Criação

Enigma

 

 

I

Os pensamentos da alma vivem pela boca do tempo

Olha!
A natureza aprontando palavras…
Na terra boa as sementes de vento
rebentando em brotos
para fora e o alto

E cresce a ventania…
Embaralhando as palavras
Formando sentenças
Enigmas
por decifrar

E a hera
enrodilhando-se pacientemente no muro
copiando a seu ritmo
as caraminholas
do vento

Que casal engraçado!
Ele tão vento ela lentíssima

Ah as voltas que o pensamento dá…
A selvageria que é os pensamentos crescerem livres
feito as margaridas entre os trevos pelos campos
sem cuidados

Ah as palavras dispostas numa roda
no saguão do poema
aguardando…

Os pensamentos que esperam
nem um segundo antes ou depois
hão de vingar…

E o que se está aprontando pelo tempo
e que a natureza anseia por explodir
Em flor?
Em poema?
Em criança?

 

II

Os amores da alma são amargos na boca do tempo

Pelos amores que a alma desconhece mas
pressente
estão por vir…

A cada dia na sua busca constante pelo sol
a cada noite de uma forma diferente
a seu modo feminino
de lua-existir

São nas noites sem lua e ao relento
que os amores futuros salivam mais
Seivas amargas
Quilos abundantes de um mel viscoso
e que incontroláveis escapam
dos casulos colhidos
e macerados
pelo tempo

 

III

De flor-pensamento a fruto redondo e vermelho

A natureza está aprontando pacientemente o seu botão
e que explodirá – doce e maduro – a seu tempo

Rebento da alma
tão volátil
e perene à memória
quanto o perfume

Poema vivo
tal o sentimento de algo
que não se sabe bem o que é
mas que se pressente
no futuro existir
e que talvez apenas a si se procure
enrodilhando-se sobre o seu centro

Criatura
e criador de si mesmo
numa busca incessante de sentido
para a vida

Sobretudo

Enigma

Como a palavra
ou a seta

Expressão subjetiva do objetivo
e que se direciona
para a luz
e o calor

Ah a palavra que falta…

 

 

 

 

*

 

 

 

 

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

—————————

Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

—————————

(excerto)

UMA FACA SÓ LÂMINA
ou serventia das ideias fixas

João Cabral de Melo Neto

 

 

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