Drummondiana

“Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vamos fugir para o sonho, que a vida anda
difícil fora do sonho;
nas ruas anda difícil andar;
o trânsito não escoa, há buracos demais,
mais carros do que gente e acidentes nos percursos
impedem a fluidez. Agora nas ruas
há pessoas fugindo (não se sabe bem do quê
ou de quem) velozes, apressadas e sem tempo,
porque descobriram, ou ouviram falar nos noticiários,
ou leram na Internet, de que a vida é urgente
mas frágil, está se acabando e há uma guerra
em curso, de alguns homens contra outros homens
e de todos contra a Natureza. Nos espaços públicos anda
mesmo difícil andar; não há mais lugar para o sonho
e talvez nunca tenha havido.
Seja como for, somente agora há a fome e a voracidade
tomando a conta das ruas e não há mais lugar para o carinho
e o amor, expulsos, considerados ultrapassados; a paciência,
aquela que poderia ainda nos abrandar,
foi ontem a céu aberto e sob a vista de todos
assassinada pela violência, e continua sendo
violentada e assassinada a cada novo minuto
de cada nova hora, de cada novo dia,
de mil modos diferentes. Vamos fugir
para o sonho, porque dentro das casas
a situação não anda diferente. Os homens
dentro de casas refrigeradas andam solitários e tristes,
as mulheres alienadas e as crianças doentes. Aliás, a infância
hoje está proibida e a adolescência foi determinada a todos
velhos, adultos ou crianças. Não há mais lugar
para os sonhos verdadeiros, nem dentro nem fora das casas, e,
temo, nem dentro das mentes há mais lugar. Somente há espaço
para as grandes e pequenas felicidades compradas;
como as flores de plástico, são anunciadas falsamente eternas;
como as flores de plástico são todas sem vida, sem perfume, sem morte;
são obrigatórias agora, as grandes e pequenas flores de plástico
espalhafatosamente coloridas nas mídias e compradas pelas redes sociais,
consumidas com álcool, drogas e dor.
Vamos fugir para os sonhos verdadeiros, os difíceis e obscuros sonhos de raiz,
pelo menos dentro de um sonho de verdade o mundo é invadido pelo mar
e varrido da indiferença; com o dia seguinte limpo de azul
para que os sobreviventes possam recomeçar nova civilização humana
do nada
outra vez.

 

 

 

(Juçana Corrêa)

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