Três Poemas de outra Era

EM  AKDYR

 

 

I

 

Das minhas falsas recordações,

com extremo cuidado,

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muitas tristezas,

sombras no olhar,

insegurança

nas mãos e nas palavras. E me contaste

muitas coisas: falaste

da neve negra que caía

em Ully; dos homens

que se matavam entre as rochas

das montanhas; do brilho

desesperado

que havia nas lágrimas das virgens encarceradas

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paciência. Todas as noites, ao estudar

os hieróglifos das constelações,

eu galgava os sete pavimentos

da torre babilônica. Por vezes incontáveis,

o imperador da China fez soar

seus tambores

no Altar da Pátria. Meu coração

rangia

como um velho portão

enferrujado. Mas eu estava firme,

meu amor.

 

V

 

A estrada começou a ficar livre dos fantasmas

melancólicos. Em teus lábios

já começava a se formar um leve

sorriso. Os corvos iam morrer

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na solidão. Agora, o que dizias

eram coisas simples

e puras.

 

 

VII

 

De repente, sem aviso, me levaste para

outro lugar,

outro mundo,

e vi que conhecias

todos os meus segredos. Paraste um pouco na rua

da minha infância, sob uma árvore morta

há mil anos,

e chamaste pelo nome o cão

que correu

para me receber. Tiraste do ar uma folha

de papel, onde,

com letra infantil,

estava escrito um poema

ingênuo. Em seguida, sorrindo, eras uma

presença mágica em minha

adolescência. Passeavas num jardim

antigo, indiferente

aos delírios do meu

engano. Tinhas três ou quatro nomes,

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de tuas palavras, a paz

se fez em mim. Abri os braços

e falei: “Sim, todo o mal

já passou. Descansa,

namorada.”

 

E o mistério era grande

como Deus.

 

 

ATÉ  QUE  A  VIDA  NOS  SEPARE

 

 

Teu riso é límpido.

Teu corpo é claro e suave.

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Há aplausos e grandes risadas.

Certas leis são fartamente distribuídas para serem insultadas,

rasgadas,

incineradas

publicamente.

E o povo dança sobre as cinzas dessas leis

enfim justiçadas.

 

Instantes depois estamos na praia.

Alguém nos acena de um veleiro que passa

— talvez Simbad, talvez Robinson Crusoé —

e respondemos com amplos gestos de saudação.

 

Não sei como aprendeste a conversar com as ondinas.

Vejo-te falar com elas como se fossem velhas amigas,

numa linguagem doce e intraduzível como o marulho

das ondas.

E recebes notícias de ilhas distantes,

uma pulseira de coral dos abismos

oceânicos, o gancho que substituiu

a mão decepada de um bucaneiro

das Antilhas.

E andamos pelos campos,

e nos acariciamos,

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reabrirá as praias,

despertará a cidade dos homens

repousados.

Mas tu não precisas, nem eu, de repouso.

 

Estamos lúcidos, seguiremos lúcidos.

Sinto vontade de dizer-te palavras novas,

feitas especialmente para transmitir o ritmo

do meu coração.

Mas fico em silêncio, envolto

em tua presença,

luminoso de alegria.

Já não conheço meu nome, nem a minha idade, nem

a minha terra.

Bastam-me este momento

e esta estrada,

o cheiro do mato,

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esse chamado, pleno

de sereias e corais,

algas e anêmonas,

praias longas

e mulheres de pele de ébano

dançando à roda do fogo.

 

Dançando.

 

Uma dança sensual

que,

principiando lenta,

vai pouco a pouco se tornando

mais e mais

rápida,

bravia,

vertiginosa,

e cujo significado é o amor livre

e selvagem

das ilhas primitivas.

 

Eu escuto o chamado e me dou ao sortilégio.

Abro amplamente minha janela, meu coração.

 

 

2

 

Sou um pobre homem da cidade.

Todas as minhas aventuras são uma só,

e nem são aventuras.

Durmo e acordo com o ruído do trânsito.

Ou então não durmo: saio em romaria

pelos bares.

E para onde? Lugar nenhum.

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(Sim, talvez eu tenha sido,

em abissal pretérito,

um nativo da ilha Maria.

 

Memórias ancestrais. Tantos mistérios.

Tantos.)

 

 

4

 

Adeus, vou viajar até o outro lado

da brisa.

 

Estou cansado,

muito cansado mesmo.

Cansado de ficar.

 

Já não quero mais vestir estas roupas.

Não quero mais asfalto, nem máquinas,

nem últimas notícias, nem carteira

de identidade, nem fumaça

de chaminés. Como aquele carioca

que se despiu numa rua do Leblon,

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como sua terra. E será também

uma ilha,

onde eu,

náufrago de tantos equívocos

sentimentais,

repousarei de corpo

e alma.

 

Em Maria,

ilha e mulher,

serei feliz.

 

Não caçarei, não pescarei, não colherei

frutos:

viverei de algas

como um pacífico iguano marinho

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que se devorou na inverossimilhança roaz

de sua própria lenda.

 

 

 

Sete Poemas de Outra Era

Ruy Espinheira Filho

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4 comentários sobre “Três Poemas de outra Era

  1. Linda essa série de poemas do Ruy E. Filho, linda a série de fotos em calmo azul… e o Sopoesia continua tão bonito como um retrato de nossa alma.
    Parabéns Sem.

  2. Oi, Adi, eu quase tive uma síncope qd li esse livro, desse, até então, a mim, desconhecido poeta… o primeiro poema, Graal, creio que não vou publicá-lo aqui, mas é um deslumbre, igual ou maior aos publicados, de loucura e de desconstrução… esse pequeno e singular livro do Ruy Espinheira, ao lado de Viagem de Cecília, Bagagem da Adélia, Magma do Guimarães Rosa, Ode Marítima do Álvaro de Campos, Mensagem de Pessoa, Estrela da Vida Inteira do Bandeira -a lista tá aumentando – já está na minha lista de livros de poemas preferidos… :)

    Sabe o que estou fazendo? Escrevendo (dando uma pausa agora que preciso ir ao banco e mercado), mas escrevendo o maior e o mais complicado texto que já escrevi p/ o Anoitan – hoje está tudo grandioso – da recepção mútua de Saturno e Plutão e suas implicações com os movimentos de rua no Brasil, em junho último. Eu não desisti do texto não. Só ainda não publiquei pq, a cada vez que ensaiava, aparecia algo novo a acrescentar… hoje foi o tal do trígono perfeito que acontece agora entre Saturno, Júpiter e Netuno… eu começo o texto agora falando a esse respeito… mas nem tanto é trabalho de pesquisa e sim de reflexão, de síntese – essa agora é forte – de tudo o que teve e tem ainda alguma importância na minha vida… eu vou publicar em breve, ele já está a meu ver na sua forma + ou – “definitiva”, só estou ajuntando uns retalhos de forma a não aparecerem os remendos, as costuras… espero que acrescente significado à vida das pessoas q o lerem e, como sempre, eu conto com o seu feedback… acho que vou expor a nu a minha posição política como nunca, pelo menos como nunca fiz no Anoitan… não sei exatamente se vc irá concordar, mas nem é preciso, sinta-se livre para defender seu ponto de vista, seja lá ele qual for… se podemos discutir Religião, porque não Política? :)

    Bjão

  3. Fiquei muito empolgada com o post para o Anoitan, estou aguardando ansiosamente. :)

    Bjão

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