Relendo Rilke

O Livro de Horas, de Rainer Maria Rilke, é um livro de poemas grandioso; trata-se da busca interna de Rilke por deus… Mas, um deus assim com minúscula, de qual deus se trata? Do deus de nós todos ou de um deus da Natureza? De um deus vivo, livre de dogmas, ou de um deus do inconsciente? Acho que é tudo isso e talvez você ainda descubra algo mais…

Vale lembrar que o inconsciente, na época de Rilke, estava em voga e se construindo do modo como dele hoje temos ciência. Rilke era amigo pessoal de Nietzsche e de Lou Andreas-Salomé – a quem dedica o livro, que por sua vez foi amiga de Freud e por ele analisada, chegando até a se tornar posteriormente analista freudiana.

Esse é o post mais longo da vida do Sopoesia até hoje, e, em certo sentido, é também o que me deu mais trabalho – um trabalho feliz,  visto que não encontrei as poesias selecionadas para copiar da internet, tive que datilografá-las todas. E assim digo, não para comover alguém,  mas para entusiasmar o leitor que aqui chega, para que não desanime com a leitura, apesar da sua extensão. Leia aos poucos, se for o caso, ou faça como eu, arrume um tempo e leia tudo de uma vez – o impacto será maior. Não conhece o livro? Busque-o numa livraria ou biblioteca. Vale a pena conhecer o livro na íntegra! É uma das construções poéticas mais inspiradas que conheço. Recomendo por fim a tradução de Geir Campos.
 

 

 

 

 

 

Da Vida Monástica

 

Eu vivo a vida em crescentes anéis

que sobre as coisas se enfiam:

o último eu talvez não chegue a completar,

mas vou tentar.

 

Em torno ao Deus, em torno à torre antiga,

eu giro há milhares de anos:

e ainda não sei se sou falcão, tormenta

ou formidável canto.

 

 

 

 

Da Peregrinação

 
O ímpeto da procela não te espanta:

tu a viste em formação.

Fogem as árvores: a fuga delas

faz que apareçam alamedas cavalgantes.

E tu bem sabes de que é que elas fogem:

fogem daquilo para que tu vais

e que teus sentimentos cantam

quando chegas à janela.

 

Tranquilas são as tardes de verão.

Sobe o sangue das árvores:

tu sentes que tudo vai terminar

n’ Aquele que faz tudo.

Pensavas saber já tudo da força,

quando o fruto pegavas;

e ei-la agora enigmática de novo

e de novo és um hóspede.

 

O verão era como a tua casa

onde sabias o lugar de cada coisa.

Agora tens que voltar a teu coração

como quem volta ao chão:

vai começar a grande solidão,

ficam surdos os dias,

de teus sentidos o vento arranca

o mundo feito folhagem murcha.

Por entre seus ermos galhos se vê

o céu, que te pertence;

seja ele a terra e o cantar do crepúsculo

e o campo – acima dos quais se estende.

Seja ele humilde feito uma coisa

madura para a realidade

– para Aquele, de quem se dizem coisas,

sentir-te quando te tiver nas mãos.

 

 

 

 

Venho pedir de novo, ó Iluminado,

de novo me ouves através do vento:

pois no fundo de mim eu trago a força

de palavras jamais utilizadas.

Disperso estava eu: eu dividido

em pedaços entregues a adversários.

Ó deus, de mim se riam os que riem,

de mim bebiam todos os que bebem.

 

Em pátios meus pedaços rejuntei,

catando-os em restos e em velhos vidros;

e com meia boca invoquei a ti,

a ti – eterno e simétrico em tudo.

 

Com minhas meias mãos elevei

a ti, em minha súplica inefável

de voltar a achar olhos

com os quais pudesse eu voltar a ver-te.

 

Eu era uma casa após um incêndio,

onde só bandidos às vezes dormem

– antes que seus esfaimados destinos

os levem de roldão pelo país.

Era eu que nem uma cidade à beira-mar,

quando por ela grassa a epidemia

que tem o peso todo de um cadáver

quando se põe nas mãos de uma criança.

 

Eu era para mim mesmo um estranho

como qualquer pessoa de quem nada

eu sabia, a não ser que em outros tempos

fizera padecer minha mãe jovem

então de mim já grávida,

com o coração dela a palpitar

opresso e em dor contra meu embrião.

 

Agora eu estou de novo refeito

com os cacos todos de minha vergonha,

e anseio tão somente por um laço

a partir do qual afinal me entendam

e enfim me vejam como alguma coisa.

Quero as mãos grandes de teu coração

(que para mim se estendam e me alcancem);

eu conto comigo, meu deus, mas tu

tens o direito de abrir mão de mim.
 

 

 

***

***

 

 

 
Sou ainda o mesmo que se ajoelhava

diante de ti com a roupa de monge:

o levita profundo e prestativo

que se encheu de si mesmo e te inventou;

a voz de uma célula sossegada

em torno à qual o mundo é feito um sopro

e tu és sempre a mesma onda de sempre

a se espalhar sobre todas as coisas.

 

Outra coisa não é. Somente um mar

do qual as terras erguem-se amiúde.

Outra coisa não é mais que um silêncio

de belos anjos e de violinos,

e o que mais silencia é bem aquele

para o qual tendem todas as coisas,

pesando com os raios de sua força.

 

E então és tudo, e eu sou somente aquele

que todo se entrega e que se rebela?

Então eu não sou o que há de comum,

eu não sou tudo – quando estou chorando –

e tu não és o que se faz ouvidos?

Ouves outra coisa, perto de mim?

Existem vozes que não a minha?

Um temporal, talvez? Também sou um

e meus bosques te piscam um sinal.

 

 

 

 

Existe uma canção – miúda, enferma –

a não deixar que tu me escutes bem…

Sou temporal também; ouve o mau tempo

em mim, solitário e jamais ouvido…

Sou ainda o mesmo que te perguntava

cheio de susto muita vez: quem és?

 

A cada pôr-de-sol

eu sou ferido e fico ao desamparo,

exangue e por todos abandonado,

repudiado por todos os grupos

– e as coisas todas se erguem como claustros

dentro dos quais sou posto.

 

 

 

 

De ti preciso então, ó Iniciado?

doce vizinho em qualquer emergência,

tu, meu calado sósia em minha mágoa…

Ó deus, me fazes falta como o pão!

 

Talvez não saibas o que são as noites

para os seres humanos que não dormem:

estes são todos uns fora-da-lei,

o velho e o moço e a criança;

vão caminhando feito gente morta,

de escuras coisas sempre rodeados…

E tremem-lhes as mãos brancas

entrelaçadas com selvageria,

como cães em flagrantes de caçada.

 

O que passou está ainda por vir

e no futuro cadáveres jazem;

há uma figura de capa batendo à porta

e para os olhos e para os ouvidos

não há ainda sinal de dia a clarear:

nenhum canto de galo se ouve ainda.

 

A noite é que nem uma grande casa.

E com a angústia das mãos machucadas

se abrem portas nos muros

e então se estendem caminhos sem fim

e coisa alguma é porta de saída.

 

 

 

 

E assim, meu deus, cada noite é.

Sempre há os que estão despertos,

que vão e vão e que nunca te encontram…

Tu não lhes ouves os passos de cegos

a andar no escuro?

Por escadas em espirais baixando

não os ouve rezar?

Não os ouves cair nas lajes negras?

 

Hás de ouvi-los chorar, pois eles choram.

 

Eu busco a ti, porque eles vão passando

por minha porta: quase chego a vê-los.

A quem devo chamar, senão Àquele

que é sombrio e fechado feito a noite?

Ao único que, sem lâmpada, vela

e nada teme? Ao profundo, que tem

a luz ainda não comprometida

e de quem eu sei bem

porque com árvores sobe da terra

e porque em silêncio

como um perfume,

a meu rosto inclinado,

chega do chão?

 

 

 

 

Eterno, tu te hás mostrado a mim.

Eu te amo como a um filho querido

que um dia me deixou, quando menino,

porque de um trono o chamava o destino.

E perante esse trono

são vales todos os territórios.

Para trás fiquei, feito um ancião

que não entende mais seu primogênito

e pouco sabe das coisas modernas

para as quais sua semente quer ir.

 

Eu muitas vezes tremo por tua sina

que em tantos barcos estrangeiros vai,

e muitas vezes quero que a mim voltes,

a esta treva com que foste nutrido.

Às vezes temo que já não existas,

quando me perco muito pelo tempo.

E então eu leio em ti: o evangelista

em tudo deixa escrita a eternidade.

 

Sou o pai, mas o filho é ainda mais:

é tudo o que o pai foi e é mais aquele

a que o pai não se digna e em todos cresce,

é o futuro e o retorno,

é o regaço e o mar…

 

 

 

 

Minha prece não é blasfêmia contra ti:

quando contigo dou, em velhos livros,

eu sou parente teu de mil maneiras.

 

Eu quero dar-te amor: de um jeito ou de outro…

 

Mas se ama o próprio pai? E não se vai,

como de mim te foste, duro o semblante,

escapulindo às mãos vazias e impotentes?

Não se bota devagar sua palavra a murchar

em velhos livros raramente lidos?

Como de um divisor de águas, não se foge

do peito dele para o gozo e para a mágoa?

Não será o pai para a gente

aquele nada que já não existe?

Passados anos de estranha lembrança,

gestos antigos, roupas fora de uso,

mãos murchas e encanecidos cabelos…

E em seu tempo um herói teria sido:

hoje é uma folha que cai quando a gente cresce.

 

 

 

 

E seu cuidado para a gente é um pesadelo

e sua voz é para a gente que nem pedra…

Seus conselhos quiséramos ouvir,

mas suas palavras captamos pela metade:

o grande problema entre ele e nós

é o barulho que faz, em demasia

para nos entendermos…

Vemos tão só o movimento dos lábios

dos quais as sílabas caem perdidas.

Assim ficamos nós ainda mais longe,

embora assim de longe ainda nos ligue o amor:

só quando a morte o leva do planeta

vemos que no planeta ele viveu…

 

Assim é para nós o pai. E eu devo

chamar-te de Pai?

Seria afastar-me de ti mil vezes.

Meu filho és: hei de reconhecer-te

como se reconhece um filho muito

amado, mesmo depois de homem feito,

homem mais velho…
 

 

 

***

***

 

 

 
Tu és o herdeiro.

Herdeiros são os filhos

quando os pais morrem;

os filhos põem-se de pé e florescem.

Tu és o herdeiro.

 

 

 

Herdas o verde

de jardins que se foram e o azul

de céus desmoronados;

o orvalho de mil dias,

os muitos verões que os sóis anunciam

e primaveras sonoras, com brilho e lamentações,

como inúmeras cartas de uma mulher jovem.

Herdas outonos que como roupas de festa

descansam na lembrança dos poetas,

e invernos – todos – que assim como terras órfãs

brilham de leve junto de ti, para se acomodarem.

Herdas Veneza e Kazan e Roma…

Tuas serão Florença e a Torre de Pisa,

Troitzka Lawra e Monastir

que por sob os jardins de Kíev

faz uma rede de caminhos enlaçados.

Moscou com sinos tocará a lembranças

e o toque há de ser teu: violinos, trompas, madeiras…

Cada canção que soe mais profunda

brilhará para ti como pedra preciosa.

 

 

 

 

Por ti somente os poetas se trancam

juntando imagens ricas e ciciantes

e saem e em comparações amadurecem

e diante de ti são vidas solitárias.

E pintam os pintores seus quadros tão só

com o que tem de passageira a Natureza,

que passageira fizeste e assim de novo a farias;

e tudo se eterniza… Vê: faz tempo que a mulher

na Mona Lisa está madura como o vinho.

Nenhuma outra mulher é preciso que nasça:

as novas não trarão nenhuma mulher nova,

e as já pintadas são iguais a ti:

querem a eternidade… Dizem: Pedra,

sê eterna! Quer dizer: sê tua!

 

 

 

 

Por ti também se juntam os amantes:

são os poetas de um momento breve.

Extraem de uma boca inexpressiva

o sorriso que tu deste às mais belas

e dão prazer e estão acostumados

à dor, que é a primeira a trabalhá-lhos;

trazem também tristezas em seus risos,

saudades que adormecem e despertam

e em peito estranho põem-se a chorar;

eles conservam enigmas e morrem,

como os animais morrem – sem saber…

Mas talvez ainda venham a ter netos

nos quais sua vida verde amadureça:

por meio deles herdarás o amor

que eles às cegas e como que em sonho

hão de dar-se uns aos outros…

 

 

 

 

E assim, conquanto cada qual se esforce

além das próprias forças,

como no cárcere que o detesta e o detém,

há no mundo uma grande maravilha.

Sinto: toda vida há de ser vivida…

Quem é que a está vivendo, então? As coisas

que, como música jamais tocada,

na tarde ficam como numa harpa?

Serão os ventos a soprar das águas?

Serão os ramos a trocar acenos?

Serão as flores a tecer perfumes?

As largas aleias envelhecendo?

Serão os animais quentes a andar?

Os pássaros estranhos a esvoaçar?

Quem há de ser? Vives tu, deus, a vida?

 

 

 

 

Alguma coisa me cai da janela

(ainda que seja a mais pequenina)

e com a gravidade precipita-se,

poderosa como um vento do mar,

sobre cada fruto, redondo ou não,

e o faz cair no coração do mundo.

 

Cada coisa é mais do que vigiada

por uma qualidade afeita ao voo,

como cada flor, como cada pedra,

e como cada criancinha à noite.

Só nós, em nossa altivez, repelimos

toda e qualquer unidade, e ficamos

no vago espaço de uma liberdade

em vez de crescermos como uma árvore,

abandonando espertas sapiências.

Em vez de irmos por longes ferrovias

calados e animados alistar-nos,

ligamo-nos por numerosos modos,

e o que ficou fora de qualquer círculo

então se vê isolado e sem nome.

Precisa então aprender com as coisas

e começar de novo, qual criança:

do coração de deus pende a criança

e nunca fica muito longe dele.

Uma coisa é preciso reaprender:

cair, rolar, sob o peso da culpa

que se avaliou mal, todos os pássaros

em excesso no voo.

 

(Pois nem os anjos sequer voam mais…

Grandes aves parecem serafins

que sentam-se e meditam em redor:

sobre escombros de pássaros, pinguins

até parecem, quanto mais se enfezam.)

 

 

 

 

Deus, quisera eu ser muitos peregrinos

e ir rumo a ti em longa procissão

e ser de ti mesmo grande porção

– tu, jardim de aleias cheias de vida.

 

Quando assim vou, tal como sou, sozinho,

quem então vê? Quem me vê ir a ti?

Quem chama atrás? Quem alvoroça a quem

se curva a ti? Como se nada houvesse,

dão risada. Mas eu estou contente

de ir assim como sou: pois sendo assim

nenhum dos que riem podem me ver.
 

 

 

***

***

 

 

 
Durante o dia tu és a tradição

que passeia nos ditos de muitos:

o silêncio depois que a hora bate,

voltando pouco a pouco a silenciar.

E quanto mais o dia, com seus gestos

enfraquecidos, ruma para a noite,

tanto mais tu existes, ó deus meu:

teu reino abre-se que nem fumaça

sobre os telhados todos.

 

 

 

 

E aos poucos sua queda lhe passa à frente

e ele voa, como se asas tivesse,

atrás, e experimenta um grande alívio

ao se imaginar feito um passarinho;

toma em seus pobres braços pequeninos

a vida – marionete mal montada –

e acredita que, tendo asas bem grandes

e sendo o mundo como um longo vale,

longe sob seus pés lisos se estende…

Descrente ele vê a si como um sinal

esquecido num estranho lugar

e sobre a própria dor em verde mar.

 

 

 

 

E ei-lo peixe a revirar-se e a nadar

em fundas águas calmas e azuladas:

vê medusas em bancos de coral

e de uma sereia avista os cabelos

entre os quais a água passa como um pente.

E vem à terra e agora é um noivo às voltas

com uma morta, como ocorre às vezes,

a fim de que donzela alguma, estranha

e não casada, pise o Paraíso.

 

Seguiu-a ele e comandou-lhe os passos

e dançou-lhe em redor, e ela no meio

com os braços volteando ao redor dele.

E então ele ouviu como se existisse

alguma outra presença nesse jogo,

crédito não merecia a dança.

Aí compreendeu: tinha de rezar,

pois ali estava Aquele que aos profetas

como grande coroa se entregou.

Nós o temos: esse a quem todo dia

clamamos e acolhemos – o semeado

antes em longas eiras como em cantos.

 

 

 

 

E ei-lo a inclinar-se sobre tal fundura

que um tremor lhe faz correr pelos membros.

Mas o ancião nem se dá conta disso.

 

E o monge enfermo a se descabelar

e a se bater qual roupa contra uma árvore;

mas o ancião de pé a custo o vê.

 

Aí nas mãos toma ele o monge doente,

como se empunha a espada da Justiça,

e golpeia e golpeia, e fere os muros,

e enfim se lança ao chão, zangado e em fúria…

Mas o ancião mui vagamente o olha.

 

E o monge tira as roupas, como cascas,

e de joelhos oferece-as ao ancião.

E eis que o viu: ele vinha. Como a uma criança

suavemente indagou: – Não sabes quem eu sou?

Sabia, e indulgente pôs-se então

como um violino sob o queixo do ancião.

 

 

 

 

Nada tens a temer, deus: eles dizem

“meu” a tudo que mostra ser paciente;

não obstante, nem tua última dobra

poderiam pegar sem se queimarem.

 

Dizem “meu” como às vezes alguém fala,

entre campônios, de um príncipe amigo,

se o príncipe está longe e tem prestígio.

Dizem “meu” de qualquer lugar estranho

e nem sabem quem é que mora lá.

Dizem “meu” e conversam sobre posses

enquanto as coisas de que se aproximam

fecham-se para eles…

 

São como charlatões sem nenhum gosto

a falarem do sol e do relâmpago.

Dizem “minha vida”, “minha mulher”,

“meu filho”, “meu cachorro” – e entanto sabem

que tudo – mulher, vida, cão e filho –

são formas estranhas que eles, sem verem,

vão tocando com suas mãos tateantes.

A certeza disso é só para os grandes

que querem-se além dos olhos; os outros

nem ouvir querem que a romagem deles

a alguma coisa em derredor se liga,

ou que eles, despojados de seus bens,

com seus haveres não reconhecidos,

têm a mulher tão pouco como a flor

e que a vida é uma só e é a de todos.

 

 

 

 

Em noites fundas te cavei, tesouro!

E todos os prodígios por mim vistos

são pobres e bem pobres substitutos

de tua beleza, que jamais se viu.

 

Mas a senda que leva a ti é longa

e ninguém a trilhou nunca, sem luz.

Ah, tu estás solitário: solidão

és, coração rumando a longes várzeas…

 

E minhas mãos, que estão ensanguentadas

de cavar, eu as levanto no vento

para que ramifiquem como uma árvore;

com elas eu te alimento de espaço,

como se um dia houvesses naufragado,

num gesto sem nenhuma paciência,

e caísses, já mundo feito pó,

de longínquas estrelas sobre a terra

– doce como chuva de primavera.
 

 

 

***

***

 

 

 

Da  Pobreza e da Morte

 
Quando ele cantava, lá vinha o ontem

com o passado, de volta, num conjunto;

e um silêncio fazia-se nos ninhos

e nas irmãs só os corações gritavam

e ele as chamava como num noivado.

 

Então o pólen de suas canções

soltava-se de leve, de sua boca,

e voava em sonho para as namoradas

e tombava nas corolas abertas

e aos poucos afundava em cada flor.

 

E elas recebiam-no – o sem mácula –

em seus corpos, que eram as almas delas.

E em seus olhos cerravam-se quais rosas

e noites de amor eram seus cabelos.

 

Acolhiam-no grandes e pequenos.

E muitos animais querubins vinham

dizendo que as fêmeas iam dar crias

– e eram maravilhosas borboletas.

Pois todas as coisas o conheciam

e ele lhes concedia o serem férteis.

 

Ao morrer, lesto como um indigente,

foi repartido: seu sêmen corria

nos córregos e cantava nas flores

e em paz nas árvores ele era visto.

Ele jazia e cantava; e as irmãs,

ao virem, choraram nele o que era

o homem delas…

 

 

 

 

 

Rainer Maria Rilke in

O Livro de Horas

– tradução de Geir Campos

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