Sem morder o lápis

 

 

O que aprendi com o Manoel de Barros

Um verdadeiro poeta não faz poesia; arranja as letras
com o lápis afiado num bloquinho de notas qualquer.

Mas nem arranja de compor e sim de brincar; de dar
outro sentido para as palavras de brincadeiras.

Como fazer do papel um barco e nele soltar um rio azul; mas tão caudaloso
de azul que meninos podem nele vir mergulhar e nadar com os peixes.

(confesso que no meu caso o caudaloso era tão azul que vermelho com certo
quê de inóspito; improvável de que alguém viesse por ele um dia se navegar)

Mais adiante o vermelho esverdece num regato sereno; onde
os meninos podem vadiar junto de tartarugas e formigas.

(no meu caso esse verde era de um sereno tão minguado que raso
que cinza; impossível de que alguém conseguisse nele mergulhar)

O poeta navega mesmo o inavegável; por entre
o minguado e o inóspito mergulha no impossível.

Porque só o improvável sustenta a poesia e dá gosto
ao poeta. (antes, eu mordia os lápis; hoje mordo palavras)
 

 

(Juçana Corrêa)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas palavras do mestre:

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mão disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o voo de um pássaro
botando ponto no final da frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho, você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os
vazios com as suas

peraltagens,

e algumas pessoas
vão te amar por seus

despropósitos.

 

 

(Manoel de Barros)

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