Da Pedra ao Cosmos

 

 

 

PEQUENA ODE MINERAL

 

Desordem na alma

que se atropela

sob esta carne

que transparece.

 

Desordem na alma

que de ti foge,

vaga fumaça

que se dispersa,

 

informe nuvem

que de ti cresce

e cuja face

nem reconheces.

 

Tua alma foge

como cabelos,

unhas, humores,

palavras ditas

 

que não se sabe

onde se perdem

e impregnam a terra

com sua morte.

 

Tua alma escapa

como este corpo

solto no tempo

que nada impede.

 

Procura a ordem

que vês na pedra:

nada se gasta

mas permanece.

 

Essa presença

que reconheces

não se devora

tudo em que cresce.

 

Nem mesmo cresce

pois permanece

fora do tempo

que não a mede,

 

pesado sólido

que ao fluido vence,

que sempre ao fundo

das coisas desce.

 

Procura a ordem

desse silêncio

que imóvel fala:

silêncio puro,

 

de pura espécie,

voz de silêncio,

mais do que a ausência

que as vozes ferem.

 

 

 

João Cabral de Melo Neto

 

 

 

 

VIAGEM

 

O beijo da quilha

na boca da água

me vai trocando entre céu e mar,

o azul de outro azul,

enquanto

na funda transparência

sinto a vertigem

da minha própria origem

e nem sequer já sei

que olhos são os meus

e em que água

se naufraga minha alma

 

Se chorasse, agora,

o mar inteiro

me entraria pelos olhos

 

 

 

Mia Couto

 

 

 

 

A MESMA CANÇÃO

 

A sensação que tens

é de que tudo

quanto dizes já o leste

noutros livros. Mas

depois consideras: também

o sol e os pássaros

repetem todos os dias

a mesma canção.

 

 

 

Albano Martins

 

 

 

 

 

 

 

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