Nascimento do Outono

 

 

antes de dormir

dois ou três haikais

prece sem pressa

 

Alonso Alvarez

 

 

 

Silêncio

 

 

Assim como do fundo da música

brota uma nota

que enquanto vibra cresce se afina

até que em outra música se cala,

brota do fundo do silêncio

outro silêncio, torre aguda, espada,

e sobe e cresce e nos suspende

e enquanto sobe caem

recordações, esperanças,

as pequenas mentiras e as grandes,

e queremos gritar e na garganta

o grito se desmancha:

desembocamos no silêncio

onde os silêncios emudecem.

 

 

 

Octavio Paz

 

 

 

Sementeira

 

 

O poeta

faz agricultura às avessas:

numa única semente

planta a terra inteira.

 

Com lâmina de enxada

a palavra fere o tempo:

decepa o cordão umbilical

do que pode ser um chão nascente.

 

No final da lavoura

o poeta não tem conta para fechar:

ele só possui

o que não se pode colher.

 

Afinal,

não era a palavra que lhe faltava.

 

Era a vida que ele, nele, desconhecia.

 

 

 

Mia Couto

 

 

 

Pequenas Coisas

 

 

Falar do trigo e não dizer

o joio. Percorrer

em voo raso os campos

sem pousar

os pés no chão. Abrir

um fruto e sentir

no ar o cheiro

a alfazema.

 

Pequenas coisas,

dirás, que nada

significam perante

esta outra, maior: dizer

o indizível. Ou esta:

entrar sem bússola

na floresta e não perder

o rumo. Ou essa outra, maior

que todas e cujo

nome por precaução

omites. Que é preciso,

às vezes,

não acordar o silêncio.

 

 

 

Albano Martins

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