Evidências do Invisível

Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas –
é de poesia que estão falando.

Manoel de Barros

 

Os campos cor de castanha estavam parcialmente inundados; encordoados por cadeias de lagoas cinzentas e gélidas. A configuração das lagoas tinha um significado. Elas haviam sido inscritas nos campos pela chuva. Eram magia feita pela chuva, assim como os saltos das aves negras contra o cinza eram um encantamento lançado pelo céu e o movimento dos capins castanho-acinzentados era um encantamento lançado pelo vento. Tudo tinha significado.

O céu olhou para ele. Ele sentiu a terra encolher os ombros, porque ela o carregava nas costas.

O céu falou com ele.

Era um idioma que jamais ouvira. Nem sabia ao certo se havia palavras. Talvez o céu só falasse com ele por meio da escrita negra dos aves. Ele sentia-se pequeno e desamparado, e não havia saída. Fora pego entre a terra e o céu, como se posto entre duas mãos em concha. Poderiam esmagá-lo, se quisessem.

Susanna Clarke

- Jonathan Strange & Mr. Norrell

 

E a deusa me acolheu benévola, e na sua a minha
mão direita tomou, e assim dizia e me interpelava:

Ó jovem, companheiro de aurigas imortais,
tu que assim conduzido chegas à nossa morada,
salve! Pois não foi mau destino que te mandou perlustrar
esta via (pois ela está fora da senda dos homens),
mas lei divina e justiça; é preciso que de tudo te instruas,
do âmago inabalável da verdade bem redonda,
e de opiniões de mortais, em que não há fé verdadeira.
No entanto também isto aprenderás, como as aparências
deviam validamente ser, tudo por tudo atravessando.

Parmênides de Eléia 
- Sobre a Natureza

 

Este mundo, que é o mesmo para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida.

É sabido escutar não a mim, mas a meu discurso (logos), e confessar que todas as coisas são Um.

Heráclito de Éfeso

 

 

 

Se

 

Chuva de vento

Palavras se batem contra as paredes da casa

Cortinas se abrem

Papéis e pensamentos voam

Janelas se fecham

Dois olhos se fecham

Um olho para dentro se abre

Um Universo se abre

É pelo vento que as portas se batem

Contra os batentes que os pensamentos se voltam

A casa e o céu

Se perfuma de tempo e se banha no ocaso

Se levanta do chão do não-ser

O Ser

Cumeeira de duas asas

Aliciado pelas mãos do vento

Uma asa de telha e outra de mortos voltando

Pensamentos voltando

Se de morte ou de vida condenada a voltar

Numa ou noutra órbita

Duma espiral desconhecida

Dum cosmos suposto em vista

Se existe alguma diferença entre o visto e o não visto

Entre o Ser e a casa

Não há!

Para a magia não há

Para a poesia não há

Entre o Um e o Dois

O Três e o Infinito

São dois em um

A morte e a vida

O tempo e o lugar

São de dois mundos o que se fala

Do que sempre se falou

De um único vento que carrega o pó e dá asas à formiga

Pensamentos que dão asas ao homem

Se não são os pensamentos o que dão a vida

E não é a casa o que sustenta as asas

O que treme

O que é?

Como medir o quanto de formiga ou de poesia existe num único vento?

Se mais de razão ou de acaso haverá na morte de um pensamento?

Como medir quantos pensamentos foram mortos pela razão?

Universo enredado

Pó circular

Pensamento ligeiro

Para onde vai?

Parecendo ter propósito

 

 

 

(Juçana Corrêa)

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