Conto & Canto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conto de Sabiá

Havia um pássaro chamado Jamais
primo do Nunca e do Fugidio
da família dos sabiás
que, ao contrário do que o nome dizia, sabia insistir.
Só não sabia contar
números ou histórias
porque nunca frequentou a escola
ou aprendeu a ler e falar.
Sua grande lição nessa vida foi
guardar a voz
para cantar
as asas para voar
e a vida para insistir.

Acontece que Jamais
a cada nova temporada
renovava o seu canto.
E muitos eram os homens
que o escutavam, mas
bem poucos os que acreditavam
naquilo que ouviam. Aquelas melodias
puras e maravilhosas, pensavam,
só poderia ser uma ilusão
dos sentidos.
Algo assim
renovado
não poderia ser
coisa desse mundo
sempre igual e monótono.
Outros homens não encontravam
tempo para ouvir Jamais
ocupados que estavam com a lida
não tinham ouvidos para escutar
aos chamados da primavera…
Mas a maioria dos homens
não ouviu Jamais, não por falha
nos sentidos, erro de julgamento
ou por estupidez. Não ouviu
porque não conseguia suportar
ao efêmero, a beleza do canto
da vida destinada a morrer…
Preferiam tapar seus ouvidos
ou atirar no pássaro a ter
de ouvir aquela voz chamando…
Preferiam o nada sem a morte – uma vida
ascética e que confundiam
com paz e silêncio – aos chamados da vida.

Não será surpresa que se diga
que alguns dos que conseguiram suportar ao insuportável
se tornassem poetas. Parece mesmo que alguns
se tornam poetas por mimetizarem a voz dos pássaros.
Mas não culpe Jamais pelos poemas mal feitos.
Nem aos poetas. Culpe aos ouvidos humanos.
Pois, se falha há, ela está no ouvir e não na poesia.
E claro há ainda os homens que viram, ao invés de ouvir,
as parábolas exatas de um voo de Jamais. Foram os cientistas.
E os que pesquisaram e analisaram essa história,
uns foram sábios e outros filósofos.

Um único homem acreditou, era tudo isso…
Mas estava enganado. Não por maldade
nem por nada, apenas era o seu costume
se enganar, primeiro consigo e depois
com os outros, porque tinha esse mal hábito
de mentir, primeiro a si e depois aos outros.
Esse homem, que acreditava ter o dom da poesia,
da ciência e da profecia, gravou então em letras
douradas e definitivas numa epístola, a lei
mais luminosa dos seres espirituosos para
o canto de Jamais: A vida é cantar, voar e morrer.

Ser, é.

Mas nenhum
– nem
um
único –
homem foi sábio verdadeiramente o bastante
para compreender Jamais.
Seu ofício
talvez
mas nunca
e nem poderia
apreender o seu voo e canto…
Antes teria que ter asas e ossos ocos
e morrer todo ano na primavera.

 

 

 

(Juçana Corrêa)

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