Tarde

 

 

 

 

 

 

LXVII

A grande chuva do Sul cai sobre Ilha Negra

como uma só gota transparente e pesada,

o mar abre suas folhas frias e a recebe,

a terra apreende o úmido destino de uma taça.

 

 

Alma minha, dá-me em teus beijos a água

salobre destes meses, o mel do território,

a fragrância molhada por mil lábios do céu,

a paciência sagrada do mar no inverno.

 

 

Algo nos chama, todas as portas se abrem sós,

relata a água um longo rumor às janelas,

cresce o céu para baixo tocando as raízes,

 

 

e assim tece e destece sua rede celeste o dia

com tempo, sal, sussurros, crescimentos, caminhos,

uma mulher, um homem e o inverno na terra.

 

 

 

 

 

Pablo Neruda

in “Cem Sonetos de Amor”

Tradução de Carlos Nejar

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