Meio-dia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

XXXV

Tua mão foi voando de meus olhos ao dia.

Entrou a luz como uma roseira aberta.

Areia e céu palpitavam como uma

culminante colmeia cortada nas turquesas.

 

 

Tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,

almotolias com azeites amarelos,

corolas, mananciais e, sobretudo, amor,

amor: tua mão pura preservou as colheres.

 

 

A tarde foi. A noite deslizou sigilosa

sobre o sonho do homem sua cápsula celeste.

Um triste olor selvagem soltou a madressilva.

 

 

E tua mão voltou de seu voo voando

a fechar sua plumagem que eu julguei perdida

sobre meus olhos devorados pela sombra.

 

 

XLIV

Saberás que não te amo e que te amo

posto que de dois modos é a vida,

a palavra é uma asa do silêncio,

o fogo tem uma metade de frio.

 

 

Eu te amo para começar a amar-te,

para recomeçar o infinito

e para não deixar de amar-te nunca:

por isso não te amo todavia.

 

 

Te amo e não te amo como se tivesse

em minha mãos as chaves da fortuna

e um incerto destino destitoso.

 

 

Meu amor tem duas vidas para amar-te.

Por isso te amo quando não te amo

e por isso te amo quando te amo.

 

 

XLVI

Das estrelas que admirei, molhadas

por rios e rocios diferentes,

eu não escolhi senão a que eu amava

e desde então durmo com a noite.

 

 

Da onda, uma onda e outra onda,

verde mar, verde frio, ramo verde,

eu não escolhi senão uma só onda:

a onda indivisível de teu corpo.

 

 

Todas as gotas, todas as raízes,

todos os fios da luz vieram,

vieram-me ver tarde ou cedo.

 

 

Eu quis para mim tua cabeleira.

E de todos os dons de minha pátria

só escolhi teu coração selvagem.

 

 

XLVIII

Dois amantes ditosos fazem um só pão,

uma só gota de lua na erva,

deixam andando duas sombras que se reúnem,

deixam um só sol vazio numa cama.

 

 

De todas as verdades escolheram o dia:

não se ataram com fios senão com um aroma,

e não despedaçaram a paz nem as apalavras.

A ventura é uma torre transparente.

 

 

O ar, o vinho vão com os dois amantes,

a noite lhes oferta suas ditosas pétalas,

têm direito a todos os cravos.

 

 

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,

nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem,

têm da natureza a eternidade.

 

 

XLIX

É hoje: todo o ontem foi caindo

entre os dedos de luz e olhos de sonho,

amanhã chegará com passos verdes:

ninguém detém o rio da aurora.

 

 

Ninguém detém o rio de tuas mãos,

os olhos de teu sonho, bem-amada,

és tremor do tempo que transcorre

entre luz vertical e sol sombrio,

 

 

e o céu fecha sobre ti suas asas

levando-te e trazendo-te a meus braços

com pontual, misteriosa cortesia:

 

 

por isso canto ao dia e à lua,

ao mar, ao tempo, a todos os planetas,

e tua voz diurna e a tua pele noturna.

 

 

 

 

Pablo Neruda

in “Cem Sonetos de Amor”

Tradução de Carlos Nejar

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