Tecido em Quadratura

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1.

Um passarinho entrou pela minha porta

Entrou e bateu no vidro da janela

Esse vidro que me disseram é feito de areia branca

Nunca entendi como algo límpido e transparente como o vidro possa vir de chão grosseiro

Esse chão bruto e batido que os nossos pés pisam e abandonam

Mas como não entendo tantas outras coisas melhor nem pensar

Enquanto se pensa o passarinho voa

 

Não gostou?

Posso dizer diferente

 

2.

A passarinhada lá fora em alvoroço canta voa e briga na manhã de primavera

Como é dura a festa pela vida!

Há urgência no ar

O tempo voa

Olha!

Um se perdeu do bando

E veio dar no meu espelho

Atraído pelo gêmeo no fundo de sua procura

Fosse Narciso se afogaria no lago

Mas é pássaro e voou janela afora

 

Não gostou?

Posso dizer diferente

 

3.

Quando vem a primavera

Aquela velha árvore toma uma lição de guerra com pássaros beligerantes

Renova os seus folhos mas não se esquece dos velhos combatentes

Aprende com os novos e sofre com seus voos rasantes

Pousos milimétricos

E assiste a verdadeiros levantes revolucionários de asas

Mas seus galhos arranhados continuam firmes e fiéis aos pássaros

Toda a árvore é um abrigo

As suas forquilhas são trincheira para os mais recalcitrantes

E os seus ramos servem de camuflagem para os mais valentes

Passarinhos-soldados que nos ninhos-armadilhas escondem perigosos ovos-artefatos

Bombas-relógio prestes a eclodir

A perpetuar o combate

A primavera vive naquela árvore!

E a vida é uma luta renhida para os pássaros!

Mas sem a árvore e os pássaros a primavera seria meramente uma ficção de calendário

E o tempo um compassar mecânico de relógio

Toda a maravilha estaria perdida!

 

Não gostou?

Posso dizer diferente

 

4.

Todos os tempos estão presos nesse vastíssimo oceano de céu

De altíssimo espaço circular

E profundíssimos abismos

Trama sobre trama

Numa tessitura fractal em rede labiríntica

Ab motu proprio perpetuum

E estamos todos perdidos nesse obscuro oceano de céu

Salta vez ou outra da água negra uma luz bailarina

Breve luminar que ofusca mas logo se perde

Mas ressurge

Nunca se morre completamente enquanto se autoprocria

Nadamos?

Sufocamos?

Mergulhamos?

Encontramos Deus?

Por entre os luminares que piscam e os vazios obscuros que dão forma a esse piscar

As possibilidades incontáveis dormitam pululam e nos observam

Dois olhos amarelos de um felino a espreita

 

Não gostou?

Faça diferente

 

 

 

(Juçana Corrêa)

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