Os Demônios Pacificados

Foto Patrick Smith

 

O Açude

 

Não sei nem jamais

saberei o nome

(se acaso tem nome)

do bicho que dorme

no escuro do açude

sem fundo que sou.

Nascido, senão

comigo, de mim,

é um bicho, ou como

se fosse; e que dorme.

Nem sempre ele dorme.

Talvez o agasalhem,

de sono enrolado,

as mais fundas águas

que em minha alma dormem:

– as águas e o bicho,

num sono só, feito

de grávidos nadas

espessos e imóveis.

Mas nem sempre imóveis.

Um dia estremecem:

sem causa, e de súbito,

um tremor percorre,

longínquo, levíssimo,

o nervo das águas,

– essas águas fundas

que enrolam, dormidas,

o sono do bicho,

que já não é sono:

mal findo o arrepio,

começa a lavrar

o incêndio no açude.

 

(Thiago de Mello)

 

 

Anúncios

4 comentários sobre “Os Demônios Pacificados

  1. Será que significa pra vc o mesmo que pra mim? Grosso modo, sim, do contrário, nem haveria comunicação… e os humanos se correspondem – uns com os outros – dos modos mais inimagináveis possíveis, sendo as palavras apenas um dos signos mais grosseiros… Mas ocaso, fogo, água, oceano, demônios, mistério, são “imagens” que despertam em mim um complexo de afetos, que em vc provavelmente serão outros… Nessas diferenças está toda a dificuldade da comunicação e – acredito tb – a graça do amor e da amizade.

    Bjos

  2. “Mas ocaso, fogo, água, oceano, demônios, mistério, são “imagens” que despertam em mim um complexo de afetos, que em vc provavelmente serão outros… Nessas diferenças está toda a dificuldade da comunicação e – acredito tb – a graça do amor e da amizade.”

    É! nós somos várias psiques tateando, provando, cheirando, vendo e ouvindo esse mistério que é a vida, pra talvez, no final, descobrirmos que era nós mesmos a quem buscávamos… cada um é todo um mistério a ser desvendado, e acho que quando começamos a perceber isso a gente vai deixando de impor ou de cobrar que o outro seja igual, e começamos a ver a beleza na diferença.

    Mas a linguagem é muito cruel, rsrs – porque, por trás dessas diferentes psiques pululando na vida, há uma matriz – o arquétipo em si, ou potencialidade – que é comum a toda a vida, mas que quando se manifesta é toda a gritante diferença; e a linguagem é cruel por ser limitada, tudo que é “expresso/manifesto” é só metade do que de fato é, por isso é ilusão, é meia verdade, não é a coisa toda, nem pode ser; pois, a outra metade é o paradoxo, seu oposto, imanifesto, inexistência, aquilo que nunca será…. talvez, como aquela sua questão sobre a “matéria e força escura”??? quem pode saber???

    Eu não sei!! … estou naquele momento sobre questões de como é percebida e construída a realidade, ou a realidade que percebo e que brota de mim…

    … e de desconstrução também; vou dar continuidade ao post sobre tiphareth, acho que vai ficar bacana a sequência, rsrs

    bjs

  3. Nós não sabemos, nem vc, nem eu, nem o poeta Thiago de Mello.

    “Não sei nem jamais
    saberei o nome
    (se acaso tem nome)
    do bicho que dorme
    no escuro do açude
    sem fundo que sou.”

    Que bom que tem continuidade o post sobre Tiphareth, aguardarei ansiosamente, embora não faça a mínima ideia do que vc vai falar. rs
    O que me preocupa no momento (e sempre) é a relação entre as pessoas, mas claro que isso tem uma profunda conexão em como as pessoas percebem a realidade. Vou esperar seu post e desenvolver esse assunto, quem sabe… :)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s