Magma (O Princípio)

 

 

 

 

 

Lunático

 

Vou abrir minha janela sobre a noite.

E já bem noite, a lua,

alta a um terço do seu arco,

terá de deslizar pelo meu quarto adentro,

e passear sobre o meu rosto, adormecido e lívido,

quando eu sair a sonhar pelas estradas noturnas,

sem fim, sem marcos, nem encruzilhadas,

que levam à região dos desabrigos…

Sonharei com mares muito brancos,

de águas finas, como um ar dos cimos,

onde o meu corpo sobrenada solto,

por entre nelumbos que passam boiando…

Ouvirei a rainha do País do Suave Sonho,

cantando no alto sempre o mesmo canto,

como a sereia do sempre mais alto…

E a janela se fecha, prendendo aqui dentro

o raio suave que prendia a lua…

Para que eu soçobre no mar dos nenúfares grandes,

onde remoinham as formas inacabadas,

onde vêm morrer as almas, afogadas,

e onde os deuses se olham como num espelho.

 

 

 

 

 

Bibliocausto

 

Que a minha mão não trema

ao deitar no fogo forte e primitivo

todos os traidores

que me deram veneno.

 

Queimarei o frio

geometrizador da vida

lapidada através de lentes bem polidas

(ah, o horror daquela pedra voando,

tangida pela mão de não sei que demônio,

e a pensar, pelo espaço, que ainda tem arbítrio!…)…

 

Queimarei o detrator,

maníaco e vaidoso,

que quis deter a vida numa câmara lenta,

para a tingir depois numa câmara escura

(ah, o inferno galopando às doidas

nos cavalos sem freios

da vontade cega e sem destino!…)

 

Queimarei o louco,

ébrio de orgulho,

raivoso de fraqueza,

que destilava haxixe em frascos verdes

na paisagem alpina

(ah, o prazer com que ainda o queimaria

em cada uma das voltas pavorosas

do seu Eterno Retorno!…)…

 

E só ficará comigo

o riso rubro das chamas, alumiando o preto

das estantes vazias.

Porque eu só preciso de pés livres

de mãos dadas,

e de olhos bem abertos…

 

 

 

 

 

Integração

 
Deitado no chão, fofo de tantas chuvas,

acompanho as pontas dos cipós que oscilam,

o respirar das folhas,

o saltitar de cócegas nas patas dos gafanhotos,

e o crescer rampante da trepadeira brava,

avançando em meus braços.

 

Oh! a canção viva

do liso verde-azul dos sanhaços nos galhos,

e o pio dos gaturamos maduros,

fino e gostoso como um caldo de fruta!…

 

O céu,

limpo, azul e côncavo, na altura,

é um recanto de corpo,

pronto a se contrair, ao primeiro contato,

num único espaço de volúpia sóbria…

Inútil erguer-me: mais alta é a gameleira…

Mas meus dedos afundam no chão amolecido,

como raízes nuas…

Desce-me ao fundo do peito a terra inteira,

no cheiro molhado da poeira,

e os meus olhos sobem, tateando os verdes…

 

 

João Guimarães Rosa

in Magma

 

 

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