Perfeita Vida Imperfeita

 

 

imperfeita

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a vida é perfeita

 

 

 

 

Et cetera e O Tao

 

A terra ao redor dos teus pés é mais doce e caminhas
lento
mas célere
ao centro do vale

contra o

dito

Quase não se vê quanto corres
tamanha
tua elegância

Corres
como quem deslizasses
a mão carinhosa de uma mãe penteando os cabelos da filha

Quase não se vê
mas intensamente se sente
menos opressivo

o ar

ao teu redor

Mais leve o interior vertical desse espaço que ocupas
feito árvore

Tal qual a lua ocupas os pensamentos inteiros do céu
malgrado os maus astros que te acusam
como os homens invejosos acusam a lua por dominar os sentimentos
humanos

Tens então uma parte de lua em razão de meus sentimentos por ti
e outra de água
porque és humilde como a água
procurando sempre o mais baixo para descansar

Mas és mais do que isso
porque vais além disso tudo

Porque és integral

E corres para fora de todas as coisas dúbias
porque és

antipole

mikós

Vais para fora de tudo
e pareces parado
vais como um ser que medita entre o vão de cada passo executado

És então um punhado da matéria ancestral da minha carne
humana
da minha matéria

divi

sível

E por seres divisível és múltiplo

E único
quando em ti te reúnes

Múltiplo e único és como o universo

Então
parte tua comunga com toda essa confusão

in

acabada

que me é tão humana

E eu humanamente sinto
tenho alguma coisa de árvore em meu sangue
alguma coisa de pedra em meus ossos e de terra
na alma

E tudo isso é
a soma
do que me põe a devanear em teu redor

Inventando-te
eu me invento em vidas anteriores

Inventando-te eu renasço para outras vidas

E quando mais ao meu redor eu te sinto
me cabem nas palmas das mãos infinitos reinos de areia

És então a matéria com a qual construo meus sonhos
os meus castelos de imaginação
que o tempo transforma em poeira
que o vento dissipa

És alguma coisa assim
como os grãos de uma areia muito seca e fina sem cor definida

a al

ma

do meu Hermes

multi

colorido

Não
não és nenhum deus
nem és ser

contra

digo-me

és algo que tento conter
mas quanto mais minhas mãos te apertam
mais me escorrem
os sonhos

Eu sou a ampulheta e tu és a areia sem governo
e estamos os dois a espera de um novo tempo
de um deus novo mais velho do que a humanidade

O meu mundo contigo é mais vivo
porque transmutas meus sonhos transformista que és

Contigo foi que aprendi serem siamesas as irmãs

vida

e morte

Mas eu
agora

um

vivo

ignoro a morte

Faço uma espécie de malabarismo tortuoso com as minhas mãos mágicas
e oculto a morte com panos negros

Depois me ilusiono com os meus olhos cegos
que apenas reconhecem a existência daquilo que enxergam

Essa minha vida humana de aqui

e agora

Mas eu
mais que humano
eu gostaria de ter sido um peixe numa encarnação qualquer anterior
para sentir todo o oceano a me escorrer pelas escamas
ser o mar o meu universo
todo o meu ar e único alimento

Eu
um ser sem consciência
feito um peixe
mas ser

um ser

ser

Mais que humano
eu gostaria de ter sido uma pedra
testemunha silenciosa do alto qualquer de uma montanha

Eu gostaria
desde os seios da minha mãe segura ter sido pedra testemunha do tempo
e ver maremotos e vulcões destruírem e reconstruírem as paisagens
ao meu redor

Eu
pedra

por

pedra

por milênios desse meu tempo humano de agora
ser testemunha
dos fundamentos do mundo

Até que nascitura do coletivo eu me desprenderia
pedra

indi

vi

dual

Afinal
pedra da pedreira
tempo infinito não é tempo eterno
e as pedras têm por destino
rolar

Mas eu
pedra já emancipada iria me varrer pelo chão entre as folhas
e rolar junto de outros pedriscos

ir

mãos

Sim
eu gostaria mais disso
do que ter sido tão somente
humano

Eu gostaria de ter sido pedra folha erva poeira árvore ao vento
para aprender com o meu pai tempo
as lições da nossa mãe natureza

A mais pura alquimia do Tao

Eu então saberia

Eu gostaria

De ter rolado entre as pedras
de ter nadado entre os pescados do mar
do que ter sido

simples

mente

humano

Construtor de civilizações

anti

physis

As pedras e os peixes não fazem poesia
são poesia

Existindo

São

Algo entre os seres e os entes

interexistentes

Mas eu
ser humano
não posso escapar ao meu destino de ter o verbo por herança

Então
é com palavras que reconstruo minha história
a cada nova geração

A minha vida permeada de lógica

A minha vida cheia da lógica
do mundo

Eu invento novos mundos e novas poesias a cada nova geração
eu invento novos deuses e faço rolarem as pedras
com meu verbo

A cada nova

gero

ação

Com um punhado de palavras e muitos silêncios crio mundos
com uma pequena parte de lógica e grande imaginação crio
universos

E o que entendo eu de cada mundo criado concebo ser a minha arte

Eu que invento o que me inventa
eu que abro o que me abre os sentidos para outros mundos
possíveis

Eu e os meus mundos
reinventados
somos sempre os mesmos

Somos mais cheios de mistérios do que de lógica e consciência

E eu aqui
humano
tenho consciência disso tudo
mas permaneço sem saber se o meu legado é benção ou maldição

O mundo humano ao qual pertenço
fundamentado mais com palavras do que com pedras

Percebo
a humana insatisfação

triste

mente

pela falta de fundamento

ali

cerce

ar

Talvez porque voar será a nossa maior grandeza
nascemos sem raízes
desprendidos das árvores

Tristemente eu percebo o desapego humano pelas árvores

Volto então a ti e ao teu célere passo parado porque elegante

Volto ao que me tira o fôlego
teu

pas

so

Sei que vais parar somente quando chegares ao fim
quando chegares ao fundo
ao mais fundo subterrâneo onde os meus devaneios mal te alcançam

ali

longe

Onde as palavras humanas desfalecem de sentidos
onde não consigo divisar a fronteira entre o meu ser individual
e o meu ser coletivo

Algo assim como ser
sem ser
definido

quase-ser

pedra

Vais então descansar
como a água só descansa quando mergulha no fundo

Vais descansar quando enfim chegares ao lago
ao fundo do lago
no centro do vale mais fundo onde teus rizomas florescem

Ah
os teus rizomas

Seria impossível falar de ti sem falar dos teus frutos

E os teus frutos
são também em parte produto de feitos humanos
como são essas minhas inquietações que sobre ti se debruçam

Então me pergunto
quanto dos teus frutos não serão parte das minhas invenções

Eu
que até vida nas pedras insuflo

Mas considero também aquela tua outra parte além
humana

supra

intra

Mistérios intrínsecos ao teu ser de coisa além-coisa
que minha lógica em vão persegue
pequenos e grandes milagres que nem minha imaginação consegue alcançar

Penso nisso
e súbito num passo inumano teu de mágica obscura
materializado bem na minha frente me perguntas
qual é minha missão

E eu te devolvo a pergunta
se foi desde o início essa tua intenção ou foi somente o acaso
de um destino o que te conduziu a isso
de pagar à morte com a vida

Afinal qual é teu segredo de ter a carne livre de verbo
apenas carne
por testemunho

Um ser assim puro
de poesia pura

Eu me pergunto e me dou como resposta que é por tudo
e calado me satisfaço com teus rizomas em flor

A tua resposta vem desde tuas entranhas
e floresce à superfície
sem palavras

E para mim há então mais verdade nesse teu corpo
do que em qualquer filosofia existencial que se possa conceber

Porque a tua verdade está no teu testemunho de carne quieta
de árvore

E porque tens a alma da pedra
profundamente te amo

Contigo ao meu redor aprendo mais ética do que em filosofias
humanas

Mas continuo sonhando
humano que sou
nesse meu destino inescapável de criar ação

car

ma

Mas quanto mais em mim mergulho mais no meu fundo eu te encontro

E quando uma luz tua me perpassa
descubro que és o meu eu mais completamente o outro

Eu sei

re

torno

somente quando chegares ao fim terei meu princípio

Quando
quem sabe
despertarei desse meu sonho de ser humano

Quem sabe iluminado

Quem sabe um ser mais pleno de silêncios
com todos os teus frutos ao meu redor

Eu sei
os teus mais doces frutos vão ser colhidos somente ao final do outono
após longuíssimo verão

E me dou aos koans sem respostas
se será no final desse meu sonho humano de estar consciente

Eu te imagino em meu fim
que me esperas ao final dessa jornada
sem saber ao certo de quem foi a jornada

Mas sei que no meu fim estarão lá todos os teus frutos
dispostos e abertos em meu redor feito os braços de um amigo

Então penso no tempo que meus braços vão demorar para crescer
ao ponto de poderem também te enlaçar

Porque sou pequeno para o teu tamanho
mas crescerei
tenho os meus braços curtos mas não me desespero
porque sei os pequenos têm por único destino
crescer

Por fim também te enlaçarei

E seremos
nós
menos feitos do que fizemos e mais do que faremos

existisseremos

Não serás mais assim
algo
distante de mim
e que em separado analiso

Seremos enfim o que nunca ousei
não seremos mais eu e nós mil coisas
distintas

Nem serei
mais eu

Seremos

O tempo

Nós
a soma
do que tanto aguardei
e que nunca antes de nós existiu

Existireiemos

Ser

por

fim

Então

Confesso que estive o tempo todo dessa minha jornada construindo esse sonho
de aniquilamento

do ser

em júbilo da não-coisa

Porque só a não-coisa guarda em si o paradoxo do ser verdadeiro
em seu interior

va

zio

que tudo pode conter

O ser verdadeiro
está além do ser humano

E o que tanto esperei nem era por mim
senão a parte em mim mais humana
que pertence a toda a humanidade

Num limite será verão
no outro será a hora de nos fartarmos com os frutos dourados do outono

No centro do mundo invernal
onde teus rizomas florescem

Numa eterna

Primavera

 

 

 

 

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