Elegia – fragmentos

 

 

 

 

 

 

1

 

Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.

No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.
Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua.

Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebras, e a voz dos
pássaros e das águas correr, – sem que a recolhessem teus ouvidos inertes.

Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos imóveis? No teto?

Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho.
E tristemente te procurava.

Mas também isso foi inútil, como tudo mais.

 

 

2

 

Neste mês, as cigarras cantam
e os trovões caminham por cima da terra,
agarrados ao sol.
Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,
e depois a noite é mais clara,
e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.

Mas tudo é inútil,
porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,
e a tua narina imóvel
não recebe mais notícia
do mundo que circula no vento.

Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero das vespas…
– e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra,
como água que borbulha.

Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro;
a areia queima, branca e seca.
junto ao mar lampejante;
de cada fronte desce uma lágrima de calor.

Mas tudo é inútil,
porque estás encostada à terra fresca,
e os teus olhos não buscam mais lugares
nesta paisagem luminosa,
e as tuas mãos não se arredondam já
para a colheita nem para a carícia.
Neste mês, começa o ano, de novo,
e eu queria abraçar-te.
Mas tudo é inútil:
eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece.

 

 

4

 

Escuto a chuva batendo nas folhas, pingo a pingo.
Mas há um caminho de sol entre as nuvens escuras.
E as cigarras sobre as resinas continuam cantando.

Tu percorrias o céu com teus olhos nevoentos,
e calcularias o sol de amanhã,
e a sorte oculta de cada planta.

É amanhã descerias toda coberta de branco,
brilharias à luz como o sal e a cânfora,
tomarias na mão os frutos do limoeiro, tão verdes,
e entre o veludo da vinha, verias armar-se o cristal dos bagos.

E olharias o sol subindo ao céu com asas de fogo.
Tuas mãos e a terra secariam bruscamente.
Em teu rosto, como no chão,
haveria flores vermelhas abertas.

Dentro do teu coração, porém, estavam as fontes frescas,
sussurrando.
E os canteiros viam-te passar
como a nuvem mais branca do dia.

 

 

7

 

O crepúsculo é este sossego do céu
com suas nuvens paralelas
e uma última cor penetrando nas árvores
até os pássaros.

É esta curva dos pombos, rente aos telhados,
este cantar de galos e rolas, muito longe;
e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas,
ainda sem luz.

Mas não era só isto, o crepúsculo:
faltam os teus dois braços numa janela, sobre flores,
e em tuas mãos o teu rosto,
aprendendo com as nuvens a sorte das transformações.

Faltam teus olhos com ilhas, mares, viagens, povos,
tua boca, onde a passagem da vida
tinha deixado uma doçura triste,
que dispensava palavras.

Ah, falta o silêncio que estava entre nós,
e olhava a tarde, também.
Nele vivia o teu amor por mim,
obrigatório e secreto.
Igual à face da Natureza:
evidente, e sem definição.

Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.

Sentindo-o, cobria minhas lágrimas com um riso doido.
Agora, tenho medo que não visses
o que havia por detrás dele.

Aqui está meu rosto verdadeiro,
defronte do crepúsculo que não alcançaste
Abre o túmulo, e olha-me:
dize-me qual de nós morreu mais.

 

 


(Cecília Meireles)

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5 comentários sobre “Elegia – fragmentos

  1. Oi Sem,

    Muito linda essa sequência da Cecília Meireles, lembra a coniunctiu…deu pra sentir e imaginar cada sensação.

    bjs

  2. Oi Adi

    Linda mesmo! Mas é a sua sensibilidade que a faz sentir na pele e ver beleza onde outros passam indiferentes…. sei lá, alguns podem achar piegas esse tipo de poesia, divagações, pura perda de tempo, imagine… existe gosto para tudo…

    A Cecília escreveu essa Elegia em memória de sua avó, que foi quem a criou, numa relação, ao se deduzir pela poesia, de muito afeto…

    Não sei se vc percebeu, mas ela pode ser tb elegia a uma rosa, ou, ao significado de uma rosa… o efêmero, desde esse ponto de vista, torna a poesia ainda mais trágica, por isso eu escolhi a imagem que escolhi…. a rosa, que é um tema recorrente na poesia de Cecilia… e, não sei ainda se ela foi muito feliz em família, mas, existe uma poesia (eu li em um livro velho de biblioteca faz tempo e não tenho como te mostrar agora) em que ela exatamente vela a morte de uma rosa, que foi esquecida no carro pela filha… um dia, se eu reencontrar essa poesia te mostro…

    Um outro livro que eu li há muitos anos e me marcou profundamente foi o “Fernão Capelo Gaivota”, do Richard Bach, e, não sei se eu já te falei sobre isso, mas, existe uma parte nesse livro que descreve bem essa sensação, de ter um tesouro nas mãos e não ter com quem compartilhar, mas não é culpa de ninguém, é a solidão do caminho da individuação… bom, essa parte aconteceu qd o Fernão, depois aprender (ele era louco por aprender coisas novas, o que sempre lhe trouxe muitos problemas com o bando…) a mergulhar mais fundo, pairar no ar por mais tempo e voar a altitudes consideradas inadmissíveis para uma gaivota, coisas que lhe permitiam mergulhar em busca de peixe em época que os peixes de superfície rareavam, nunca mais passando fome, triste que nunca pode voltar ao bando e ensinar o que aprendeu, pq ninguém lhe dava ouvidos…

    Pois é :)
    Bjos!

  3. Olha as maravilhas da Internet, eu lembrava de uma frase da poesia de Cecília, da morte da rosa, que seria algo assim “o amor pode estar numa rosa”… e achei! é essa:

    EXERCÍCIO COM ROSA, AMOR, MÚSICA E MORTE

    Minha filha quis oferecer-me uma rosa.
    Mas esqueceu-se da rosa no carro.
    Fazia muito calor. O carro estava quente.
    Estava muito quente, o carro, para uma rosa.

    Essa rosa, além de cor e perfume, trazia amor.
    O amor às vezes pode estar numa rosa.
    o amor é breve e incerto como a vida da rosa.
    Se a rosa morresse, certamente com ela morria o amor.

    Tomei a rosa nas mãos, e estava quase, quase seca.
    Dei-lhe água, dei-lhe música: “Ouve, dizia-lhe, ouve, ó múltipla
    criatura de tantos lábios, tantos ouvidos, tantas pálpebras,
    ouve, decantada flor, o que se pode ouvir de mais belo.”

    E a rosa seca docemente mantinha seu fim de vida:
    entre água e ar passavam flautas e harpas e veludosos pianos.
    Entre água e ar passavam as horas e o meu olhar entristecido.
    O dia inteiro esteve a rosa assim, à beira da música, à beira da morte.

    Não se sabe quando morreu: talvez na meia-noite escura.
    Morreu sem desabar suas cascatas de pétalas:
    morreu sem dispersão: roxa, secreta, toda em si mesma equilibrada,
    com folhas, espinhos, pétalas, perfume, amor, música e morte.

    Cecília Meireles

  4. Que coisa, vc encontrou!!!

    Muito linda também essa poesia “Rosa”. Ah! também li Fernão Capelo Gaivota e do quanto mais ele se diferenciava mais isolado ficava. “De ter um tesouro na mão e não ter com quem dividir” – sim, é o lado estranho do processo de individuação, porque ninguém compreende o “individuado”, é tido como louco no meio da normativa social.Diz-se que o segredo está em traduzir o mundo arquetípico através da linguagem simples, paradoxa, e que todos podem entender; isso se dá através do símbolo, e da metáfora.

    Tive que deixar meu caderno de anotações lá na Rússia por causa do peso da mala que já estava extrapolando, só trouxe o notebook. Estou relendo novamente o livro do K.Grant e retomar o post. Depois que chego de viagem, não importa o local, eu demoro pra voltar no ritmo de antes,ando tão lerdinha, rsrsrs.

    Estou impressionada com as últimas estatísticas do Anoitan, vc deu uma olhada? Tem aumentado muito em relação ao que era antes, bom né!!

    bjs

  5. >>> Diz-se que o segredo está em traduzir o mundo arquetípico através da linguagem simples, paradoxa, e que todos podem entender; isso se dá através do símbolo, e da metáfora.

    Putz, que excelente dica, Adi! Vai ver que vem daí minha poesia… a poesia tem sido resposta recorrente na minha vida, tão justa, tão fácil, refúgio e portal, saara, mas oásis, todos os caminhos me apontam a desaguar nesse mar… :)

    >>> Estou impressionada com as últimas estatísticas do Anoitan, vc deu uma olhada? Tem aumentado muito em relação ao que era antes, bom né!!

    Dei, mas pra falar a verdade eu achava que era mais antes… o problema é que – já reparei – de vez em quando eu faço confusão com os números… seja como for, sou capaz de apostar, grande parte desse pessoal vem do Mayhem, a grande maioria de jovens – muito jovens – em busca de caminhada espiritual…

    Aqui os números tb têm aumentado, esse mês teve em média 100 visitas diárias, no ano passado eram 50, em 2010 foi de 30… se não estou me embrulhando em números outra vez… seja como for, o total de visitas desde a criação do Sopoesia – acabei de ver – foi de 34.641 visitantes, – o que está muito bom para um blog de poesia anônimo e não divulgado, a meu ver… aqui eu acho que é o arquivo de poesias que faz o pessoal chegar, a maioria gloogla procurando alguma coisa e depois os que gostam do formato que dou ao blog acabam ficando…

    Eu acho que uma receita de sucesso para qq blog é a persistência… se vc alimentar um blog, com carinho, qualidade, regularidade, ele vai te alimentar de volta…. rs

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