Via Sacra

 

 

 

 

 

 

A Lenda da Prostituta Evelyn Roe

Quando veio a primavera e o mar ficou azul
A bordo chegou
Com a última canoa
A jovem Evlyn Roe.

Usava um pano sobre o corpo
Que era bonito, bem vistoso.
Não tinha ouro ou ornamento
Exceto o cabelo generoso.

 

 

 

 

 

 

“Seu Capitão, leve-me à Terra Santa
Tenho que ver Jesus Cristo.”
“Venha conosco, pois somos tolos, e é uma mulher
Como não temos visto.”

“Ele recompensará. Sou uma pobre garota.
Minha alma pertence a Jesus.”
“Então, pode nos dar seu corpo!
Pois o seu senhor não pode pagar:
Ele já morreu, dizem que na cruz.”

 

 

 

 

 

 

Eles navegaram com sol e vento
E Evlyn Roe amaram.
Ela comia seu pão e bebia seu vinho
E nisso sempre chorava.

Eles dançavam à noite, dançavam de dia
Não cuidavam do timão.
Evlyn Roe era tímida e suave:
Eles eram duros e sem coração.

A primavera se foi. O verão acabou.
Ela corria à noite, os pés em sujas sapatilhas
De um mastro a outro. Olhando no breu
Procurando praias tranquilas
A pobre Evlyn Roe.

 

 

 

 

 

 

Ela dançava à noite, dançava de dia.
E ficou quase doente, cansada.
“Seu Capitão, quando chegaremos
À Cidade Sagrada?”

O capitão estava em seu colo
E sorrindo a beijou:
“De quem é a culpa, se nunca chegamos?
Só pode ser de Evlyn Roe.”

 

 

 

 

 

 

Ela dançava à noite, dançava de dia
Até ficar totalmente esgotada.
Do capitão ao mais novo grumete
Todos estavam bem saciados.

Usava um vestido de seda
Com uns rasgões e remendos
E na fronte desfigurada trazia
Uma mecha de cabelos sebentos.

 

 

 

 

 

 

“Nunca eu te verei, ó Jesus,
Com este corpo pecador.
A uma puta qualquer
Não podes dar teu amor.”

De um lado para o outro corria
Os pés e o coração começavam a lhe pesar:
Uma noite, quando já ninguém via
Uma noite desceu para o mar.

 

 

 

 

 

 

Isto se deu no fim de Janeiro
Ela nadou muito tempo no frio, pois
O tempo melhora, os ramos florescem
Somente em março ou abril.

 

 

 

 

 

 

Abandonou-se às ondas escuras
Que a lavaram por dentro e por fora.
Chegará antes à Terra sagrada
O capitão ainda demora.

 

 

 

 

 

 

Ao chegar ao céu, já na primavera,
São Pedro na porta a recusou:
“Deus me disse: não quero aqui
A prostituta Evlyn Roe.”

E ao chegar ao inferno
O portão fechado encontrou:
O Diabo gritou: “Não quero aqui
A beata Evlyn Roe.”

 

 

 

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Assim vagou no vento e no espaço
E nunca mais sossegou.
Num fim de tarde eu a vi passar no campo:
Tropeçava muito, não encontrava descanso
A pobre Evlyn Roe.

 

 

 

 

 

Bertolt Brecht
– Tradução de Paulo César de Souza

A Land Art é de Richard Shilling

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