Oração ao Tempo

 

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Dei-te os dias, as horas e os minutos

Destes anos de vida que passaram;

Nos meus versos ficaram

Imagens que são máscaras anônimas

Do teu rosto proibido;

A fome insatisfeita que senti

Era de ti,

Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,

Conto as desilusões no rol do coração,

Recordo o pesadelo dos desejos,

Olho o deserto humano desolado,

E pergunto porquê, por que razão

Nas dunas do teu peito o vento passa

Sem tropeçar na graça

Do mais leve sinal da minha mão…

 

(Miguel Torga)

 

 

 

 

 

Palavras que disseste e já não dizes,

palavras como um sol que me queimava,

olhos loucos de um vento que soprava

em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam

segredos que eram lentas madrugadas,

promessas imperfeitas, murmuradas

enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,

sem as quereres, mas só porque eram elas

que traziam a calma das estrelas

à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,

que morreram, que em ti já não existem

— que são minhas, só minhas, pois persistem

na memória que arrasto pelas ruas.

(Pedro Tamen)

 

 

 

 

 

Esclava mía, témeme. Ámame. Esclava mía!

Soy contigo el ocaso más vasto de mi cielo,

y en él despunta mi alma como una estrella fría.

Cuando de ti se alejan vuelven a mí mis pasos.

Mi propio latigazo cae sobre mi vida.

Eres lo que está dentro de mí y está lejano.

Huyendo como un coro de nieblas perseguidas.

Junto a mí, pero dónde? Lejos, lo que está lejos.

Y lo que estando lejos bajo mis pies camina.

El eco de la voz más allá del silencio.

Y lo que en mi alma crece como el musgo en las ruinas.

(Pablo Neruda)

 

 

 

 

 

A pedra bruta da guerra,

seu grão granítico, hirsuto,

foi toda sitiada por

erva-de-passarinho, musgo.

Junto da pedra que o tempo

rói, pingando como um pulso,

inroído, o metal canhão

parece eterno, absoluto.

Porém o pingar do tempo

pontual, penetra tudo;

se seu pulso não se sente,

bate sempre, e pontiagudo,

e a guerrilha vegetal

no seu infiltrar-se mudo,

conta com o tempo, suas gotas

contra o ferro inútil, viúvo.

E um dia os canhões de ferro,

sua tesão vã, dedos duros,

se renderão ante o tempo

e seu discurso, ou decurso:

ele fará, com seu pingo

inestancável e surdo,

que se abracem, se penetrem,

se possuam, ferro e musgo.

(João Cabral de Melo Neto)

 

 

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2 comentários sobre “Oração ao Tempo

  1. Adorei as poesias, mas principalmente a Bethânia cantando “Oração ao Tempo”. E por falar em tempo, eu que fiquei te devendo o post sobre Verdadeira Vontade, amanheci na segunda com uma gripe chata que me deixou sem coragem pra nada… até agora ainda sem energia.

    Peço desculpas pela minha “dívida”, que pagarei assim que estiver melhor. ;)

  2. Oi Adi! se preocupa não, eu fiquei esperando, eu continuo esperando, pq o assunto merece e a escritora promete… rs
    Sabe que aqui está frio? Acabei de tomar um chá pra esquentar, mas acho que possivelmente ai esteja mais frio…

    Cuide-se bem! Mellhoras da gripe.

    Bjão

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