Visão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O poema

A tinta e a lápis
escrevem-se todos
os versos do mundo.

Que monstros existem
nadando no poço
negro e fecundo?

Que outros deslizam
largando o carvão
de seus ossos?

Como o ser vivo
que é um verso,
um organismo

com sangue e sopro,
pode brotar
de germes mortos?

 

 

 

(João Cabral de Melo Neto)

 

 

 

 

Nos recôncavos da vida
jaz a morte.
Germinando
no silêncio.
Floresce
como um girassol no escuro.
De repente vai se abrir.
No meio da vida, a morte
jaz profundamente viva.

 

 

 

(Thiago de Mello)

 

 

 

 

 

 

Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

 

 

 

 

(Nuno Júdice)

 

 

 

 
Amo em ti o medo
de morrer, folha
que vai caindo
no meu olhar, entre a luz
e o pó
o pó e a cal
da minha morte. Nua
e acolhida
à sombra da árvore que passa.

 

 

 

(Casimiro de Brito)

 

 

 

 

O Poema

O papel nem sempre
é branco como
a primeira manhã.

É muitas vezes
o pardo e pobre
papel de embrulho,

é de outras vezes
de carta aérea,
leve de nuvem.

Mas é no papel,
no branco asséptico,
que o verso rebenta.

Como um ser vivo
pode brotar
de um chão mineral?

 

 

 

(João Cabral de Melo Neto)

 

 

 

 

 

Amor de verão
pipa rompeu a linha
fugiu com o vento

pétalas no chão
o vento quis colher uma flor
desmanchou na sua mão

 

 

 

(Alonso Alvarez)

 

 

 

 

O poema subjaz.
Insiste sem existir
escapa durante a captura
vive do seu morrer.

O poema lateja.
É limbo, é limo,
imperfeição enfrentada,
pecado original.

O poema viceja no oculto
engendra-se em diluição
desfaz-se ao apetecer.

O poema poreja flor e adaga
e assassina o íncubo sentido.
Existe para não ser.

 

 

(Artur da Távola)

 

 

 
Deixas a luz do pátio acesa,
a porta aberta – que esperas ainda?
Amas agora com amor dobrado
a vida, o suor misturado ao sal
da saliva, o rumor
das águas no sol das sementes,
a treva do cabelo incendiada
nas mãos outra vez adolescentes.

 

 

 

(Eugénio de Andrade)

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