Cruzamentes

 

 

 

 

 

 

 

Silvestre e o Idioma

Silvestre quer saber
porque razão eu estrago o português
escrevendo palavras que nem há.

Não é a pessoa que escolhe a palavra.
É o inverso.
Isso eu podia ter respondido.

Mas não.
O tudo que disse foi:
é um crime passional, Silvestre.

É que eu amo tanto a Vida
que ela não tem
cabimento em nenhum idioma.

Silvestre sorriu.
Afinal, também ele já cometera
o idêntico crime:
todas as mulheres que amara
ele as rebatizara, vezes sem fim.

Amor se parece com a Vida:
ambos nascem na sede da palavra,
ambos morrem na palavra bebida.

(Mia Couto)

 

 

 

 

 

 

Primavera

Ah, quem nos dera que isto, como outrora,
inda nos comovesse! Ah! quem nos dera
que inda juntos pudéssemos agora
ver o desabrochar da primavera.

 

Os Perigos do Verão

Era o verão, o seu desassossego.
Era o desejo,
o desejo rompendo da sombra
sem caminho, e doía.

 

Saíamos com os pássaros e a aurora.
E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
“Beijemo-nos! amemo-nos! espera!”

 

Era o ardor, o mais diáfano
irmão da melancolia.

 

E esse corpo de rosa rescendia,
e aos meus beijos de fogo palpitava,
alquebrado de amor e de cansaço…

 

Era o amor, o espanto
do amor, desarmado
e sem abrigo.

 

A alma da terra gorjeava e ria…
Nascia a primavera… E eu te levava,
primavera de carne, pelo braço!

(Olavo Bilac)

 

Era o deserto, o deserto à porta;
e fervia.

(Eugénio de Andrade)

 

 

 

 

 

que viagem
ficar aqui
parada

(Alice Ruiz)

 

 

 

 

 

 

Cantar

Cantar de beira de rio:
Água que bate na pedra,
pedra que não dá resposta.

A Viagem

Quem é alguém que caminha
toda a manhã com tristeza
dentro de minhas roupas, perdido
além do sonho e da rua?

 

Noite que vem por acaso,
trazendo nos lábios negros
o sonho de que se gosta.

 

Das roupas que vão crescendo
como se levassem nos bolsos
doces geografias, pensamentos
de além do sonho e da rua?

 

Pensando no caminho
pensando o rosto da flor
que pode vir, mas não vem

 

Alguém a cada momento
vem morrer no longe horizonte
de meu quarto, onde esse alguém
é vento, barco, continente.

 

Passam luas – muito longe,
estrelas – muito impossíveis,
nuvens sem nada, também.

 

Alguém me diz toda a noite
coisas em voz que não ouço.
Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

(João Cabral de Melo Neto)

Cantar de beira de rio:
o mundo coube nos olhos,
todo cheio, mas vazio.

(…)

(Cecília Meireles)

 

 

 

 

 

 

Um dia voltarei à morada das papoulas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.

(Albano Martins)

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