Mario & Manoel

 

 

 

.

 

 

 

De Gramática e de Linguagem

E havia uma gramática que dizia assim:

“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica

Pessoa, animal ou coisa: João, sabiá, caneta”.

Eu gosto é das coisas. As coisas, sim!

As pessoas atrapalham. Estão em toda parte.

Multiplicam-se em excesso.

As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com

ninguém.

Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre,

Ovo pode estar choco: é inquietante.)

As coisas vivem metidas com as suas coisas.

E não exigem nada.

Apenas que não as tirem do lugar onde estão.

E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa

porta.

Para quê? não importa: João vem!

E há-de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,

Amigo ou adverso… João só será definitivo

Quando esticar a canela. Morre, João.

Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,

Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.

Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso.

Sonoro. Lento. Eu sonho

Com uma linguagem composta unicamente de

adjetivos

Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.

 

Ainda mais:

Eu sonho com um poema

Cujas palavras sumarentas escorram

Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,

Um poema que te mate de amor.

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

Os rios recebem, no seu percurso, pedaços de pau,

folhas secas, pena de urubu

E demais trombolhos.

Seria como o percurso de uma palavra antes de

chegar ao poema.

As palavras, na viagem para o poema, recebem

nossas torpezas, nossas demências, nossas vaidades,

E demais escorralhas.

As palavras se sujam de nós na viagem.

Mas desembarcam no poema escorreitas: como que

filtradas.

E livres das tripas do nosso espírito.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

Um homem catava pregos no chão.

Sempre os encontrava deitados de comprido, ou de lado, ou de joelhos no chão.

Nunca de ponta.

Assim eles não furam mais – o homem pensava.

Eles não exercem mais a função de pregar.

São patrimônios inúteis da humanidade.

Ganharam o privilégio do abandono.

O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados.

Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.

Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.

Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.

Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

O tamanho da gente

O homem acha o Cosmos infinitamente grande

E o micróbio infinitamente pequeno.

E ele, naturalmente,

Julga-se do tamanho natural…

Mas, para Deus, é diferente:

Cada ser, para Ele, é um universo próprio.

E, a Seus olhos, o bacilo de Koch,

A estrela Sírius e o Prefeito de Três Vassouras

São todos infinitamente do mesmo tamanho…

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

O Susto

Isto foi há muito tempo, na infância provinciana

do autor, quando havia serões em família.

 

Juquinha estava lendo, em voz alta,

A Confederação dos Tamoios.

 

Tarararararará, tararara rarara,

Tarararararará, tarararararará.

Lá pelas tantas, Gabriela deu o estrilo:

– Mas não tem rima!

 

Sensação. Ninguém parava de não acreditar.

Juquinha, desamparado, lê às pressas os finais dos

últimos versos… quérulo… branco… tuba… inane…

vaga… infinitamente.

 

Meu Deus! Como poderia ser aquilo?!

 

A rima deve estar no meio – diz, sentencioso, o

major Pitaluga.

 

E todos suspiraram, agradecidos.

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

Auto-Retrato Falado

Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.

Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.

Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,

aves, pessoas humildes, árvores e rios.

Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar

entre pedras e lagartos.

Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto

meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou

abençoado a garças.

Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que

fui salvo.

Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.

Os bois me recriam.

Agora eu sou tão ocaso!

Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço

coisas inúteis.

No meu morrer tem uma dor de árvore.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

PARREDE!

Quando eu estudava no colégio, interno,

Eu fazia pecado solitário.

Um padre me pegou fazendo.

– Corrumbá, no parrrede!

Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e

decorar 50 linhas de um livro.

O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima

de Vieira.

– Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.

O que eu lera por antes naquele colégio eram romances

de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.

Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei

embevecido.

E li o Sermão inteiro.

Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!

E fiz de montão.

– Corumbá, no parrrede!

Era a glória.

Eu ia fascinado pra parede.

Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.

Decorei e li o livro alcandorado.

Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.

Gostar quase até do cheiro das letras.

Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.

Ficar no parrrede era uma glória.

Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.

A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio

das paredes.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

Do ferro de engomar, que se assoprava por trás,

saíam faíscas como do traseiro do Diabo. As faces de

Marianinha ficavam cada vez mais afogueadas, mais

lustrosas e lindas, como as maçãs artificiais que havia

no centro-de-mesa da sala de jantar. Não sei por que

estou evocando todos esses pormenores – eles não

levam a nenhum enredo notório, desculpem… Eu me

aproximo como um gato, por trás.

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

Aula inaugural de uma pequena escola do

interior. Os alunos, endomingados como requeria a

ocasião. O professor, grave, de preto, voz cava. Pelo

que bem se vê que a aula era de Português. E eis que

no final, tão ansiado pela gente miúda como pela

gente grande, ele tossiu, mudou de tom e disse:

 

– Atenção, meninos! para gravarem melhor a

matéria exposta, copiem o esquema que vou traçar no

quadro-negro.

 

Perpassa, pela classe um frio de pânico.

Esquema?! Meu Deus, que diabo disto seria aquilo?

 

Mas o professor, que, além de autodidata, era

também humano, farejou a angústia daquelas

alminhas e esclareceu então, com um esgar bondoso:

 

– uma sinopse, meus filhos, apenas uma

sinopse…

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

XIII

As coisas não querem mais ser vistas por

pessoas razoáveis:

Elas desejam ser olhadas de azul –

Que nem uma criança que você olha de ave.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

13

Lugar em que há decadência.

Em que as casas começam a morrer e são habitadas por

morcegos.

Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas

a dentro.

Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a

dentro.

Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.

Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.

Onde os homens terão a força da indigência.

E as ruínas darão frutos.

 

 

(Manoel de Barros)

 

 

 

7

E, pelo que me toca, a verdade é que nunca pude

esquecer estas palavras de um personagem de Balzac:

«O deserto é Deus sem os homens».

 

 

(Mario Quintana)

 

 

 

O aventureiro

Sempre que o homem conquista a certeza de

alguma coisa: redondeza da terra, heliocentrismo,

etc., ele acaba por se chatear soberanamente e,

passando por cima das esfinges mortas, parte em busca

de novos enigmas, de novas dúvidas, ante a indiferença

das pedras, das velhas comadres e das estrelas.

 

 

(Mario Quintana)

 

 

9

Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a

lesma deixa risquinhos líquidos…

A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as

palavras

Neste coito com letras!

Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se

Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma

escorre…

Ela fode a pedra.

Ela precisa desse deserto para viver.

 

 

(Manoel de Barros)

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