***dição

– São os sonhos esquecidos do mundo dos homens, explicou Yor. Depois de ter sido sonhado, um sonho não pode desparecer. Mas quando o homem que  o sonhou o esquece, para onde vai? Vem para cá, para a Mina das Imagens, para junto de nós, em Fantasia, e fica enterrado nas profundezas da terra. É ali que estão os sonhos esquecidos, em camadas muito finas dispostas umas sobre as outras. Quanto mais fundo se cava, mais espessas são essas camadas. Todo o reino de Fantasia assenta-se sobre alicerces de sonhos esquecidos.

Michael Ende –

“A História Sem Fim”

 

prefiro sonhar que as superfícies

polidas representam e prometem o infinito…

Jorge Luis Borges –

“A Biblioteca de Babel”

 

 

 

 

 

 

 

I.

Eu penso a nossa vida como as folhas mal tocadas de um velho livro de magia antiga

que durante um longo tempo esteve fora do nosso alcance

Talvez perdido

numa dessas estantes

entre as salas hexagonais de um dos corredores verticais da biblioteca de Borges

e que  tantos trocam – os corredores verticais infinitos – pelo Universo

Mas agora reencontrado – o nosso livro – finalmente

nós o podemos reabrir

e nos recontar…

E diante de nossos olhos – como num truque barato de mágica

as páginas cheias vão se apagando

e as gravuras perdendo a cor e os contornos…

E tão logo tudo no livro se apaga, começa a existir aqui, nesse mundo de entre nós dois

Mas o livro – a substância, o objeto – não se apaga

E em sua capa viva e antiquada brilha uma única palavra

O título, escrito numa tinta translúcida e quase extinta

mas em linguagem tão arcaica

em signos para nós tão estrangeiros

parecendo mais bocas do que letras, a nos sussurrar algo urgente e vital, mas incompreensível

Tremem e mudam de lugar e cor bem na nossa frente, mas não se alteram nas formas

nem se apagam – e não se alteram justamente porque não o conseguimos ler

para quebrar o encantamento, talvez por nós mesmos no passado lançado – porque a nossa vontade não pode alterar àquilo que não compreendemos

Então, é que intuímos, de que tudo o que precisamos nesse momento é reaprender a linguagem por nós esquecida

– porque uma nova história será contada em nosso livro, com ou sem a nossa compreensão, com ou sem o nosso consentimento

E na medida em que o vamos folheando – o nosso livro aberto – porque nada de mais interessante há para se fazer nessa vida

descobrimos que, mais do que um livro de histórias, o livro é uma teia imemorial de vidas –

e contêm fios de mitos por vir à luz

e fios de vidas de pessoas que se pensavam mortas, como se nunca antes tivessem vivido

– porque as coisas esquecidas são como se nunca tivessem acontecido, mas lembradas são como qualquer acontecimento novo

E muitos apontamentos nas margens –

pequenos feitiços sem mais importância – porque os seus objetos com o passar do tempo deixaram de ser importantes

e filosofias obsoletas – em que a raiz era a água ou o fogo ou o ar – sem mais significado também hoje em dia

Surgem e desaparecem

enquanto nós aqui nos redescobrindo e nos refazendo

entre o maravilhoso e o terrível de uma história nunca acabada…

As páginas quebradiças, grosseiras, amarelecidas,

por tanto que estiveram distantes da luz, ensombradas, agora abertas ganham ares de século vinte e um

– e por qual razão estiveram tanto tempo fora do nosso alcance, permanece um enigma sem resposta

Mas, agora, outra vez manuseadas, voltam a ficar lisas e brancas

E algo de muito macio e mágico – em linguagem contemporânea – vai se reescrevendo e se redesenhando

trocando velhas histórias por uma nova – cuja raiz é uma rede comunicante

Enquanto algo entre nós, em nosso mundo de aqui, vai sumindo

passando a existir dentro do livro…

– porque é que nunca conseguimos estar os dois ao mesmo tempo e lugar é outro enigma sem resposta

E links inesperados e coloridos começam a aparecer

verdadeiros labirintos conectados

E tudo ganhando formas e diferentes significados, dentro do nosso livro

enquanto o velho mundo vai se apagando…

Quando finalmente começamos a compreender o mecanismo das trocas – esse processo

de reescrever os velhos escritos –

com quais enredos se formarão novas histórias

com qual cor do céu – se haverá céu

em qual mundo – em quantos

tudo irá se descobrir no seu devido tempo e lugar

Folha por folha

nesse desdobrar lento e inexorável das obras – mas não de uma obra de ficção e sim de um acabado da natureza

– porque o nosso livro é como a nossa história: uma flor que desabrocha

 

 

 

II.

No começo nos descobrimos por tudo aquilo o que não somos – porque muito mais vastos são os continentes inexplorados

E é pelos negativos do que não vemos, nem sabemos, que dizemos: Isso!

Mas isso é o que não somos! – como se todo o resto, fossemos…

Lá pelas tantas – desbravado o meio da obra  e entrevisto da flor o miolo – somente nesse momento vamos realmente começar a nos revelar e nos entender

– mas, não exatamente o que encontramos, é o que somos,

e sim é a aparência que temos

E pelas imagens que formamos, deduzimos e dizemos:

Ah! Então é isso afinal! Foi por isso que viemos,

por isso é que existimos…

É quando começamos a nos definir pelo positivo da obra

E não importa quão bela ou terrível, absurda ou esperada, seja essa obra,

há de ser  que tiver de ser – porque tudo o que existe goza apenas em seu existir verdadeiro

Quando convencidos dizemos: É isso, somos isso,

somente isso afinal.

Mas isso é somente outra coisa

O nosso Ser florescerá só no fim

Em toda a sua glória de uma flor completa e contraditória – porque tudo o que é completo é contraditório

E por mais estranho que pareça a nossa história, completa de incompletudes, será nossa e será plena

Quando, então, fechado o livro, contada a história,

chamaremos – a nós e as coisas – pelos seus nomes verdadeiros

e apenas nesse momento desfaremos o encantamento que por tanto nos prende…

Mas, desfaremos?

Sim. Saberemos afinal quem somos e a que viemos…

Saberemos?

Não. Isso nunca!

Quanto mais próximos do fim, mais próximos do começo,

de quando acreditávamos que éramos tudo aquilo, e que nem dizíamos – porque não sabíamos como dizer…

 

 

 

III.

Eu descobri o que sou

Uma coisa frágil e pequena com liberdade para ir e vir

Com o medo alvissareiro das coisas frágeis e pequenas

de encontrar o inesperado

e esperar pelo inesperado

temendo pelo desfecho

aguardado

Sem dúvida, um ser contraditório

que se multiplica em seu esforço pela unidade

e que tira a grandeza do pequeno

e encontra a força na fraqueza

Tenho a sorte dos que se recuperam mais fácil

por se nutrirem mais fácil

e o inconveniente de que tudo o que me atinge pode me destruir

Um ser que morre e vive de seu ir e vir

contraditório, cuja única constância é a liberdade.

 

 

 

(Juçana Corrêa)

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