Luz

As Nuvens e O Sol

 

 

 

O Sol e As Nuvens

O sol é um menino alegre que vem todo dia banhar-nos de luz

Um menino mudo para as linguagens da terra

Um cego gigante para as coisas humanas

E dias cinza há

Em que nuvens invejosas vêm escondê-lo

De nós a quem as nuvens odeiam e amam

E caem sobre nós

As nuvens cheias de ciúmes e emoções mal resolvidas

E de outro rompante de quando vieram se vão

No entretanto

O sol

Sempre nos retorna

E sem nenhum ressentimento nos dirige a olhar para as nuvens

A assistir nelas o nascimento da aleatoriedade

O deslumbre que vaga entre a inconstância das formas e a constância das causas

As consequências incalculáveis da impermanência

O sol constante

Tanto passageiro quanto nós

Apenas de uma brevidade composta de intervalos maiores

E com os seus lábios de fogo o sol nos beija

E com os seus braços de ferro o sol nos abraça

O sol

Na ausência das nuvens nos prende

E nós a muito contragosto ficamos à sua mercê

Muitíssimos pequenos perante sua ternura implacável

Esquecidos de nossos dias sem ele

O sol

Sempre o generoso

Não nos pertence

Pertence ao universo

E é por ele e não por nós que se desdobra e estende

Em todas as direções para o nada

Sem contar o tempo e a quem se doa

Enquanto viaja

O sol

Caminha

Para afora e além dos horizontes cabíveis

E dos dez pequenos planetas

O nosso sol gigante

Somente é um menino

Um entre tantos

Pulsando

Incessantemente pulsando a mesma mensagem

Que se lhe coubesse traduzir por palavras

Se obtivesse a permissão para dizer tudo

Num signo

Diria o sol

Num verso cabível:

 

Luz

 

 

 

 

Juçana

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3 comentários sobre “Luz

  1. Juçana você continua muito inspirada, muito linda sua poesia, adorei!

    Bjs

  2. Adi

    Que bom! :)

    Seria interessante se a gente pudesse analisar de onde nascem os poemas… às vezes, é de algo muito pequeno que algo grandioso nasce… mas péra, não estou insinuando que o meu poema é grandioso, e nem de que ele nasceu de algo pequeno, só que ele nasceu de uma insuficiência, o poema que fala dessa suficiência redonda do sol para nós, nasceu de um haicai, assim:

    Queria dizer-te tudo
    E que coubesse
    Num verso incabível

    E desdobrando essa simples ideia, vieram outros haicais – quero publicar daqui a pouco, mas ilustrados com imagens de natureza, e estou demorando na escolha das fotos, acho importante…

    Mas, Adi, assisti recentemente a um documentário sobre o Bardo Todol, sobre O Livro Tibetano dos Mortos, narrado pelo Leonard Cohen… acho possível que já tenha visto… em todo caso, fica a dica, aqui com legendas em espanhol:

    Parte I

    Parte II

    E estou aproveitando para reler os comentários do Jung a respeito do livro…

    Tudo isso tem me proporcionado alguns insights nessa área…

    Sempre o meu disparador parece circular em torno das questões da anima e do animus, e, apesar de eles serem já profundos, quase o mais profundo a ser alcançado num trabalho psicológico individual, em algum momento, eles precisam ser “transcendidos” (não sei se essa é a melhor palavra), porque o que faz estarmos nessa roda cíclica de samsara – e reencarnarmos – é o desejo sexual… não é outra coisa e, em não havendo o desejo (lembra a música do Chico “o que será que dá?”), nada impede a dissolução do ego na clara luz… e eu disse insights, mas uma dúvida muito me angustia e atormenta, não sinto que podemos ou devemos ir para a “clara luz” na hora da morte, deixando para trás todo o sofrimento dos seres irmãos… e não é questão de fazer votos de bodisatva e está tudo resolvido… o que é um bodisatva? é um ser que pode cair tb, a qq momento, pode se iludir, porque ele está na roda e não é buda – senão, não estaria mais aqui…

    O que vc acha? Eu não tenho com quem trocar essas ideias da seara budista, e seria muito bom poder conversar sobre isso, só conversar… se preferir, pode me escrever por e-mail? ou lá no Anoitan, posso colocar num post esses vídeos e fazer um comentário com os comentários do Jung…

    O que vc acha? :)

    Obrigada!

  3. Oi Juçana,

    Ficou muito bonita sim, e que interessante sua forma de inspiração, ou de pescar e dar forma ao que ainda não havia.

    Andei meio sem tempo esses dias porque estava com visita aqui em casa na Rússia, minha filha e o noivo vieram nos visitar e voltaram pro Brasil domingo passado…

    Dias antes deles virem, ou seja, em final de Janeiro e começo de Fevereiro, estava justo elaborando um post sobre anima/animus, e também montando aquele (antigo) sobre os qliphoth, aí deixei de lado até tudo passar. Demanda tempo e também sou um pouco supersticiosa, rsrs. Verdade! preferi mexer com qliphoth depois da visita deles. Qliphoth é assunto que tem que ter um pouco de cuidado. Não lida com aspectos da sombra pessoal, vai mais além porque lida com aspectos da sombra do coletivo, assim é que compreendo.

    No meu entender qliphoth se relaciona com a desconstrução de formas pensamentos (boas ou não) do coletivo. Pra gente chegar no inconsciente coletivo, ou seja, na psiquê objetiva, precisamos enfrentar um mar de construções coletivas que impregnam a psiquê individual, e que num certo sentido, impede de realizar o si-mesmo.

    Porque estou relacionando qliphoth com anima? Porque justo, é a anima/animus que nos leva a integração com o potencial impessoal.

    Sabe Sem, sobre o desejo sexual, está totalmente relacionado com o amor. Numa expressão mais material amor se manifesta como desejo sexual; mas a energia sexual é também atração dos opostos e que leva a união de corpos; quando se expressa como amor, nos leva a união dos seres, e claro quando se manifesta internamente, nos leva a união com nós mesmos e de nosso oposto polar, com o animus, com os nossos vários aspectos internos. Mas isso ainda não é a união final, porque esta parece ser uma dissolução. É sim, literalmente a dissolução do eu.

    No tantra do budismo, a bem grosso modo, temos que elaborar uma forma, imagem do buda, ou da mandala, e meditar nessa imagem mental, com o controle da respiração. Quando essa imagem estiver muito bem elaborada, o meditante imagina se fundir com essa imagem, até um dia, no samadhi, não haver distinção entre o corpo da imagem do Buda e do meditante, isso se realiza na consciência, mas está totalmente relacionado com a energia kundalini (que é fundamentalmente sexual). Mas, ainda, isso parece ser a união dos dois primeiros aspectos do caminho tríplice do Budismo, ou seja, corpo e fala – e assim, se dá o “corpo da forma”, mas ainda não unido ao “Vazio” – ou potencial – que requer uma outra longa etapa de desconstrução.

    Claro que coloquei aqui muito grosso modo, precisa de um post mais elaborado pra gente trocar figurinhas, rsrs.

    Adoraria que vc colocasse os vídeos lá no Anoitan pra gente discorrer melhor.

    Vou assistir aos vídeos com calma e ler sua nova poesia. :)

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