Espelhos

Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pela nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

Cecília Meireles


 

Mulher ao Espelho

Hoje, que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
Já fui Margarida e Beatriz,
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira,
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.
 

 

 

(Cecília Meireles)

 

São os rios

Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heraclito o Obscuro.
Somos a água, e não o diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se olha no rio. A sua visagem
muda na água da mutável imagem,
no vidro que muda como o fogo.
Somos o vão rio determinado,
rumo ao seu mar, pela sombra cercado.
Tudo nos diz adeus, tudo nos deixa.
A memória não cunha moeda.
E contudo há algo que se queda
e contudo há algo que se queixa.
 

 

 

(Jorge Luis Borges)

 

Elogio da sombra

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.
 

 

 

(Jorge Luis Borges)

 

A arte de ser feliz

Houve um tempo em que a minha janela
se abria para um chalé. Na ponta do
chalé brilhava um grande ovo de louça
azul. Nesse ovo costumava pousar um
pombo branco. Ora, nos dias límpidos,
quando o céu ficava da mesma cor do
ovo de louça, o pombo parecia pousado
no ar. Eu era criança, achava
essa ilusão maravilhosa, e sentia-me
completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela
dava para um canal. No canal oscilava
um barco. Um barco carregado de
flores. Para onde iam aquelas flores?
Quem as comprava? Em que jarra, em que
sala, diante de quem brilhariam, na sua
breve existência? E que mãos as tinham
criado? E que pessoas iam sorrir
de alegria ao recebê-las? Eu não era
mais criança, porém minha alma ficava
completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela
se abria para um terreiro, onde uma
vasta mangueira alargava sua copa
redonda. À sombra da árvore, numa
esteira, passava quase todo o dia
sentada uma mulher, cercada de
crianças. E contava histórias.
Eu não a podia ouvir, da altura
da janela; e mesmo que a ouvisse,
não a entenderia, porque isso foi
muito longe, num idioma difícil.
Mas as crianças tinham tal expressão
no rosto, e às vezes faziam
com as mãos arabescos tão
compreensíveis, que eu participava
do auditório, imaginava os assuntos
e suas peripécias e me sentia
completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.
 

 

 

(Cecília Meireles)

 

A Lua

Há tanta solidão nesse ouro.
A lua das noites não é a lua
do primeiro Adão. Os longos séculos
da vigÍlia humana encheram-na
de antigo pranto. Olha para ela. É o teu espelho.
 

 

 

(Jorge Luis Borges)

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