Rainha Mendiga

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aqui

a poesia

é rainha

Senta-se

no trono

e diz

Venham

a mim

vos obrigo

súditas

palavras

Venham

aferir

do meu poder         domínio

Ordeno-vos

uma a uma

Doces

Belas

Em filas

para a conquista         desfile

dos poemas

que vos quero ouvir        sentir

Mas como

as palavras

são rebeldes

Crianças soltas

são travessas

Jovens revolucionárias

são livres

Andróginas sem compromisso

são agudas

Não reverenciam

a ninguém

Não adulam

soberanas

Não cumprem

ao suserano

os ritos da vassalagem

As palavras

antes brincam        brigam

Dizem

o que querem

A quem

querem

O quanto

desejam

Quando

for preciso          propício

As palavras

se acreditam

São sábias

São asas

que chegam

do ar inesperadas           adequadas

revelando

pouco a poucos

o que são

Evidências

do invisível

De mais a mais

no fundo

as palavras

sabem

A poesia

é mendiga

cigana        sem lar

 

 

 

(Juçana Corrêa)

***

 

A inspiração para esse poema estiloso nasceu daqui, de uma vontade de cometer uma contravenção, de acrescentar uma frase alienígena ao fazer a tradução a esse belíssimo original de  Octavio Paz. Claro, a frase tão a meu gosto redundante – talvez de gosto duvidoso – não entrou, mas aqui posso dizê-la, depois de O vento:  “abre / persianas       pestanas”…

Repara a forma girante do poema, como condiz ao que é dito. Coisa de Mestre…

 

 

 

Palavras em Torvelinho

 

Abro a janela

que dá

para nenhuma parte

      A janela

que se abre para dentro

O vento

levanta

instantâneas        levianas

torres rodopiantes de pó

 São

mais altas que esta casa

Cabem

nesta folha

Caem e se levantam

Antes que se diga

algo

ao dobrar a folha

se dispersam

Torvelinhos de ecos

aspirados          inspirados

por seu próprio girar

Agora

se abrem em outro lugar

Dizem

não o que dizemos

outra coisa sempre outra

a mesma coisa sempre

Palavras do poema

nunca as dizemos

O poema nos diz

 

 

 

Palabras en forma de tolvanera

 

Abro la ventana

que da

a ninguna parte

La ventana

que se abre hacia dentro

El viento

levanta

instantáneas livianas

torres de polvo giratorio

Son

más altas que esta casa

Caben

en esta hoja

Caen y se levantan

Antes que diga

algo

al doblar la hoja

se dispersan

Torbellinos de ecos

aspirados       inspirados

por su propio girar

Ahora

se abren en otro espacio

Dicen

no lo que dijimos

otra cosa siempre otra

la misma cosa siempre

Palabras del poema

no las decimos nunca

El poema nos dice

 

 

(Octavio Paz)

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