Conto de chão e céu pela diversidade e polêmica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu e a minha máquina de tirar fotografias temos andado juntas por aí os últimos meses, e nada como uma convivência estreita e objetivos em comum para frutificarem as mais belas amizades. Foi o que aconteceu conosco. De minha parte atesto o quanto a minha mais recente amiga me tem sido uma companheira fiel: aonde eu vou, ela vai, ao trabalho, em viagens, a passeio, aonde eu for, nós vamos juntas. De uma dedicação tão incrível, tem sido a minha amiga, que acabou de me conquistar por completo nas caminhadas que antes costumava fazer sozinha, e confesso que nem sabia assim o quanto elas me eram tão penosamente solitárias. Agora, com a sua companhia, tudo se me tornou mais alegre. O verão acabou, mas nós não acabamos, entramos no outono e, firmes, com a mesma disposição saímos do outono e iniciamos o inverno. Entretanto, ela é tímida, vai sempre muito quieta e escondida dentro da minha bolsa, ao mesmo tempo, sempre generosa, jamais se negou a me emprestar sua visão de mundo, quando solicitada.

 

 

Como toda grande amizade, temos descoberto o contentamento de existir no mesmo tempo e espaço, dividindo o tanto que temos em comum, vida afora… Começa que eu sou muito míope, e ela, considerando ser uma câmara digital, criada especificamente para essa função de captar formas e cores no espectro visível de luz, bem, sejamos realistas, ela não tem lá a metade das qualificações comuns aos seres de sua espécie e geração. E nem devo compará-la demais com suas primas orientais, para que ela não se sinta, assim, criatura um tanto quanto desqualificada.

No entanto, objetivamente, como enxergamos não nos importa, o que importa é que enxergamos. Isso nos parece óbvio, tanto quanto doce é a água da foz do Amazonas que deságua no Atlântico salgado. E acontece que temos essa mesma orientação no olhar, miramos na mesma direção e com um amor irmanado pela captura do melhor instante. Some-se a isso, ou, isso, seria o suficiente já e mais forte a nós do que qualquer estética tirana nos vindo de fora. 

A verdade é que o “melhor” de uma sociedade de consumo enlouquecida pela objetivação não é parâmetro para os nossos “bom” e “belo”. Não comungamos em geral  desses valores fúteis que a indústria cultural costuma exaltar, divulgados sobejamente pelas mídias, não pautamos as nossas escolhas por essas cartilhas. Justamente é para longe de um olhar regrado do exterior que escolhemos dirigir o nosso olhar míope e não cego…

Por isso, sabemos, dentre esse cenário rolo compressor de individualidades e processador de individualismos, quem possui a própria alma parecem ser sempre sujeitos solitários, os tais carinhas mais esquisitos da festa e incompreendidos da escola. Mas isso só do ponto de vista da cultura de massa, sendo ela própria o maior demônio interessado em comprimir essas almas, ou melhor, pronto a devorá-las na primeira oportunidade que tiver. É que o sistema sabe que só possuindo a própria alma existe prazer, e é por isso que almas têm tanto valor nesse mercado, que valoriza ao prazer como a um dos bens de consumo mais caros. 

Nós não venderemos a nossa alma, mesmo sabendo ser difícil permanecermo-nos unidade frente a uma legião, seremos solitárias e incompreendidas, se for o caso, mas não sucumbiremos, nem que ninguém mais nos compreenda, permaneceremos acreditando com força sobre-humana na tradição, mas, jamais, em pessoas convencionais…

É isso, somos pessoas, e porque somos pessoas, somos pessoais, e porque somos pessoais, formamos uma unidade, fazemos alma, somos reais, e porque somos assim, inteiros, comportamos contradições. E porque estamos inteiramente vivos, suportamos as nossas contradições. E isso é tudo.

Não acreditamos em pessoas de cabeça já feita e olhares viciados, por mais descoladas aparentem ser, sabemos bem o quão coladas estão por parecer. Acreditamos antes em pessoas com olhares surpresos, semelhantes aos das crianças que guardam encantamento para o novo. Mas não confundir o olhar de uma criança encantadora com o representar ser criança de um adulto infantilizado, ou com o olhar pueril de um ignorante reticente que se deixa enganar sempre pelos mesmos motivos. Refiro-me antes aos olhares daqueles que mantêm, apesar dos pesares, uma espécie de fé inabalável na vida, que é a característica inconfundível daqueles que têm contentamento por viver, que se passarem por alguma sombra de temor, jamais será de covardia. Justamente, é para a alegria de viver que se dirige esse olhar. A alegria, que, quando se a tem, é sem reservas para si e para todos, isso ou já não é mais alegria spinozista a qual nos referimos… Aos que sabem que esse olhar inocente dos revezes contém muito mais de contestação do que de conformação, que comporta infinito maior espírito do que cronologia, uma pitada a mais Júpiter e outra a menos de Saturno, com estes que sabem, podemos nos entender. Podem nos compreender, por exemplo, e sem laivo de nenhum mal entendido, quando dizemos acreditar mais no artista que mora no interior de cada um do que no crítico de arte sabemos também mora no interior de todos, apenas é a nossa escolha dar prioridade ao primeiro.

Finalmente, consideramos um pecado servir menos ao daimon que mora em nosso interior e mais ao demônio oco do consumo alienado de objetos e seres.

A verdade é que, e voltando para o meu relacionamento com a minha amiga, os nossos laços vêm de outras afinidades, o nosso lastro é mais profundo que a superfície das aparências, é em nossa subjetividade que temos fundado os nossos alicerces.  O que nos permite a criação de um lugar longe do que se esperaria de nós e mais próximo ao nosso desejo, de onde escutamos palpitar o coração da terra. Você já reparou como não existe nada mais tradicional e regular, ao mesmo tempo inconvencional, puro e violento, e incontido, do que as cores e as formas distribuídas pela natureza? Com e sem metáfora é assim que escolhemos registrar o que de mais belo encontremos pelos caminhos.

O nosso belo, claro, do ponto de vista de nossa alma, híbrida, um tanto entre um olhar humano e outro de câmara, que os tais convencionais da indústria das imagens podem bem fazer caretas, avaliando o nosso olhar como o desqualificado de um míope.

E volta a questão, nem tanto por sua insolubilidade, mas, pela inevitabilidade dos círculos. Afinal, na vida, será sempre a mesma questão do ser, e do não-ser, em torno da qual devemos circular para encontrar a nós mesmos. Ou, circumambular em busca do Si-mesmo, como definiria Carl Jung, com bastante propriedade.

Agora, sartriaflanando para outras paragens não muito longe, semelhantes, mas diferentes, do ser e do nada, alongando-me por  outras filosofias, que, sem ser de botequim, vão para os lados de Deméter (atenção! não é filosofia de botequim, é de chão), poderíamos supor, então, a mãe do Forrest Gump dizendo “fazem caretas, são caretas”. Isto é, se ela pudesse dizer algo fora do seu script, sendo ela o personagem de um filme dos anos 90 e não a atriz do seriado (Noviça Rebelde) dos anos 70. Seria mesmo algo bastante sábio para alguém dizer, no sentido existencialista do ser, em que os seres só existem na ação praticada. Mais interessante ainda que seja um personagem de ficção que o diga, considerando a ironia existencial da coisa toda… Pois a natureza, em seu amplo espectro, tem por essência a ironia, em todas as grandes e pequenas facetas que tem nos aprontado. A Natureza é a mãe e é a madrasta, a natureza é só uma, a natureza selvagem, a natureza humana…

Não tem jeito não, essa briga é secular e sem solução, entre o ideário versus a prática, entre os essencialistas versus os existencialistas, entre os reacionários versus os revolucionários, entre indivíduo versus sociedade, entre o interior versus o exterior, entre o reagir objetal versus o agir dos sujeitos… Os pares de opostos são infinitos e se afirmam negando ao outro, sustentam a realidade do universo em branco e negro tal qual Atlas sustenta ao céu azul de diversos matizes. Enquanto se engalfinharem, como lobos e cordeiros, haverá sempre algum risco de a humanidade acabar em holocausto, pelas mãos nucleares de um fundamentalismo qualquer, político, cultural, religioso… Entre tensões tais extremas, apenas quando as mútuas acusações pararem é que poderá se iniciar algum entendimento, isto é, tomar consciência da outra parte. Coisa que me parece bastante fácil de ser admitida por qualquer lado, tanto quanto penoso colocar em prática por qual lado quer que seja.

Quem sabe a meta não seja bem parar a briga, determinar quem está certo e quem está errado, certamente não será estancar com as diferenças, mas, fazer nascer a compreensão positiva da realidade, de que o que forma os lados é eles provirem de uma mesma unidade, e de que atacar ao outro é dar um tiro ao próprio pé, e, no aspecto mais negativo, esforçar-se por eliminar ao outro é uma espécie de suicídio às avessas.

Essa é a relação que temos tido com a Natureza: Homem versus Natureza. Uma briga homérica, histórica, em que a parte humana tem se comportado de modo irresponsável. Como eu e minha amiga temos registrado a natureza, não consigo imaginar nenhum desfecho favorável à humanidade se ela continuar brincando de cabo-de-guerra contra Gaia. Nós, eu e a minha câmara, não conseguimos imaginar nenhuma possibilidade de avanço para a humanidade senão a inclusão de pensamentos que até hoje se consideraram excludentes, os tais dos polos opostos, pois os pensamentos que fundam a nossa civilização têm efetuado um revezamento formidável, ora um e ora outro sobem à tona, em uma sintonia realmente formidável, porém, nada engrandecedora para o conjunto de nossa história. Achamos que mais do que inventar coisas novas, será colocar junto o que antes nunca esteve, esse deverá ser o modo contemporâneo de resolver velhos problemas, ou, de recriar a nossa civilização. Isto se quisermos permanecer ainda mais um tempo por aqui, no que depender de nós, temos que pelas nossas próprias mãos nos reinventar.

Posto que até hoje muito do que construímos em civilização são analisados priorizando-se, como num filme de bang-bang, os aspectos bandido ou mocinho do herói, em detrimento da história. Torce-se então por um dos lados,  pensa-se um como “o bom” e o outro como “o mau”, pensa-se, afinal, em personagens caricatos. Um filme realmente é uma obra complexa de ser realizada e talvez essa analogia não seja de todo boa, mas, uma boa história, para valer o seu ingresso, precisa ter pelo menos dois lados bem contados… Nesse jogo de espelhos, os personagens parecem provenientes de mundos desconectados, entretanto, são do mesmo, o único que temos dividido.

Dia e noite, o que num é dia, o outro transforma em noite, e a realidade só vem com a observação da passagem dos dias… Por isso a sabedoria é tão importante e o olhar do velho deve ser sempre buscado, tanto quanto o da criança. Um toque a mais de Saturno e outro a menos de Júpiter, fará diferença para melhor na história da humanidade e um grande bem à nossa criança interior.

Bhor, o físico dinamarquês, ou teria sido Bhom, o físico estadunidense, ou quem sabe foi Pauli, o físico austríaco, citando a um desses seus colegas e numa de suas correspondências com o amigo Jung, o psicólogo suíço… Confuso? Espera só para ver o que o físico em questão disse, que lamentavelmente eu não lembro qual deles foi, sei que tem relação com Jung, pois foi num livro seu, o Sincronicidade, ou em outros quatro relacionados com as suas teorias que andei lendo no último mês – se descobrir em qual, volto aqui para contar quem… Mas, o que o tal físico da quântica disse, descreveu ao universo como a um holograma, comparando-o a um imenso aquário de peixes, ao qual, se conseguíssemos nos abstrair de estar dentro, como peixes inconscientes da água, experimentando a realidade desse modo parcial, saberíamos que o mesmo peixe longilíneo e que vemos vermelho, veloz, nadando do quadrante oeste em direção ao leste, é o mesmo que do quadrante sul nos aparece redondo, vagaroso, oscilante, parado, verde, vindo ou afastando-se de nossa direção… Ele não disse exatamente assim, com todas as palavras coloridas que usei, isso foi só o modo como eu guardei a fórmula algo complicada de Universo = {multiverso [(peixe + peixe) : (peixe – peixe)] x 0} = 1. Menos complicado ainda, o físico disse apenas que o Universo poderia ser como o holograma de um aquário de peixes refletindo a um único peixe, que parece múltiplo apenas se considerado de diversos pontos de observação. Se não foi isso, foi algo bastante semelhante a isso, algo assim milenarmente oriental, simples e não-dualista.

Em suma, por fora eu e a minha amiga aparentamos ser exatamente o que demonstramos ser, nada muito diferente de uma mulher comum com uma câmara digital comum em mãos, mas, por dentro, nos sentimos outras, sentimo-nos complexas, e, misteriosas…

Não queremos brigar, a nossa grande ambição na vida é ser, simultaneamente ao existir.

 

 

Combinamos que uma cidade tem muitas e variadas feiúras, de todos os tipos e tamanhos, têm subterrâneas, aéreas, aquáticas, grandes, finas, feiúra para todos os gostos e necessidades. Além do que uma cidade está sempre muito carente de denúncias a serem feitas, que precisam urgentemente ser feitas sob pena de colapso do tecido social não sendo denunciadas. Porque uma cidade é um lugar onde se praticam muitas injustiças, e não só muitas, como enormes, imensas injustiças… Entretanto, pensamos juntas, isso é o que o mundo tem feito em demasiado, quer dizer, o mundo está lotado de batalhões de justiceiros buscando pelos devidos culpados, e nem por isso o mundo se torna um lugar melhor, mais bonito ou mais justo de se viver, desconfiamos que é o contrário…

Por isso, insistimos, vamos registrar apenas o belo do nosso olhar míope e desqualificado, e o mais longe possível dos holofotes da mídia canalha, que o jornalismo canalha costuma iluminar… Para constar, a título de esclarecimento, entendemos por jornalismo canalha todo aquele que sob a capa protetora da informação pratica em verdade a desinformação, que locupletando-se no sangue, dor e constrangimentos alheios promove a ira ou a indiferença ao próximo.

Mas, concordamos, eu e a minha amiga, um dia, e se os nossos escrúpulos permitirem, publicaremos imagens realmente arrepiantes de indizível horror, e, sim, tomaremos o nosso lugar junto ao coro dos sádicos descontentes, e testemunharemos, com fotos comprobatórias, o descaso, a desfaçatez, o que acontece, à plena luz do dia, a seres que nada devem…

Achamos que na tão mal afamada modernidade tardia em que nos encontramos, momento histórico que segue ao iluminismo modernista, não menos mal afamado, e de passagem por uma modernidade cientificista e materialista em extertores, se Deus quiser, são esses os seres mais verdadeiramente masoflagelados, que é uma espécie de perpetrações de variados flagelos, mas, sem consentimento. O que em outras palavras equivale a dizer que são seres que não têm sequer reconhecida a condição básica de seres. Nossa denúncia pretende corrigir esse fato.  Ainda, e se não for exigir demais, gostaríamos de ver reconhecidos como seres tudo o que vive, a todos os que rastejem, voem, andem ou estejam parados, válido para homens, bichos, árvores e, em última instância, até para as pedras… Gostaríamos de ampliar o senso comum de Natureza para além do humano e mais adiante ainda, para além da vida terrena, em direção a uma cadeia operante de vida no Cosmos. Sem utopia, nós, humanos, na condição de seres presos a um ecossistema fechado, auto-sustentável, auto-regulável, presos felizes (ou infelizes) de uma bolha planetária, gostaríamos de ver assumindo-nos de vez como co-responsáveis disso tudo, perante uma rede de vida que ajudamos tecer, mas que todos os que não são cegos percebem, vai além de nós e de nosso planeta. Gostaríamos de ver então reconhecida a importância de cada elemento componente nessa ampla rede universal, da qual fazemos parte, não como deuses, nem como demônios, mas como humanos com a função de tramar nossa parte no tecido de vida existente no Universo.

Fácil falar, difícil de executar.

Mas tudo começa primeiro por esse re-conhecimento, em que nossas ações comecem a fazer eco com um modo diferente de encarar a vida. Nossa agência começa aqui mesmo em nossa casa e com os de nossa própria espécie. Com esses argumentos e essa visão da vida, qual o sentido em nos dividirmos por raças, etnias, credos, classes? Por isso gostaríamos de ver os párias sendo reconhecidos pelos brâmanes, os palestinos pelos israelenses, os israelenses pelos muçulmanos, gostaríamos de viver em um mundo em que todos os invisíveis sociais fossem vistos e transformados de homo sacer à la Agamben em homo complexus à la Morin… Não somos ingênuas, sabemos o que é um ideal irrealizável, mas, o mais próximo que conseguirmos chegar desse ideal – está bem, admitimos ser utópico, será melhor do que não acreditar em nada.

Constatamos que nessa briga pela ampliação dos direitos civis a tudo o que rasteje, voe, ande ou esteja parado, pelo menos aos homens se escrevem livros, fundam-se teorias, mudam-se governos. Já aos animais, para eles existem lares esperando, braços que são admiradores da abnegação canina, da independência felina, quando não criadouros e instituições de abrigo, existem inúmeras sociedades de defesa aos direitos dos animais. O que nós nos perguntamos é: e para as árvores? São as criaturas mais indefesas das cidades, estão caladas e imóveis perante a artimanha de seres rastejantes e andadores que se nutrem ao seu redor. Árvores são seres que dão tudo de si e recebem praticamente apenas água de chuva em troca. Você mesmo, aqui, examine-se agora, você deve ter a sua parte de culpa com as árvores e nem sabe. Não reconhece? Reconhece o quanto já se alimentou de frutos, de como é bom poder respirar o ar puro e sentir o frescor presente pelas suas proximidades, talvez a cadeira ou a mesa em que esteja agora sentado, lendo, talvez tenham vindo delas… Reconheça, você não teria como viver um dia sequer de sua vida sem consumir, direta ou indiretamente, parte da vida provinda de uma árvore. E é sua a responsabilidade também, do que a cidade tem feito com essas criaturas mágicas. Você não reconhece a magia quando a vê? Árvores são criaturas e espaços onde a magia ainda hoje pode acontecer… Eu e a minha amiga, nós achamos, que as árvores sofrem em silêncio, e que são bem poucos os que se dão conta ou zelam por esse sofrimento, que vem desde as entranhas de nossa mãe comum, Gaia.

Existem dezenas, centenas, dezenas de centenas, centenas de milhares, milhões, de sociedades espalhadas pelo mundo protegendo aos animais. Seres considerados superiores por terem um sistema nervoso central, sendo consenso estabelecido entre homens de que o próprio homem é o mais superior entre todos, com o sistema nervoso mais desenvolvido e complexo. Desses milhões de sociedades em defesa dos direitos animais, se nós incluirmos o homem como pertencete a essa categoria, o que está intrinsecamente correto, essa cifra poderá se elevar então até a casa do bilhão. Recalculando, a quantidade das sociedades organizadas pelo direito dos animais ao redor do mundo , nós chegaremos até qualquer número assim, bilhinimaginável, impossível de se pensar. E uma última interrogação nos perturba e sem nenhum rasto de solidariedade a vista, e aos vegetais?

Um vegan, desses que praticam o fundamentalismo vegetarianista, tanto quanto um petista pratica ao PT e um corintiano ao Corinthians, um vegan comum, desses que consideram assassino todo aquele que se alimente de um simples ovo de galinha ou de um copo de leite de vaca, serial killers aos que se fartam em churrascarias, desses mesmo, são completamente cegos aos que se regalam decepando cenouras e nabos em restaurantes especializados em veganialismo. Restaurantes que não se incomodam nem um pouco se o sistema alimentar que praticam dá conta de alimentar a população mundial, hoje lá pela casa dos 7 bilhões de seres, sem contar os agregados ao homem, como gatos e cachorros, periquitos e lebistes, tartarugas, cangurus, galinhas, bois, cavalos, etc., quer dizer, não se incomodam com a fome no mundo, apenas que paguem por suas refeições especializadas, o que é justo, mas que igualmente não transforma em seres inferiores a todos os que não podem, ou não devem, ou não querem, frequentar os seus restaurantes. Rúculas são deliciosas, mas são seres vivos também. O feijão, o broto de feijão, tudo está vivo, apenas são seres de uma sensibilidade diferente a da carne.

Minha amiga é muito sensível e concorda comigo, o que está por trás desses supostos gurus que se alimentam de luz, e todo mundo já ouviu falar de algum, em algum lugar remoto e bem, bem distante, essa busca pela luz é proveniente do anseio humano pela pureza. O caso é que esses gurus se passam por seres tão mais evoluídos que nós outros, até que aos vegans mais radicais, que não possuem sequer mais o karma da alimentação, vivem como deuses, de luz. Eles não dizem que vivem melhor que os outros, eles se dizem melhores do que os outros, o que faz com todos os que não vivem de luz se sintam envergonhados de suas impurezas… Será que um dia os que se deixam impressionar pela  “””bondade iluminada””” desses falsos gurus vão parar para pensar que até a luz é matéria, apenas vibrando noutra frequência?

A verdade é que tudo o que está vivo sofre, e talvez sofra porque esteja em dívida constante com o meio em que faz trocas, ao ter de matar e devorar outras criaturas (dos reinos animal, vegetal e mineral) para viver… Nossa pele mesmo, é uma colônia benigna de habitantes invisíveis, sem os quais não teríamos saúde. Vivem pelo nosso corpo bilhões de inquilinos microscópicos, num equilíbrio delicado entre quem se alimenta de quem, rompido esse equilíbrio, com alguma super população de uma espécie apenas, nós adoecemos. Nós próprios somos palcos para uma natureza selvagem – idem aquele guru devorador de luz. Do ponto de vista de que tudo é pecado, o maior seria ainda o de não viver! Por isso, devemos comer o nosso arroz integral com tranquilidade, slow food, é uma excelente escolha. Mas, sendo vegan, não aponte o seu dedo acusador aos que não fizeram suas mesmas escolhas: que mal pode haver em se torcer para o São Paulo ou em votar na Marina? Muitos não gostam de futebol e outros nem votam… As possibilidades são sempre múltiplas. A diversidade é uma grande riqueza, e é o maior trunfo da vida. Assim, é sempre a vida a grande sobrevivente, enquanto tudo o mais morre, ela vive, mudando suas formas e modos de ser…

Por isso, nós já decidimos, a minha amiga e eu, de que registraremos num futuro remoto flagrantes dessas tão maltratadas e esquecidas criaturas, que são as árvores nas grandes cidades. Faremos fotos que comprovem os nascedouros insalubres, as podas indevidas, os parasitas que se acumulam, as doenças que se instalam e não são tratadas, a sufocante fuligem, a solidão, a sede, a inanição, os estrangulamentos nas calçadas, os eletrochoques pelos fios elétricos…

Se tudo sofre, como asseverou o Buda Sidarta Gautama, devemos irmanarmo-nos no existir… Se é certo que alguns podem ser mais “culpados” do que outros, sob outra ótica são os mais inconscientes que precisam aprender. Mas achar que apenas o outro é culpado pelo que é característico de uma relação, que “ele é culpado e eu sou responsável”, é ver menos que metade da realidade, e menos que a metade da metade se encontrar um pobre diabo em quem lançar o ônus do seu desconhecimento, que se tem de si e do meio, de sua relação de responsabilidade para com o meio, da relação indissociada que tem todo ser com o seu meio, que o pobre diabo se encarrega de levar nas partes ruins da relação, talvez apenas por ter feito escolhas diferentes…

Forjar bodes expiatórios é a maior causa de sofrimento no mundo, imensamente maior do que comer ou não comer carne branca ou vermelha no prosaico fato de sermos animais onívoros, pois no que o evento bode expiatório arrasta, tem sido o estopim de todas as guerras que já tivemos e será o de todas as guerras que ainda vamos ter pelas mãos do homem. Criar um bode expiatório pode ser uma excelente solução de momento, mas, de um momento, jamais será a melhor solução no tempo. Nem é solução, é adiamento.  E soluções parciais podem resolver partes de problemas para um indivíduo, para um determinado grupo, para um núcleo familiar, mas jamais será solução para o mundo.  A própria Bíblia, em que consta o Dia da Expiação, em que se forjam os bodes expiatórios da tribo, traz também o Dia do Juízo, em que os bodes sacrificados voltam do deserto para cobrar os tributos dos pecados que levaram nas costas. Num todo a humanidade ainda nunca viu esse dia apocalíptico, mas, cada ser humano em separado, pequenos grupos, nações e famílias, tem cumprido solitariamente essa sentença de juízo e muitos sucumbem realmente nesse dia. Como viver então sem culpas? Eliminando o pecado a começar por não sacrificar mais bodes do que aqueles que conseguiremos arcar como nossos no nosso dia do juízo. Será sentarmo-nos à mesa como irmãos a única coisa que nos fará não termos mais culpas, e é o modo como pelo amor Jesus nos ensinou a resolver os nossos problemas. Não existe culpa e pecado no amor.

O próprio Jesus, o maior bode expiatório que a humanidade um dia já forjou. Um bode expiatório singular, que tinha consciência de o ser, e nem o sabendo, se negou a o representar. O que fez foi perdoar a inconsciência dos que o sacrificavam. Talvez por isso Jesus seja tão absolutamente revolucionário, pois o seu perdão à humanidade transforma o Dia do Juízo em júbilo de esperança, de uma sentença de morte para outra de vida.

 

 

Deixando o papo bíblico de lado e o seu aspecto político, ou, quem sabe, mergulhando profundamente de vez nessa questão, voltando para a minha amiga – falarei um pouco mais baixo agora, porque não quero que ela me escute. Acontece que ela tem um defeito “meio” grave, melhor dizendo, inteiramente grave. Nem sei se será um defeito, já que antes é uma característica sua e, de tão entranhada em seu íntimo, nem tenho como pedir-lhe que mude por mim. Isso, a tal característica, é ela, está nela, é a sua memória mínima…

Tenho estado pensativa esses últimos dias, me encontro em tal estado de incerteza, se isso será capaz de, um dia, de repente, romper o nosso fraterno convívio. Talvez até acabe nesse dia a nossa amizade. E não estou falando de uma memória pequena, que de vez em quando possa falhar, estou falando de uma memória realmente insuficiente, zero à esquerda.

O amor verdadeiro pode sobreviver assim a uma memória inexistente?

Ditam algumas lendas que o amor verdadeiro é eterno e incondicional, ditam outras tantas que é assim que uma mãe ama ao filho e Deus a nós, mas, nós, nós mesmos, seres de carne e de osso, mergulhados nas limitações da carne, como bem demonstramos, será que nós podemos anular a parte prática da coisa toda e amarmos assim, só em mente, em teoria, em espírito?

Não sei como vamos contornar esse problema, tenho uma vontade doida de evoluir na arte da fotografia, mas, a memória insuficiente da minha companheira me impede à evolução, é um entrave. Devo abandonar minha amiga e seguir sem ela, encontrar distante dela meu outro caminho, com outra(s) câmara(s), mais modernas, mais sofisticadas, mais especializadas e de outros tantos que tais. Ou devo alimentar a esperança de um dia encontrar algum cartão de memória compatível com minha amiga, que, eu sei, resolverá apenas em parte ao problema. São questões desse naipe que me assolam.

Estou nesse dilema, e todos sabem como os dilemas podem ser cruéis. Ou eu desisto da fotografia perfeita ou terei de, cedo ou tarde, substituir minha câmara amadora por outra profissional, que me surpreenda com qualidades técnicas que hoje para mim são inimagináveis. Mas trocar uma amiga sincera por uma profissional? A contradição é que justamente isso me manda fazer a indústria do consumo, que ordena que a fila ande, com a velocidade acelerada, objetividade nas escolhas, olhar para frente, não olhar para os lados, nem para trás… Não seria trair a ela, trair a mim e à amizade? Devo me enveredar por essas sendas do utilitarismo digital, de avanços tecnológicos vertiginosos, ou desistir de almejar maior qualidade nas minhas fotos, ficar onde já estou? Será que ao falar “minha” e não mais “nossa”, já não tomei a minha decisão?  

Não quero pensar nisso agora.

 

 

Seja lá o que futuro nos reserve, tenho aqui provas concretas de nossa amizade, são dezenas de delitos que cometemos juntas, e quase já os pressinto como pertencentes ao nosso passado, parte de nossa história…

Eu espero, mais do que você goste, eu quero que sinta o quanto as imagens falam…

E me perdoe o papo comprido e controverso, se possível, a parte bíblica e tudo, nisso que eu acho acabou se tornando o meu primeiro conto, provavelmente o único que escrevo nessa vida. Mas o mundo não perderá nada por não me esperar. Também é que nas minhas horas mais que triunfo, mais que a prosa, que o desenho e a fotografia, o que me dá prazer sem dor é a poesia. Isso de prosa dá muito trabalho!

Os versos esparsos que você conseguir encontrar são fragmentos de “Hora Absurda”, um dos mais belos poemas de Fernando Pessoa. Pode ler ao poema inteiro aqui, no MultiPessoa, que conta com o acervo de praticamente a obra completa e muito da vida desse que considero o maior poeta português de todos os tempos. Bem clichê: “vale a pena se a alma não é pequena”.

E, no começo desse nosso papo, aqueles versos em letras garrafais, fiz a gravura, mas os versos não são meus, desconheço seu(s) autor(es), eles pertenciam à capa de um livro de escola já perdido. Citei de lembrança aos versos, é que eu, ao contrário da minha amiga, tenho boa memória…

 

 

 

 

O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas…

Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso…

E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas

Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso…

 

 

Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte… 

 

 

 

 Ah, como esse hora é velha!… e todas as naus partiram!!

 

 

 

 

 

Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto… 

 

 E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros…

 

 

 E eu deliro… de repente pauso no que penso… Fito-te

E o teu silêncio é uma cegueira minha… Fito-te e sonho…

 

  Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,

O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos, 

 

 

 

O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem…

 

 

 

 

 O palácio está em ruínas… Dói ver no parque o abandono

 

 

Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce…

  

 

 

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!…

 

 

  Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!…

 

 

 

 

 

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5 comentários sobre “Conto de chão e céu pela diversidade e polêmica

  1. Ficou muito lindo o seu conto, e as fotos das árvores captada pelo olhar atento da sua “amiguinha” ficaram pura poesia, acho que sua amiga companheira de olhar é poeta como você, mais poeta da imagem.

    Interessante, que justo esse final de semana, meu olhar sobre Saratov deixou de ser tão míope, teve uma outra beleza que nunca pude ver, mas Sábado ela estava esplendorosa as minhas vistas. A gente vê com a Alma e vê conforme o tamanho dela …

    Bom, pra quem conversa com as coisas e com as plantas como eu, nem preciso dizer que tenho a mesma visão que você com relação a “vida” como um todo, sobre os minerais, vegetais e os animais, categoria onde nos encontramos, mas antes disso, tudo é vida, tudo são formas de expressão diferencidada da “vida”, e um alface é tão vivo quanto nós também, e se tudo é antes a expressão da vida, a vida se mantém da própria vida como uma continuidade dela mesma, é um ciclo completo de nascimento e morte em eterno movimento, sem cessar… e assim é a vida e vai continuar dessa maneira. O problema do homem é em sua relação com a natureza, em não respeitar esse movimento e achar que pode “domá-la”, a natureza é muito maior que homem, nós perdemos essa conexão e perdemos a harmonia da vida. Apesar de que creio que ainda o movimento maior de reformação é o movimento da própria natureza em busca de uma conexão num âmbito maior de consciência. Não é o homem um insano lutando contra a natureza, estamos num período de transição e reformulação da própria vida e existência. É Gaya quem está se transformando e amadurecendo, nós somos pretensiosos em achar que nossas ações são as responsáveis, e não percebemos que por trás de nossas ações há algo “maior” que se projeta constantemente contra nossas pequenas vontades. Por isso nossa infelicidade, porque não compreendemos e não estamos em harmonia com essa “força”.

    Nossa luta é constante contra nossa própria natureza humana em primeiro lugar. Nós idealizamos deuses e matamos o humano em nós, ou o contrário, somos céticos e humanos demais e perdemos nossa relação com as coisas do mundo, mas nós somos ambas as coisas numa terceira natureza de ser e existir… e é isso que dá poesia, significado e muita alegria e felicidade simplesmente por existir.

    Obrigada pelo conto!!

  2. Minha querida Adi, fico absolutamente contente que tenha gostado. O trabalho de escrever e de fazer essas exasperantes correções virginianas de texto, como acabei de fazer a última agora pouco – espero, rs, só vale se do outro tiver alguém com a sua sensibilidade para nos ler, e corrigir, e nos dar suas impressões… Obrigada por se dispor sempre a trocar das suas figurinhas com as minhas. :)

    Quer dizer que vc fala com árvores? hum…. Depois sou eu que sou a extrovertida… rsrs
    Compreendo perfeitamente o que disse, temos essa mesma relação com a natureza e talvez seja esse o nosso grande ponto de entendimento mútuo… mas eu não falo com a natureza, a não ser internamente, muito… rs interessante a variação, não é? O Jung acertou na mosca quando disse que o inconsciente atua com disposição contrária ao consciente, quer dizer, o introvertido tem um inconsciente extrovertido – como o seu, de se relacionar com as plantas e bichos, conversando com eles, e vice-versa, o extrovertido tem um inconsciente introvertido, tanto que eu nem sei como explicar como é essa minha relação com a natureza… o conto todo é essa tentativa…

    Vc disse uma grande coisa, que me fez pensar, não é a humanidade que está em transformação, é Gaia… ó meu deus, onde nós vamos parar?

  3. É converso sim, :) mas não que eu converse com todas as árvores e plantas, na rua não dá pra conversar, rsrs. Mas com as plantas do jardim de casa em Campinas, conversava sempre. Elogiando quando elas estavam bonitas, me desculpando com elas se estavam meio largadinhas, mas conversava principalmente quando ia aguá-las. Elas gostam disso e gostam de carinho também, então de vez em quando eu dava uma rodada no quintal só pra pegar nelas com carinho

    Lá em casa tenho poucos bichos até, por causa de nossa vida com muitas mudanças é complicado. Como dessa vez minha filha ficou, ela está cuidando deles, então temos uma gatinha linda que apareceu e acabou ficando, um porquinho da Índia que minha filha acabou comprando escondido, e temos um espelho d’água na varanda com umas 25 carpas. Converso com todos, mas o mais engraçado é o porquinho da Índia, ele fica solto numa parte do jardim que ele escolheu por se sentir seguro lá, então é um pouco arisco porque ele pensa que tem uma vida selvagem, mas se acostumou comigo porque adivinha pra quem sobrava cuidar dos bichinhos, então ele ouvia minha voz de longe e começava gritar me chamando, geralmente era pra eu por comida, mas algumas vezes o potinho estava cheio e ele queria carinho, aí eu fazia um “cafunézinho” na testinha dele e ele ficava quietinho de olhinho fechado. Aqui eu só converso com um “cactos” e um “comigo-ninguém-pode” que deixaram no apartamento.

    Apesar disso, o tempo todo eu converso muito comigo mesma. E que interessante, não tinha me atentado a isso sobre “consciente introvertido, inconsciente extrovertido”, bem interessante. Vou pensar sobre isso…

    Sobre Gaya é isso que eu sinto e entendo, mas não por isso nós sermos isentos de responsabilidades, nós fazemos parte disso e temos um “destino” a cumprir.

    Sobre o conto, você nem precisava fazer a “operação pente fino” de uma virginiana determinada à perfeição. Ficou muito bom mesmo, com muita “alma” e profundidade, fiquei até com pena da sua fiel amiga caso você necessite de uma nova amiga, digamos, mais poderosa. ;)

  4. Adi,

    Fiquei tão impressionada com a sua descrição de vida, achei muito bonito esse seu cuidar… O porquinho da índia (tem uma poesia do Bandeira, conhece? depois te mostro, ou talvez publique por aqui) esse seu me pareceu uma figurinha, um personagem, e com uma vidinha deliciosa, tendo ou sentindo-se dono do seu pedaço no paraíso… imagino que ele possa estar sentindo muito a sua falta agora, com a vidinha tão curta, só não há desespero pq ele é dono do próprio nariz, como todos os animais… as carpas me pareceram um sonho, foram inspiradas do tempo que vcs passaram na China? Tudo tão admirável… eu aqui, ao contrário, estou sem nenhum bichinho de estimação no momento, pela primeira vez na minha vida, e estou gostando tanto que talvez nunca mais queira nenhum… vou tentar me explicar, desde criança estive às voltas com gato e cachorro, e ora gostava gostava mais de um e ora de outro, o que eu sei hoje é que meio que amo cachorros, acho impossível não gostar deles, mas eu tenho alergia, então, morro de inveja de quem consegue abraçar e cheirar pelo de cachorro sem espirrar… o caso é que o último que tivemos, era um pastor alemão que herdamos qd compramos essa casa em que eu continuo morando até hoje… o Rex, ele era um jovem adulto na época, mas passaram-se 15 anos e ele envelheceu, morreu de velhice…. só que fiquei tramatizada, talvez por ele ser grande, a coisa toda aconteceu de modo mais visível, primeiro ele foi ficando cego, depois surdo, foram caindo os dentes, tinha crises de dor por ter pedras nos rins (ração), e foi ficando fedido, pq ele sempre brigou pra tomar banho, mas no final eu já nem insistia mais, pra não causar-lhe ainda mais esse desconforto… um dia ele caiu na calçada e não levantou mais, tivemos que o sacrificar, o veterinário o levou… eu não aguentaria mais ver outro cachorro morrer como ele morreu, e olha que eu nem gostava tanto dele assim…

    As coisas que vc disse me fizeram refletir em como a gente só pode colocar no mundo aquilo que é, nossas relações são reflexo de como nos relacionamos com nossos “personagens” interiores…

    Eu tinha uma tia que costumava dizer que ou se ama bichos ou se ama plantas… bióloga, nunca escondeu sua preferência pelas plantas… mas, eu não sei se é bem assim… podemos gostar de tudo, ou de nada… talvez seja isso o que ela queria dizer, que num nível profundo, uma hora vc terá de escolher entre um, porque ambos são incompatíveis e tendem a se destruir… mas, na natureza, eles vivem juntos… o que ela não suportava é verem os bichinhos destruindo suas plantas…

    O caso é que cuidar dá trabalho, e diário, e rotineiro, seja o cuidar de bicho, de planta, de gente… tem o cuidado físico, que é um, e tem o psicológico… eu sou infinitamente mais apta ao último… o primeiro eu faço um tanto sofrivelmente… e, estéticamente, ou eticamente, nem sei, eu prefiro as coisas livres… hoje eu tenho até pena de planta em vaso…. apesar de que eu não vivo sem um verdinho em casa, no último ano plantei no quintal as folhagens e arbustos que tinha em vasos… acho que elas estão melhor lá, com as raízes soltas… não sei, eu tenho as casas 3 e 4 em Aquário, embora elas estejam vazias de planetas, me orientam a esse cuidar para a autonomia dos seres… boa mesmo, eu sou para cuidar de gente, o aspecto intelectual e psicológico, principalmente… com a natureza eu tenho uma relação mais obscura, por isso eu falei aquilo de inconsciente… vc sabe….

    Mil sincronicidades, meu filho chegou hoje de manhãzinha, pra passar comigo suas férias da faculdade… me deu um livro de presente que disse ser o melhor que ele leu nos últimos 10 anos rs, sendo que ele tem 21, deve ser o melhor livro que ele já leu na vida… comentei isso com ele, ele riu… mas vc precisa saber que eu reconheço no meu filho uma alma mais velha do que a minha, se ele diz uma coisa dessas, é pq deve ser…. olha, o livro trata de magia, a história da magia na Inglaterra, de um grande mago que um dia desapareceu, depois disso magia virou lenda… depois eu conto mais… o livro, “Jonathan Strange & Mr. Norrell”, de Susanna Clarke, da mais nova geração de escritores ingleses, com toda aquela classe e qualidade de literatura que lhe são próprios…. agora eu preciso ler o livro pra falar mais… rs

    Já te disse? Vc deveria aproveitar que está na Rússia e ler Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski… o problema é que são livros perigosos… esses que tem a capacidade de mudar o nosso destino…

    Olha uma frase que fui buscar para ilustrar o quero te quero dizer: “Daqui a cinco anos você estará bem perto de ser a mesma pessoa que é hoje, exceto por duas coisas: os livros que ler e as pessoas de quem se aproximar.” Charles Jones

    Com ou sem Dostoiévski, eu acho que o teu caminho é bem bonito…

    Sobre o conto, o meu conto aqui, tem erros ainda, mas deixa pra lá, outra hora conserto, ou não… a coisa toda a se pesar é se vale, e não é questão do trabalho, o trabalho de tornar mais belo ou correto o texto sempre é válido, mas se vale mexer em algo que já deu o seu recado, que já cumpriu sua missão… a questão é que o tempo que se gastará com isso – passado – talvez esteja melhor empregado em outra coisa – presente… depois, muitas coisas que se costuma mexer no intuíto de torná-las melhor acabamos piorando – não tem aquele ditado que diz “o diabo tanto mexeu no olho do filho que acabou furando…” rs

    um última coisa, eu coloquei lá no título que era conto, mas, será? Pra ser verdadeiramente um conto teria de ser uma obra de fantasia, e é muito mais uma obra de reflexão, em que forjo uma amizade para contar coisas que estritamente eu, Juçana, pesonagem nada fictício, penso e sinto a vida. Eu não inventei nada, eu só descrevi o que já existe, mesmo que carregando algumas cores, nada foi inventado… como chamar a isso: que não é literatura, mas tampouco é filosofia… chamei de conto, mas, será?

  5. Eu nem me lembro mais quando comecei esse cuidado com as coisas externas que me cercam, já faz algum tempo eu acho, talvez quando eu comecei seriamente meu caminho espiritual. Eu nem te contei, bem porque, pode parecer coisa de doida, mas algumas vezes em algumas situações eu converso até com objetos inanimados :) . Tenho um sentimento que tudo a nossa volta é energia que se coagulou ou se cristalizou à partir de nós mesmos, de nossa energia interior, e tomo por energia pensamentos e sentimentos que são a causa de nossas ações no mundo.

    Eu tenho essa sensação de que os objetos de nossa convivência com certeza se impregnam com nossa energia, e tem dias onde nos sentimos um pouco descontroladas em termos de energia, quando as louças em que tocamos se quebram facilmente, ou batemos portas e gavetas, fazemos muito ruído, então no momento em que percebo minha alteração eu me retrato com um toque de carinho no objeto, é como dissipar aquela energia que pode se tornar um vício. Mas eu entendo esse cuidado com o ambiente como pequenos gestos que o torna mais agradável e leve, é isso que deve ficar imprimido onde moramos.

    Mas isso não quer dizer que eu seja apegada as coisa materiais, não sou, eu tenho aprendido a ter uma boa relação com as coisas, pra que tudo flua mais facilmente, sem muito impedimento.

    Sobre as carpas é um sonho antigo mesmo, acho que antes da China até, eu gosto de ter equilibrado dentro do nosso espaço de moradia os quatro elementos. O feng shui, harmonização da casa, ensina bem esse conceito e acho ainda tem o elemento madeira a mais. Bom, então tem que ter o verde, a água em movimento, o elemento fogo (lareira, fogão, forno, velas), a terra e o ar, que podemos colocar sinos dos vento.
    Porque nossa casa é um reflexo do nosso interior, uma casa em harmonia é reflexo de um interior em harmonia. Quando estamos fora de casa e cansados, envolvidos no caos e correria do trabalho, etc, queremos voltar correndo pra casa e no momento que chegamos em casa é como se reabastecer novamente, é buscar equilíbrio e harmonia interior, por isso, no meu entender, é importante esse cuidado.

    Agora cuidar do físico é um pouco mais complicado também, eu faço, mas não é das coisas que mais gosto. Mas a gente tem que fazer, por causa da saúde também, então normalmente faço caminhadas e procuro ter uma alimentação saudável, mas nada com neuras, porque eu adoro um bom vinho e adoro cozinhar. Mas o que mais tenho prazer é a leitura também.

    Coitado do Antony o porquinho, minha filha fica preocupada por causa do frio e da chuva forte, e botou o coitado na gaiola. Bem, ele já não é tão livre como antes, ela solta ele, mas ultimamente ele vive mais preso que solto.

    Eu entendo muito bem suas razões por não querer ter mais bicho, eu confesso que não queria mais nenhum. Porque a gente sofre, os bichinhos também sofrem, é complicado. A gatinha, como eu disse, apareceu do nada bem bebê procurando comida no lixo, e o porquinho veio escondido de nós. Só os peixes foi escolha mesmo.

    Achei uma graça seu filho, apesar de que, se ele for rato de livraria, mesmo aos 21, deve ter gosto apurado pra leitura. E olha só, eu estou aqui batendo papo, rsrs, mas tenho um post “quase” terminado sobre magia, no sentido que os jovens de hoje buscam na magia os “poderes” de um grande mago com o intento de causar efeitos tipo Harry Potter, rsrs. E a verdadeira magia se destina ao desenvolvimento espiritual, nada além disso, e claro, o resto vem por consequência… Mas está tão difícil terminar, nossa, nunca foi tão difícil colocar ideias numa tela do computador, lembra que te falei do post sobre Tiphareth, pois bem, tenho tantas anotações no meu caderno, mas não consigo montar, colocar em ordem pra que fique claro, e aí quando eu penso no post, ou tento montar na minha mente, me ocorre novas percepções… que acabam gerando outros posts que não consigo terminar… estou andando em círculos, :).

    Eu li um livro de Dostoiévski, depois que vc indicou esse autor, acho que foi “Crime e castigo”, eu não lembro direito. Gostei do livro, uma narrativa e descrição incomparável, vou ver esse outro título, ainda mais que é um desses livros perigosos, que nos modificam…

    Sobre seu conto, não sei ? acho que se encaixa em conto mesmo, mesmo sendo sobre suas reflexões e não sendo digamos assim, totalmente fantasia, não vejo onde mais poderia se encaixar. Mesmo contos/fantasia de autores, acho que contém uma boa pitada deles próprios.

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