Via da Cor

Sexta-feira da Paixão. Do livro Bagagem, dos primeiros poemas de Adélia Prado, uma seleção de tão somente pouco mais que uma dezena de poemas, e, vale dizer, escolhidos a muito custo só estes, com que gostaria de celebrar a palavra mais linda da língua portuguesa inventada pela poeta:

 

 

 

cor tropicordiosa

 

 

 

Beije-me com os beijos de tua boca!
Seus amores são melhores do que o vinho,
o odor de seus perfumes é suave,
seu nome é como óleo escorrendo

A voz do meu amado!
Vejam: vem correndo pelos montes,
saltitando pelas colinas!

Escrito nos Cânticos

 

 

O correr das águas
a passagem das nuvens
o brincar das crianças
o sangue nas veias.

Esta é a música de Deus.

Hermann Hesse

 

 

Tu és como o rosto das rosas:
diferente em cada pétala.

Onde estava o teu perfume? Ninguém soube.
Teu lábio sorriu para todos os ventos
e o mundo inteiro ficou feliz.

Eu, só eu, encontrei a gota de orvalho que te alimentava,
como um segredo que cai do sonho.

Depois, abri as mãos, – e perdeu-se.

Agora, creio que vou morrer.

Cecília Meireles

 

 

Esta pequena hora,
Sem o teu vulto, sem a tua espera,
Foi uma hora triste;
Foi como quando se acorda em primavera
Já quando a primavera não existe.

Miguel Torga

 

 

 

 

SEDUÇÃO

A poesia me pega com sua roda dentada,

me força a escutar imóvel

o seu discurso esdrúxulo.

Me abraça detrás do muro, levanta

a saia pra eu ver, amorosa e doida.

Acontece a má coisa, eu lhe digo,

também sou filho de Deus,

me deixa desesperar.

Ela responde passando

a língua quente em meu pescoço,

fala pau pra me acalmar,

fala pedra, geometria,

se descuida e fica meiga,

aproveito pra me safar.

Eu corro ela corre mais,

eu grito ela grita mais,

sete demônios mais forte.

Me pega a ponta do pé

e vem até na cabeça,

fazendo sulcos profundos.

É de ferro a roda dentada dela.

 

 

 

 

A SERENATA

Uma noite de lua pálida e gerânios

ele viria com boca e mãos incríveis

tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero

e só vejo dois caminhos:

ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobro

o que não for natural como sangue e veias

descubro que estou chorando todo dia,

os cabelos entristecidos,

a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que vem,

de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?

A lua, os gerânios e ele serão os mesmos

— só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?

Como a fecharei, se não for santa?

 

 

 

 

UMA VEZ VISTO

Para o homem com a flauta,

sua boca e mãos,

eu fico calada.

Me viro em dócil,

sábia de fazer com veludos

uma caixa.

O homem com a flauta

é meu susto pênsil

que nunca vou explicar,

porque flauta é flauta,

boca é boca,

mão é mão.

Como os ratos da fábula eu o sigo

roendo o inroível amor.

O homem com a flauta existe?

 

 

 

 

OS LUGARES COMUNS

Quando o homem que ia casar comigo

chegou a primeira vez na minha casa,

eu estava saindo do banheiro, devastada

de angelismo e carência. Mesmo assim,

ele me olhou com olhos admirados

e segurou minha mão mais que

um tempo normal a pessoas

acabando de se conhecer.

Nunca mencionou o fato.

Até hoje me ama com amor

de vagarezas, súbitos chegares.

Quando eu sei que ele vem,

eu fecho a porta para a grata supresa.

Vou abri-la como o fazem as noivas

e as amantes. Seu nome é:

Salvador do meu corpo.

 

 

 

 

CANÇÃO DE AMOR

Veio o câncer no fígado, veio o homem

pulando da cama no chão e andando

de gatinhas, gritando: ‘me deixa, gente,

me deixa’, tanta era sua dor sem remédio.

Veio a morte e nesta hora H, a camisa sem botão.

Eu supliquei: eu prego, gente, eu prego,

mas, espera, deixa eu chorar primeiro.

Ah, disseram Marta e Maria, se estivésseis aqui,

nosso irmão não teria morrido. Espera disse Jesus,

deixa eu chorar primeiro.

Então se pode chorar? Eu posso então?

Se me perguntassem agora da alegria da vida,

eu só tinha a lembrança de uma flor miudinha.

Pode não ser só isso, hoje estou muito triste,

o que digo, desdigo. Mas a palavra de Deus

é a verdade. Por isso esta canção tem o nome que tem.

 

 

 

 

PARA O ZÉ

Eu te amo, homem, hoje como

toda vida quis e não sabia,

eu que já amava de extremoso amor

o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos

de bordado, onde tem

o desenho cômico de um peixe — os

lábios carnudos como os de uma negra.

Divago, quando o que quero é só dizer

te amo. Teço as curvas, as mistas

e as quebradas, industriosa como abelha,

alegrinha como florinha amarela, desejando

as finuras, violoncelo, violino, menestrel

e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito

para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo,

o teu coração, o que é, a carne de que é feito,

amo sua matéria, fauna e flora,

seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas

perdidas nas casas que habitamos, os fios

de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo

pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:

“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas

o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não

ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.

Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama

fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.

Te alinho junto das coisas que falam

uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como

o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,

tira de mim o ar desnudo, me faz bonita

de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,

me dá um filho, comida, enche minhas mãos.

Eu te amo, homem, exatamente como amo o que

acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando

os panos, se alargando aquecido, dando

a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.

Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,

o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,

te amo do modo mais natural, vero-romântico,

homem meu, particular homem universal.

Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.

Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,

a luz na cabeceira, o abajur de prata;

como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:

com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,

me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles

eu beijo.

 

 

 

 

CHORINHO DOCE

Eu já tive e perdi

uma casa,

um jardim,

uma soleira,

uma porta,

um caixão de janela com um perfil.

Eu sabia uma modinha e não sei mais.

Quando a vida dá folga, pego a querer

a soleira,

o portal,

o jardim mais a casa,

o caixão de janela e aquele rosto de banda.

Tudo impossível,

tudo de outro dono,

tudo de tempo e vento.

Então me dá choro, horas e horas,

o coração amolecido como um figo na calda.

 

 

 

 

AS MORTES SUCESSIVAS

Quando minha irmã morreu eu chorei muito

e me consolei depressa. Tinha um vestido novo

e moitas no quintal onde eu ia existir.

Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.

Tinha uma perturbação recém-achada:

meus seios conformavam dois montículos

e eu fiquei muito nua,

cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.

Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.

Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,

parentes, que me lembrassem sua fala,

seu modo de apertar os lábios e ter certeza.

Reproduzi o encolhido do seu corpo

em seu último sono e repeti as palavras

que ele disse quando toquei seus pés:

´deixa, tá bom assim´.

Quem me consolará desta lembrança?

Meus seios se cumpriram

e as moitas onde existo

são pura sarça ardente de memória.

 

 

 

 

ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo

A coisa mais fina do mundo.

Não é.

A coisa mais fina do mundo é o sentimento.

Aquele dia e noite, o pai fazendo serão,

Ela falou comigo:

‘Coitado, até essa hora no serviço pesado’.

Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.

Não me falou em amor.

Essa palavra de luxo.

 

 

 

 

POEMA ESQUISITO

Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.

Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.

Ninguém tem culpa. Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,

não existe mais o modo

de eles terem seus olhos sobre mim.

Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?

É dentro de mim que eles estão.

Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.

Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,

que abunda nos cemitérios.

Quem plantou foi o vento, a água da chuva.

Quem vai matar é o sol.

Passou finados não fui lá, aniversário também não.

Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?

É de tanto lembrá-los que eu não vou.

Ôôôô pai

Ôôôô mãe

Dentro de mim eles respondem

tenazes e duros

porque o zelo do espírito é sem meiguices:

Ôôôôi fia.

 

 

 

 

A POESIA

Recita “Eu tive um cão”, depois “Morrer dormir”, ele dizia.

Eu recitava toda poderosa.

‘Eh trem!’, ele falava, guturando a risada, os olhos

amiudados de emoção, e começava a dele:

“Estrela, tu estrela, quando tarde, tarde, bem tarde,

brilhaste e volveste o teu olhar para o passado,

recordas-te e dirás com saudade: sim, fui mesmo ingrato.

Mas tu lembrarás que a primavera passa e depois volta

e a mocidade passa e não volta mais”.

A última palavra, sufocada. O que estava embaçado

eram seus óculos. Ó meu pai, o que me davas então?

Comida que mata a fome e mais outras fomes traz?

Eu hoje faço versos de ingrato ritmo.

Se os ouvisses por certo me dirias com estranheza e amor:

‘Isso, Delão, isso!’ O bastante para eu começar recompensada:

Agora as boas, pai, agora as boas:

“Eu tive um cão”, “Estrela, tu estrela”.

“Morrer dormir, jamais termina a vida”,

jamais, jamais, jamais.

 

 

 

 

O MODO POÉTICO

Quando se passam alguns dias

e o vento balança as placas numeradas

na cabeceira das covas e bate

um calor amarelo sobre inscrições e lápides,

e quando se olha os retratos e se consegue

dizer com límpida voz:

ele gostava deste terno branco

e quando se entra na fila das viúvas,

batendo papo e cabo de sombrinha,

é que a poeira misericordiosa recobriu coisa e dor,

deu o retoque final.

Pode-se compreender de novo

que esteve tudo certo, o tempo todo

e dizer sem soberba ou horror:

é em sexo, morte e Deus

que eu penso invariavelmente todo dia.

É na presença d’Ele que eu me dispo

e muito mais, d’Ele que não é pudico

e não se ofende com as posições no amor.

Quando tudo se recompõe,

é saltitantes que vamos

cuidar de horta e gaiola.

A mala, a cuia, o chapéu

enchem o nosso coração

como uns amados brinquedos reencontrados.

Muito maior que a morte é a vida.

Um poeta sem orgulho é um homem de dores

muito mais é de alegrias.

A seu cripto modo anuncia,

às vezes, quase inaudível

em delicado código:

‘cuidado, entre as gretas do muro

está nascendo a erva…’

Que a fonte da vida é Deus,

há infinitas maneiras de entender.

 

 

 

 

DONA DOIDA

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso

com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.

Quando se pôde abrir as janelas,

as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,

decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.

Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,

trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,

com sombrinha infantil e coxas à mostra.

Meus filhos me repudiaram envergonhados,

meu marido ficou triste até a morte,

eu fiquei doida no encalço.

Só melhoro quando chove.

 

 

 

 

TOADA

Cantiga triste, pode com ela

é quem não perdeu a alegria.

 

 

 

 

ANÍMICO

Nasceu no meu jardim um pé de mato

que dá flor amarela.

Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira

da insetaria na festa.

Tem zoada de todo jeito:

tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.

É pata, é asas, é boca, é bico, é grão de

poeira e pólen na fogueira do sol.

Parece que a arvorinha conversa.
 

 

 

 

COM LICENÇA POÉTICA

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

 

 

 

 

(Adélia Prado)

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