso até perdi o número

das crises de rinite que parei de ter, agora que sei o momento de me prevenir.

Fui eu que preguei a madeira e preparei com capricho a cola e o fundo de base da tela:

esse branco de chumbo onde iria pintar uma grande e única árvore retangular

sem raízes, isso porque não sabia então o que sei hoje.

Como não tinha onde guardar, guardei o quadro na parede onde seria o seu lugar.

Fui eu que furei a parede, que medi os milímetros e acertei o prumo com perfeição.

Fui eu que levei anos amadurecendo o meu olhar nesse branco.

Os dias sem conta se passando e a árvore, sem sair da sua virtualidade,

cresceu mais na minha imaginação. No fértil terreno logo ela deu frutos,

pintaram outros quadros, pensei em gente e em outros projetos, pensei em algo

mais abstrato e

continuo pensando

até hoje.

Parei de pintar e comecei a escrever poesia.

O que eu quero que você saiba é que esse quadro vai ficar assim, como está

na parede da sala, um quadro em branco que não vai sair do seu esboço de papel,

que de todos os quadros que pintei esse foi o mais puro.

 

 

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