Degeneração

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não há nada mais triste

do que escrever poesia

por costume de escrever poesia.

Isso, de que esse poema

é resultado.

De uma vontade deliberada

em verdadeiramente fazer poesia

e que se degenera em hábito confessional.

Estou tão triste hoje!

Não sou mais poeta.

Os deuses me abandonam.

Estou só num mundo triste, sem a graça divina.

Um mundo de matéria inanimada de espírito.

Perdi o dom da metáfora, da imagem…

Perdi o dom da visão, esse cordão que me atava a outro mundo.

Perdi a rima, essa aliás nunca tive.

Estou sem Apolo e sem Dionísio,

sem Palas e sem Ares,

sem Eros, sem Hades,

sem Afrodite…

Sofrendo como um Quiron ferido sem Prometeu.

Solitária como uma Deméter de inverno.

Estou só e sei somente sofrer.

E isso o que sinto

não acresce em nada ao poema.

Mas confesso

e ao confessar

recupero do solo estéril de pedras

minha forma humana

com meu dom de pertencimento a tudo que é falível e mortal.

Com gemas de legítima alegria

recrio intenções

de outros mundos

com quem sabe outros

(ainda mais

antigos)

deuses

mais irmãos.

 

 

(Juçana Corrêa)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s