Unus Mundus

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na pressa do rio

três gotas que choviam

deixaram para trás essa conversa:

– Ser branco ou ser negro, eis cor ou não cor?

– Bola de fogo! Chuta!

– Olha o trem!!

E o ar entre as gotas, se de angústia ou de frio, tremia

Mas, atravessou-o o sol

Enquanto as gotas animadas continuavam:

– Verde!

– Amarelo-limão!

– Suas bobas!!

Tanta gritaria!

E mergulharam no rio…

A mais gorda logo se desmanchou na Grande Água

E dela nunca mais ninguém ouviu falar ou teve notícias, se virou Buda ou pedra;

O sapo comeu a segunda, que imediatamente se tornou ninfa dourada e foi pentear-se na pedra na curva do rio

E gemia uma canção de ninfa dos lagos enquanto alisava os longos e sedosos cachos ruivos;

A última gota caiu na beira do rio e com inveja resolveu tomar banho de sol para ver se ficava dourada também

Um passarinho que por acaso ali pousara, achou-a lindamente dourada e bastante apetitosa, bebeu-a inteirinha

Em seguida cantou, mas cantou tão bonito, como nunca antes mais afinado

A velha canção de três notas, sua única conhecida

E três milagres se deram ao mesmo tempo:

A flor azul – do miolo roxo – se abriu;

A formiga perdida reencontrou seu caminho;

E a estrela a milhões de anos-luz daqui e que vinha há milênios doente, finalmente, explodiu

Já aqui na terra nossa maior estrela e milagre despontava…

O sol passeava pelas sombras em revista da manhã, empertigando-as todas na medida em que por elas passava

E levantava as folhas e a saia das árvores, para ver se o verde amadurecia ou se passava do ponto

Enquanto algumas nuvens, grávidas do verão, enrubesciam…

E tudo acontecia ao mesmo tempo: o ar bom e o sol milagroso

O que trouxe um homem que buscava a manhã para perto do rio

Um homem que nada sabia daqueles milagres: das três gotas; da ninfa; da flor que se abrira; das nuvens grávidas

Não sabia, mas estava ali, naquele pequeno centro de furacão e verdor que se abrira

E aquele ar fácil, fundo, ele respirava

Súbito, um raio de sol enfeitiçado: um feitiço de sol o pegou

E o homem não sabia bem de onde vinha, aquilo que sentia:

Uma alegria repentina…

Era como se por dentro do seu corpo a vida efervescesse destampada

Sentia o quanto era bom estar ali, desperto, sob o ardor do Sol e tendo a água fresca borbulhando em sua pele

De outro súbito, achou, amava Maria – mas o que amava mesmo era uma lua que vira certa vez brilhar na gota

de orvalho presa aos cabelos negros de Maria

Achou de pedir a Deus, para que fizesse Maria amá-lo também – Deus não ouviu

Achou de seguir em frente, de que já tinha rezado o bastante e de que tudo ficaria bem – e Deus ouviu

E pensou naquele dia, naquela harmonia simples do campo, no seu mergulho perfeito, e, em Maria – Deus ouvia

E falava com a brisa morna da tarde – e atentamente Deus ouvia

E confessava aos céus, agora de rosa e de amarelo pintados se despedindo do dia: queria casar com Maria

   e com ela ter três filhos – e Deus tudo ouviu

E foi-se o homem, do campo verde para a casa branca na cidade cinza

Deixando para trás, sem saber, o ar mais emplumado de encantamentos – que os faunos, as ninfas,

        os feiticeiros e as bruxas daquele lugar aspiravam com fervor

Aquela noite ele mal jantou, sentia-se adoentado de paixão

Sua pele um pouco ardia e sentia um vazio por dentro que nada poderia preencher – pensou que talvez só Maria

Entretanto rezou e em Maria outra vez pensou, antes de dormir

Sonhou que acordava no meio da madrugada, desperto

Havia debaixo de sua cama um dragão de escamas cinza e furta-cor, de asas de madrepérola

Guardando três caixas: uma verde, uma azul e outra, que estranho!

Soltava faíscas de fogos de um furo que tinha do lado

E quando o dragão cuspia, o seu fogo

Não queimava, aquecia

Tinha vindo ali para segredar-lhe um recado confidencial e urgente…

Mas o que se ouvia não era nada confidencial, sim o canto comum de um passarinho

Um canto bonito, mas um tanto ridículo para um dragão

Entretanto fazia mil labaredas: de laranjas; de amarelos; de limas; de pratas

Labaredas não de fogo: labaredas de luz líquida

Miríades de luas brincando de se multiplicar sobre a superfície de um lago

Surgiam e desciam em cascata pela cabeleira de uma noite escura e infinita. Noite,

que era Maria…

 

 

 

Juçana Corrêa

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