Sincropoesia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Experiências doidas sobem pelo rio

Pelo mesmo leito de pedras redondas e cegas

Esfregando-se contra as águas violentas

Entregando-se umas às outras

Em frenesi

 

Experiências sofrendo dos mesmos presságios

Correndo alucinadas contra a correnteza, juntas e paralelas,

Nadando contra os mesmos perigos

E dividindo a sina de subirem pelo mesmo diapasão,

Como que a compor a sinfonia de suas vidas: essa marca de serem alucinadas, agrestes, experiências solitárias,

E ainda assim subirem pela mesma vertente

Até a última viagem

 

Experiências sôfregas por chegar ao nascente

E quando chegam, sentem que se esgotam

Mas somente as que chegam é que podem se deixar batizar pelas águas mães dos nascedouros

– Para as que nunca chegam, a vida será sempre uma experiência árdua e inútil

E as que vão chegando, vão se deixando ficar,

Embaladas pelo toque suave das águas recém-nascidas – as mesmas contra as quais lutaram instantes atrás

E de repente parece que absorvem a lição do rio

A última prova será se deixarem descer em confiança, correnteza abaixo

E as experiências doidas vão agora lânguidas

Comandadas pelas mãos amigas das águas, como irmãs amadas e filhas queridas,

Experiências não mais rebeldes

Vencidas

Descem com a compreensão pacífica dos que conhecem os mananciais imorredouros

E escolhem seguir pelo leito mais natural

 

E o rio

Aos poucos, vai retomando seus dias serenos

 

E tudo isso:

Os erros, as águas, os dias, os parentescos, as experiências, os êxtases, as alucinações, as fosforescências

Descem pelo rio em direção ao mar

Com a vida e a morte irmanadas, correndo juntas e paralelas

E tudo indo pelo mesmo esforço das águas para o grande oceano, que a todos acolherá

Esse grande oceano de coração puro e dourado, que recolhe todas as águas do mundo e nunca transborda

Imperturbável oceano, que aceita desde a água filtrada dos rios de pedras até a mais suja do leito mais barrento e vermelho

E é nele que as experiências humanas e doidas encontram afinal seu repouso, sentindo ser ali sua casa verdadeira

 

 

 

 

E antes que afundem de vez nos abismos, se perguntam: foi por isso?

Tudo o que fizemos foi por isso: acabar no mar?

No entanto, algo, nascente acima, se mexe…

 

 

 

 

Juçana Corrêa

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