Dois Poemas de outra Era

O Possesso

 

 

I

 

Então acreditei nos poderes milagrosos do vento

do mar.

E fui andando

em direção às ondas, e havia como

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que era de outras pessoas e doía

como se fosse minha; e teus versos,

companheiro, no último bar

da madrugada; e tua revolta,

companheiro, e tua angústia; e sangue

nos lábios daquele que não

retornará; e a palavra

que eu não disse — a mesma que ela também

poderia dizer — e assim não

encantou aquela tarde; e as outras

palavras — as que magoaram,

feriram, humilharam; e as mentiras

do medo e as mentiras

da maldade; e o áspero leito

do sonho

de tantos sonhos,

o áspero leito;

e a árvore

assassinada; e as ilhas

bem-aventuradas

que a minha hesitação não te ofertou

no momento próprio, namorada; e a distância

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V

 

E cheguei o mais perto possível do vento

do mar. Por um instante

fechei os olhos e me vi

fora de mim mesmo, como se outra

pessoa. Melhor: vi aquele que fui em

certo momento, não sei

se de modo falso

ou real. Vi aquele

— e bastava. E a paz

vinha do teu corpo, e era a mesma

de alguém que ficava longe,

ainda mais

longe: um menino

sem o peito escalavrado de sonhos

e carências.

 

 

VI

 

Um menino. E havia azul

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assassinada, e as ilhas, e a distância, e o

murmúrio cruel, e a ladainha

das ansiedades…

 

 

VII

 

E o vento do mar.

Sem nenhum milagre.

Dolorosamente sem milagre.

Apenas vento do mar.

Apenas vento.

Vento.

 

 

Sobre o Penhasco

 

 

I

 

Alguma coisa vai chegar de longe,

pensei,

enquanto caminhava pela beira

do mar. Sinto que alguma coisa

chegará de muito longe, repeti,

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outro cigarro, as mãos trêmulas. Por que

tremiam-me as mãos? Ah, é uma longa

história. Talvez nem mesmo eu

possa contá-la. E contá-la

para quem? Para quê? Esquece,

coração.

 

 

IV

 

E eu caminhava. Fui, outrora,

talvez,

um andarilho sem destino,um

vagabundo de estrada. Devo ter

amado o amanhecer, o crepúsculo, a flor

silvestre. Gosto de pensar

que fui um homem assim. E naquela tarde,

caminhando pela beira

do mar, amei,

como nunca,

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em mim,

na minha vida!

 

(Ah, a alma do homem

é como as exclamações que os antigos

habitantes de Ática lançavam

para expressar,

num só tempo,

a tristeza pela morte

de Egeu

e a alegria pelo retorno

de Teseu. Exclamações

confusas,

formadas

por gritos de aflição e cantos

de triunfo. A alma do homem

é semelhante a essas vozes,

meu amor.)

 

 

VI

 

Isto eu disse sem palavras

e sem resignação. O vento seco se tornou

mais forte, duro, quase

intolerável. Olhei em busca

da mulher e da criança, e eis que eu estava

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a flor

silvestre. Fui sempre aquele

que, de pé

sobre estertores abissais,

anoitece

voltado para o que não chegará

jamais.)

 

 

 

Sete Poemas de Outra Era —

Ruy Espinheira Filho

As imagens daqui

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