Deus:

Sombra e luz

Angústia e paz

Foto Fabio Ricco

.

Um dia, um homem chegou diante  de uma árvore. Viu folhas, ramos, frutos estranhos. A cada um perguntou o que eram essas árvores e esses frutos. Nenhum jardineiro o compreendeu,  nem sabia o nome da árvore, nem lhe pôde indicar o que ela poderia ser. O homem disse a si mesmo: Se não posso compreender que árvore é essa, contudo sei que, depois que deitei meu olhar sobre ela, meu coração e minha alma se tornaram  frescos e verdes. Vou então me colocar a sua sombra.

.

Por mais que se descreva ou se explique o amor,
quando nos apaixonamos envergonhamo-nos de nossas palavras.
A explicação pela língua esclarece a maioria das coisas,
Mas o amor não explicado é mais claro.
Quando a pena se apressou em escrever,
Ao chegar no tema do amor, partiu-se em duas.
Quando o discurso tocou na questão do amor,
A pena partiu-se e o papel rasgou-se.
Ao explicá-lo, a razão logo empaca, como um asno no atoleiro;
Nada senão o próprio Amor pode explicar o amor e os amantes.

.

Como podes ver o vermelho, o verde e o escarlate
A menos que primeiro vejas a luz?
Quando tua vista é ofuscada por cores,
Essas cores velam de ti a luz.
Mas quando a noite vela essa cores de ti,
Percebes que só são vistas por meio da luz.

.

Rumi

.

.

.

I

I

Dios insaciable que mi insomnio alimenta;

Deus insaciável que minha insônia alimenta;

Dios sediento que refrescas tu eterna sed en mis lágrimas,

Deus sedento que refresca a eterna sede em minhas lágrimas,

Dios vacío que golpeas mi pecho con un puño de piedra,

con un puño de humo,

Deus vazio que golpeia meu peito com um punho de pedra,

com um punho de fumo,

Dios que me deshabitas,

Deus que me desabita,

Dios desierto, peña que mi súplica baña,

Deus deserto, pena que minha súplica suplicia,

Dios que al silencio del hombre que pregunta contestas

com un silencio más grande,

Deus que ao silêncio do homem que pergunta contesta

com um silêncio maior,

Dios hueco, Dios de nada, mi Dios:

Deus oco, Deus de nada, meu Deus:

sangre, tu sangre, la sangre, me guía.

sangue, teu sangue, o sangue, me guia.

La sangre de la tierra,

O sangue da terra,

la de los animales y la del vegetal somnoliento,

o dos animais e o do vegetal viscoso,

la sangre petrificada de los minerales

o sangue petrificado dos minerais

y la del fuego que dormita en la tierra,

e o do fogo que dormita na terra,

tu sangre,

teu sangue,

la del vino frenético que canta en primavera,

o do vinho convulso que canta na primavera,

Dios esbelto y solar,

Deus elegante e solar,

Dios de ressurrección,

Deus de ressurreição,

estrella hiriente,

estrela tiritante,

insomne flauta que alza su dulce llama entre sombras caídas,

insone flauta que alça sua doce chama entre sombras caídas,

oh Dios que en las fiestas convocas a las mujeres delirantes

oh Deus que nas festas convoca as mulheres ao delírio

y haces girar sus vientres planetarios y sus nalgas salvajes,

e faz girar seus ventres planetários e suas nádegas selvagens,

los pechos inmóviles y eléctricos,

os seios imóveis e histéricos,

atravesando el universo enloquecido y desnudo

atravessando o universo enlouquecido e desnudo

y la sedienta extensión de la noche desplomada.

e a sequiosa extensão da noite desértica.

Sangre,

Sangue,

sangre que todavía te mancha con resplandores bárbaros,

sangue que todavia te macula com numens bárbaros,

la sangre derramada en la noche del sacrificio,

o sangue derramado na noite do sacrifício,

la de los inocentes y la de los impíos,

o de inocentes e o de ímpios,

la de tus enemigos y la de tus justos,

o de teus inimigos e o de teus justos,

la sangre tuya, la de tu sacrificio.

o teu sangue, de teu sacrifício.

I I

I I

Por ti asciendo, desciendo,

Por ti ascendo, descendo,

a  través de mi estirpe,

através de minha estirpe

hasta el pozo del polvo

desde o pó ao pó

donde mi semen se deshace en otros,

donde meu sêmen se desfaz em outros,

más antíguos, sin nombre,

mais antigos, sem nome,

ciegos ríos por llanos de ceniza.

cegos rios por planos de planícies.

Te he buscado, te busco,

Tenho te buscado, te busco,

en la árida vigilia, escarabajo

em árida vigília, escaravelho

de la razón giratoria:

de razão circular:

en los sueños henchidos de presagios equívocos

em sonhos repletos de presságios equivocados

y en los torrentes negros que el delirio desata:

e em conclusões sombrias que o delírio desata:

el pensamiento es una espada

o pensamento é uma espada

que ilumina y destruye

que ilumina e destrói

y luego del relámpago no hay nada

e logo após ao relâmpago não há nada

sino un correr por el sinfín

a não ser um correr infinito

y encontrarse uno mismo frente al muro.

e um encontrar-se sozinho frente ao muro.

Te he buscado, te busco,

Tenho te buscado, te busco,

en la cólera pura de los desesperados,

na cólera pura dos desesperados,

allí donde los hombres se juntan para morir sin ti,

ali onde os homens se reúnem para morrer sem ti,

entre una maldición y una flor degollada.

entre uma maldição e uma flor decepada.

No, no estabas en ese rostro roto en mil rostros iguales.

Não, não estavas nesse rosto corrompido em mil rostos iguais,

e he buscado, te busco,

e tenho buscado, te busco,

entre los restos de la noche en ruinas,

entre os restos da noite em ruínas,

en los despojos de la luz que deserta,

nos despojos da luz que deserta,

en el niño mendigo que sueña en el asfalto con arena e olas,

no menino de rua que sonha no asfalto com areia e ondas,

junto a perros nocturnos,

junto aos cães da noite,

rostros de niebla y cuchillada

silhuetas de neblina e lâmina

y desiertas pisadas de tacones sonámbulos.

e ecos noturnos de passos sonâmbulos.

En mí te busco: ¿eres

Em mim te procuro: serás

mi rostro en el momento de borrarse,

meu rosto no momento de dormir

mi nombre que, al decirlo, se dispersa,

meu nome que, ao dizê-lo, se dispersa,

eres mi desvanecimiento?

és meu adormecimento?

I I I

I I I

Viva palabra obscura,

Viva palavra obscura,

palabra del principio,

palavra do principio,

principio sin palabra,

princípio sem palavra,

piedra y piedra, sequía,

pedra e pedra, seca,

verdor súbito,

verdor súbito,

fuego que no se acaba,

fogo que não se acaba,

agua que brilla en una cueva:

água que brilha num poço:

no existes, pero vives,

não existes, mas és,

en nuestra angustia habitas,

em nossa angústia vives,

en el fondo vacío del instante

no fundo vazio do instante

— oh aburrimiento —,

— oh chatice—,

en el trabajo y el sudor, su fruto,

no trabalho e no suor, seu fruto,

en el sueño que engendra y el muro que prohibe.

no sonho que engendra e no limite que proíbe.

Dios vacío, Dios sordo, Dios mío,

Deus vazio, Deus surdo, Deus meu,

lágrima nuestra, blasfemia,

lágrima nossa, blasfêmia,

palabra y silencio del hombre,

palavra e silêncio do homem,

signo del llanto, cifra de sangre,

signo de pranto, cifra de sangue,

forma terrible de la nada,

forma terrível de nada,

araña del miedo,

aranha do medo,

reverso del tiempo,

reverso do tempo,

gracia del mundo, secreto indecible,

graça do mundo, segredo impronunciável,

muestra tu faz que aniquila,

mostra tua face que aniquila,

que al polvo voy, al fuego impuro.

que vou ao pó, ao fogo impuro.

.

.

.

(Octavio Paz)

.


©Photo. R.M.N. / R.-G. OjŽda


.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s